Entrevista com Tallis Gomes — ansiedade, fama, déficit de atenção e poker

Tallis Gomes é fundador do Easy Taxi, da Singu e apareceu na revista Forbes como um 30 under 30. Além disso, foi eleito pelo um dos jovens mais inovadores do mundo pelo MIT e é considerado uma das 25 pessoas mais influentes da internet brasileira pela revista Galileu.

Nessa conversa falamos sobre a trajetória para alcançar o sucesso, as principais dificuldades que ele precisou enfrentar e seus conselhos para líderes aspirantes.

Por liderar empresas como a Easy Taxi que cresceu tão rápido, certamente você já passou (e ainda passa!), por momentos de alta pressão e ansiedade. Você tem um processo para conseguir lidar com isso? E como você fez para evoluir essa habilidade desde o nascimento da empresa?

Eu sou um cara extremamente ansioso, então passo por esse processo de gerir uma empresa que cresce muito rápido, essas escale ups, acabam atrapalha muito a minha vida pessoal. Eu acabo focando muito no negócio, e desfocando em a minha vida pessoal, saúde, relacionamento e tudo mais.

Comecei a Easy Taxi muito novo e sem experiência. Lá era só trabalho, extremamente focado na companhia, a cada duas semanas em um país, fuso horário diferente, cultura diferente, pressão de crescimento… Nessa brincadeira de focar 100% na empresa, o colesterol foi lá para o alto, ganhei 18 quilos e terminei um noivado.

Dessa vez agora com o Singu, eu estou fazendo completamente diferente. Eu tenho esse equilíbrio, e o que eu estou fazendo para poder lidar melhor com essa pressão, é o jiu jitsu. O jiu jitsu mudou completamente a minha vida, ele mudou meu processo de decisão, ele me deixou mais calmo, me deixou mais confiante, para lidar com um problema. Porque empreender nessas empresas que crescem muito rápido, é ter certeza que todo dia vai ter um problema de que você não tem a mínima ideia de como vai resolver. Basicamente você começa seu dia com isso.

E acaba sendo uma relação maníaco-depressiva. Você está muito feliz em uma hora, duas horas depois você está muito triste. A noite você recebe um e-mail que virou o melhor e-mail da sua vida e acorda de manhã com a pior notícia da sua vida. Você vive esses ups and downs o tempo inteiro. É adrenalina o tempo inteiro, e é viciante .

Tallis disputando o campeonato Sulamericano de ji-jitsu.

Eu acabei me viciando nisso, mas o jiu jitsu me ajudou agora a controlar um pouco isso e ter um pouco mais de tranquilidade para tomar a decisão. Quando você está ali em sua situação extremamente difícil, você pára, racionaliza, pensa os próximos passos que você vai fazer para tomar uma decisão.

É difícil no momento, quando você está no meio do problema, ter essa calma, só que o jiu jitsu faz você ter essa calma. E eu estou levando isso, no meu processo de gestão, que está me ajudando muito agora.

Então na Easy Taxi não tinha um método, era viver ansioso?

Antes e durante a Easy Taxi era uma loucura. Por isso que minha vida pessoal foi para as cucuias. Como eu disse, ganhei 18 quilos, colesterol lá no alto, estava extremamente estressado.

Eu parei de fazer atividade física, sempre viajando e em um fuso horário diferente. Minha diversão acabou sendo comer e beber para caramba, restaurante todo dia. Então você acaba mudando um pouco o hábito alimentar, sua vida, e você ganha muito peso. Eu, como tenho uma tendência mais de engordar, engordei demais, estresse também. Para piorar, eu não durmo direito. Durmo de 3 a 4 horas por noite, e isso acaba atrapalhando também.

Na Easy Taxi assim, era mais a loucura, de vamos para cima, vamos resolver, eu quero fazer tudo. Hoje em dia na Singu, não. É mais cadência, é mais planejamento. Tem pessoas que eu confio do meu lado para delegar aquilo e esquecer daquele negócio e focar os meus esforço naquilo que eu acho que eu realmente posso fazer a diferença.

Que tipo de problema ou situação do dia a dia você sente que mais impacta sua performance de modo geral? Por exemplo, problema de família, ansiedade, estresse, problemas com funcionários, situações financeiras…

Com certeza o déficit de atenção (TDAH — Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) me atrapalha muito. Sou hiperativo e eu tenho muita dificuldade de focar em alguma coisa por muito tempo, não aguento ficar parado.

Você foi diagnosticado?

Sou diagnosticado, tomo remédio. Mas mesmo assim, não é muito fácil. Como eu passei muito tempo com TDAH, criei o hábito de fazer coisas picadas. Isso é muito ruim quando preciso concluir alguns projetos maiores que necessariamente você não dá para fazer um sprint.

Quem tem TDAH como eu, se a pessoa vai bem, ela aprende a fazer as coisas muito rapidamente, e aprende a ser muito eficiente.

Mas têm coisas que não tem como, que são projetos maiores. Precisa ter etapas, e a gente tem muita dificuldade em cumprir isso. É um trabalho quase que interno, de eu me policiar, ser meu próprio chefe, de conseguir e falar, “você precisa cumprir essa etapa”. É um desafio muito grande, eu brigo comigo mesmo o tempo inteiro.

Tem o lado bom que você faz um monte de coisa né, mas o problema é que você não termina nada.

Isso me atrapalha muito no relacionamento pessoal também. Eu gasto muita energia com relacionamentos pessoais e muitas vezes eles não funcionam bem. Eu faço até análise por isso, para tentar abrandar um pouco mais essa situação para eu conseguir ter uma relação mais normal.

Quando a empresa começa a crescer, é necessário colocar uma camada a mais de gestão. O que você acha que é desafiador no trabalho de coordenadores, gerentes de startup, que crescem rápido?

Fonte: baguete.com.br

O maior desafio, é você conseguir formar outras pessoas que potencialmente poderiam ocupar seu cargo. Você tem um desafio pessoal, de orientar que é “Eu preciso formar um cara que pode me substituir”, mas não necessariamente esse cara vai tirar o meu emprego

Fica aquela apreensão de que se eu fizer isso, eu viro descartável, que é um pouco de insegurança. Isso é um desafio muito grande. Formar outra pessoa é um desafio muito grande, demanda muito trabalho. Nós assumimos que as pessoas sabem as coisas, que em tese são básicas. Achamos que ela sabe que ele tem que responder todos os e-mails antes de ir embora. A pessoa não sabe.

Quando o cara é novo, ele não sabe trabalhar. Ensinar a outras pessoas a trabalhar, ficar em cima também é muito difícil. Acho que talvez o mais difícil desse trabalho é passar a cultura da empresa. Como que eu encaixo esses caras dentro da cultura da empresa?

A cultura é formada por exemplo, não adianta você falar um monte de coisa bonitinha e não seguir. Se você não dá o exemplo, o cara não vai entrar na cultura, ele vai seguir aquilo que você faz.

Aqui nossa cultura é chegar 9 horas da manhã. Se o líder chega às 10, ninguém vai chegar às 9. Você não tem a moral de falar com ele, porque ele vai retrucar, falar “Mas nem você chega”. E se o líder responder “Mas eu sou chefe”, vai essa diferença hierárquica, que é muito ruim, gera uma distanciamento muito grande entre o líder e o liderado, e o liderado não se sente representado por aquele líder.

É uma crise de poder, o líder não consegue influenciar essa pessoa. Essa é a maior dificuldade, você de fato ser um líder, você formar outras pessoas, criar essa conexão com seu liderado e colocar esse cara na cultura da empresa, ensinar esse cara a trabalhar.

Qual conselho você daria para para eles acelerarem seu desenvolvimento como líder?

Tem que estudar bastante, ter muito acesso a conteúdos. O líder necessariamente tem que ler bastante. Tem que ter acesso a papers, acesso a livros, tem que ter referência de coisas que funcionam. Agora talvez o melhor conselho que posso dar para essas pessoas, é a importância de ouvir as pessoas que estão embaixo deles.

E ouvir, não para responder, ouvir para entender. Porque a gente ouve geralmente para retrucar, a gente ouve já pensando na resposta. E esse é um mindset que eu aprendi há pouco tempo, eu a vida inteira, eu ouvi formulando respostas.

Eu tenho que estar pronto, com a resposta na ponta da língua. Isso parece bom, o mundo gosta de pessoas rápidas, inteligentes. Mas não é verdade, quando você faz isso, você só pega a parte do conteúdo que te interessa para você dar a resposta, e você não absorve o que a pessoa está falando.

Muitas vezes nas entrelinhas do que o seu liderado está falando ali, ele está te criticando, de uma coisa que ele está sentindo falta. Seu cérebro exclui a parte da crítica e pega o que ele falou para dar uma resposta como se você fosse o “sabe tudo”.

E ninguém é sabe tudo, é muito comum eu aprender muito com estagiários. Eu me lembro de que uma vez o estagiário me falou: “Olha, você me passa uma função, mas aí você me atropela e faz o negócio”. Eu era muito ansioso, queria tirar isso da frente. E aí quando eu passo uma função para uma pessoa, atropelo e faço a tarefa, eu estou descredenciando completamente a pessoa, estou tirando a confiança dela. E a pessoa fala: “Pô, eu não tenho nem vontade de fazer as coisas que você me passa, porque eu sei que daqui a pouco você vai atropelar e vai fazer do seu jeito”.

Você aprende muito ouvindo essas pessoas de verdade, e não ouvir para responder. Ouvir para entender e criar algum mapa mental de “como que eu vou trabalhar isso dentro de mim?” Ter a humildade de se colocar na mesma posição do liderado ali, e receber e entender essas críticas é muito difícil. O conselho que eu dou é que as pessoas não ouçam para responder, ouçam para entender e trabalhar em cima daquilo que ouviram.

Quais os erros mais comuns você vê líderes inexperientes cometerem?

Bom, o mais comum é incapacidade de delegar, estão os líderes geralmente eles tendem a se achar “o Superman”, querem fazer tudo. A pessoa, quanto menos experiente na liderança, mais ele acha que pode fazer tudo, então ele não delega, até por ego.

A pessoa é cegada pelo ego, acha que vai fazer melhor, mas não vai. Geralmente as pessoas têm uma ou duas coisas que elas sabem fazer muito bem, o resto elas fazem mais ou menos, então é importante saber delegar e achar gente boa. Esse é um erro extremamente comum.

Outro erro comum, que é o que acabei de falar, não ouvir para entender e ouvir para responder. Não absorver a crítica, e não trabalhar naquilo dentro. Esse é um erro muito comum.

E outro erro comum, é gastar muito tempo com bobagem. Por exemplo, reunião. 80% delas poderiam ter sido um e-mail, um whatsapp, não precisavam ter sido uma reunião. As pessoas gastam muito tempo com reunião, quando elas deveriam estar executando alguma coisa. Gastam muito tempo respondendo e-mail, fazendo reunião, aí quando você olha, 5% do seu tempo você dedicou a fazer alguma coisa, criar alguma coisa diferente.

E se você não fizer alguma coisa diferente agora, você não vai ter resultado diferente no futuro. Isso é uma regra na vida. Você precisa começar a fazer alguma coisa diferente. Esse é um erro comuns dos líderes, achar que só executar aquilo que já está dando certo vai fazer com que o negócio cresça. Tem muito líder que fica olhando para a planilha, torcendo para o negócio crescer. Não vai acontecer, ficar coletando número não vai fazer o negócio crescer, tem que tentar fazer coisa diferente.

Você tem 10 anos que faz terapia, não é? Por que você procurou esse tipo de ajuda e como que hoje tem te ajudado a se tornar um profissional melhor?

Eu procurei no início porque meus pais se separaram quando eu era muito novo, eu era muito agressivo no colégio. Primeiro apanhava, depois batia em todo mundo, tive uma vida muito difícil. E acabou que eu procurei a terapia para me ajudar nisso, eu trabalhava a agressividade, essa raiva que eu tinha.

Eu parei por um tempo e voltei recentemente. Encontrei um PHD respeitadíssimo. Eu pensei “Eu quero fazer uma terapia para ver se ele me ajuda nesse ponto fraco, porque eu acho que está atrapalhando a minha vida”, e iniciei ali para ver se de fato, tem alguma melhora.

As pessoas que convivem comigo falam que eu melhorei muito em alguns aspectos. Eu acho difícil perceber esse tipo de coisa, mas é muito mais fácil você ouvir, de fato, quem convive contigo, do que a sua percepção só. Tem coisas óbvias que você não enxerga e vem uma pessoa que olha de fora e fala algo que eu nunca tinha percebido.

Quanto que fama e dinheiro mexeram com a sua cabeça? Principalmente no lado prejudicial disso, porque o lado bom eu acho que é fácil das pessoas imaginarem. Quanto isso já te afetou e prejudicou?

É isso, prejudicou muito no início porque tirou meu foco. Eu comecei a ter acesso muito fácil a dinheiro novo inclusive, além daquilo que eu tinha ganhado. Muito fácil hoje fazer dinheiro com coisas paralelas, que vão de encontro àquilo que eu faço.

Isso tirou muito meu foco no início, eu tive acesso a grupos sociais que eu nunca havia tido na minha vida até então. Comecei a gastar muito tempo em festas, gastar muito tempo com jantares que não faziam sentido.

Fonte: Glamurama

Mas eu comecei a achar o equilíbrio no meio do caminho. Tem que ter um equilíbrio, tem que aproveitar um pouco também porque senão não faz sentido a jornada. Eu não acho que tem que ser só trabalho, como eu achava na época da Easy Taxi. A sua jornada tem que fazer sentido.

Você tem que aproveitar um pouco do que construiu também, não dá para falar “Ah, eu aproveito depois dos 50 anos”. Você tem que aproveitar todas as fases da sua vida, mas não perder o foco na construção.

Porque, se não, isso acaba, é tudo é passageiro. Mais do que isso, eu nunca trabalhei com dinheiro, trabalhei com propósitos, o dinheiro foi consequência. Então eu tenho um propósito maior, tenho objetivos muito grandes na minha vida. Para eu atingir esses objetivos, eu tenho uma linha de foco que eu tenho que ter.

Eu poderia já ter parado de trabalhar, e viver só das formas alternativas de ganhar dinheiro, com o que eu eu ganhei nos investimentos. Mas eu não parei de trabalhar, eu continuei com o foco, eu fundei o Singu, que é um mecanismo, uma forma de ação social, que tira pessoas da pobreza. E ainda é um negócio lucrativo, três vezes maior que o mercado de transporte, por exemplo, três a quatro vezes.

(…) foi a minha chance, agarrei com todas as forças. E disse: vou fazer o melhor que eu puder na minha vida.

Então eu encontrei aquilo que de fato eu gostaria de fazer. Como libertário, eu faço a minha parte. Consigo empoderar essas mães solteiras, pessoas de comunidade, pessoas que passa por necessidade e dar para elas um trabalho. Dar para elas condições para que elas se desenvolvam sozinhas, sem precisar contar com o Estado.

O quão desgastante foi o processo de expansão da Easy Taxi, tanto físico quanto mental? E o que você fazia para te dar energia para continuar no pique?

Foi extremamente desgastante, prejudiquei minha saúde, prejudiquei minhas relações pessoais, abdiquei de tudo na vida. Mas eu tinha tanto tesão em fazer aquele negócio ali que, por mais que… É como se eu fosse um sadomasoquista, por mais que doesse, que machucasse, eu sentia prazer naquilo, eu sentia prazer em ser produtivo, eu sentia prazer estar cansado, sentir prazer em estar acabado, “Pô, eu tô engordando”, e ao invés de eu achar ruim, eu pensava “eu estou focadaço no trabalho”.

E era meu sonho. Eu cheguei em um momento ali que era ou eu ia me dar mal ou ia prosperar. Eu tinha colocado toda a minha grana em um negócio, e se o negócio não desse certo, eu não teria dinheiro nem para o aluguel. Mas quando o negócio virou… foi a minha chance, agarrei com todas as forças. E disse: vou fazer o melhor que eu puder na minha vida

Eu não desistia por causa disso, eu vi o negócio desenvolvendo, crescendo. Eu vi as pessoas falando do negócio. Do dia para a noite o mundo inteiro falando do que eu fiz, admirando meu trabalho. E isso me deu energia para poder continuar.

Você é um grande jogador de poker. O que que te chama atenção na jogo? Por que você gosta tanto e que relação que você faz com trabalho, estratégia?

O poker é isso, ele trabalha sua habilidade matemática, trabalha sua habilidade cognitiva, trabalha tua habilidade de se concentrar. Você fica de 14 a 18 horas concentrado, fazendo contas, analisando o tempo inteiro a pessoa que está ali querendo ganhar de você.

Isso é muito interessante, e mais do que isso, o poker ajuda muito habilidade de gestão. É o tempo inteiro estratégia, negociação, leitura de pessoas, leitura de postura e pensamento lógico. Jogar poker é igual programar, você constrói um conjunto lógico ali, você reconstrói sua ação, e fala “Com base nisso aqui, e nessas ações que foram tomadas, eu acho que esse cara tem isso, então eu vou fazer aquilo, que o resultado vai ser esse”.

É muito pensamento estratégico. Eu gosto do poker por causa disso. Ele trabalha o cérebro, que é um músculo, igual o bíceps ou qualquer outro. Se você não trabalhar o cérebro para alguma coisa, ele vai ficar molengo, você não vai ter capacidade de raciocínio rápido. Eu uso poker como mecanismo para trabalhar meu cérebro.

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