O lado obscuro do empreendedorismo: ansiedade, depressão e exaustão

Entusiasmo, glamour, dinheiro e poder. Essa é a imagem que muitas pessoas tem quando pensam em empreendedorismo e startups. De fato em muitos círculos sociais, o reconhecimento, admiração e fama que um empreendedor de sucesso tem são enormes.

Não há dúvidas de que empreender tem sim sua glória e principalmente uma importância enorme. Acredito, inclusive, que a forma mais efetiva de contribuir com o desenvolvimento do Brasil é aliando o fomento ao empreendedorismo com mudanças profundas na educação.

Entretanto, nem tudo são flores. Existe um lado obscuro da vida do empreendedor que as pessoas não veem e é muito pouco discutido. São vários dramas psicológicos vividos e desencadeados por pressão inimaginável: dos clientes, dos funcionários, do governo, da família, de si mesmo. Há aqueles que conseguem dar conta por um tempo, mas muitos sofrem de crise de ansiedade e outros chegam até em quadros de depressão.

Nesse post, vamos conversar sobre os bastidores desse mundo, expor as batalhas internas que estão sendo travadas por aí silenciosamente e mostrar os efeitos na saúde desse profissional. Dessa forma, talvez comecemos a mudar o curso de algumas histórias para melhor.

O efeito fisiológico do empreendedorismo

Muitos empreendedores definem empreendedorismo não como uma profissão, mas como um estado de espírito. Concordo plenamente com essa perspectiva e a psicologia não me deixa mentir.

De fato, o estado psicológico em que o empreendedor entra é exatamente o mesmo provocado em alguém que está apaixonado. Uma das características que descrevem essa disposição é a hipermotivação.

Em outras palavras, o empreendedor passa acreditar que capaz de fazer tudo acontecer, o que chamo de síndrome do “super homem” ou da “mulher maravilha”.

Repare que os efeitos fisiológicos e sintomas da paixão são idênticos aos que o empreendedor você tem com seu projeto ou negócio.

Em termos neurológicos, essa euforia induz a produção de substâncias que inibem a parte do cérebro responsável pela lógica, processo chamado de inibição pré-frontal. Esse estado, por sua vez, pode gerar um transtorno obsessivo-compulsivo.

É por isso que, não raro, vemos tantos empreendedores apaixonados, motivados e obcecados abrindo mão da família, amigos e até da saúde por um propósito muito grande e claro.

Na prática, isso muita vezes explica o fato — e só quem se apaixonou alguma vez pode entender — de um empreendedor não conseguir pensar em outra coisa senão o trabalho… trabalhar de forma incansável e estar “sempre ligado”, da mesma forma que a ideia fixa da pessoa que o cupido trouxe.

Enfatizo o seguinte: se você é empreendedor, repare que os efeitos fisiológicos e sintomas da paixão são idênticos aos que você tem com seu projeto ou negócio.

Para mais detalhes, recomendo este vídeo até o minuto 2:30.

A trajetória é dura e exige muito do empreendedor

O empreendedor "apanha” constantemente. Não tenho outro termo para descrever isso melhor. Ao longo de sua trajetória, ele enfrenta uma série de desafios e problemas que exigem muita energia física, mental e emocional para que consiga continuar de pé e caminhando.

“It is not about how hard you can hit, but how hard you can get hit and keep moving forward.” — Rocky Balboa

Abaixo a lista dos principais desafios e como isso afeta o dia a dia do empreendedor:

Autoconhecimento — empreender pelo "motivo certo"

O primeiro desafio deles é autoconhecimento. Aqui entram reflexões do tipo: o que te levou a empreender? A motivação que escolheu foi intrínseca ou extrínseca?

Esse autoconhecimento é fundamental, porque se a motivação de empreender é extrínseca, o reservatório de energia pode acabar muito antes do esperado. Dificilmente o empreendedor conseguirá suportar todos os desafios e ter sucesso com esse tipo de motivação.

Nessa categoria entra dinheiro, fama e qualquer tipo de recompensa que dependem do mundo exterior.

Por isso, o mais importante é fazer essa reflexão e garantir que está empreendendo por um motivo que possui a recompensa em si mesmo, isto é, uma motivação intrínseca.

Ela é algo bem interno, pessoal e que muitas vezes só você conseguirá sentir exatamente da forma como sente. Sua causa não precisa necessariamente ser nada que o mundo classifique como grandioso.

Muito pelo contrário, o ponto principal é garantir que seu empreendimento está baseado nesse “porquê”, uma vez que a função dele é te abastecer com resiliência o suficiente para o turbilhão de emoções que vai surgir inevitavelmente no caminho.

Solidão

Na mesma medida que seu propósito vai te dar resiliência, ele também traz uma boa dose de solidão.

Não é justo esperar que as pessoas que trabalham para você tenham o mesmo sonho e motivação na mesma intensidade que o seu.

É a vida. As pessoas possuem propósitos diferentes.

Em função disso, o empreendedor precisa ter energia suficiente tanto para lidar com suas próprias questões, quanto para incentivar seus liderados para que façam pelo menos o suficiente na direção do seu sonho.

Ainda por cima, ele não costuma ter com quem compartilhar as suas dores, medos e anseios. Por sentir que precisa mostrar confiança 100% do tempo para inspirar seus funcionários, investidores e o mercado, acaba lidando com os problemas de forma solitária.

Aos poucos essa solidão incomoda cada vez mais.

Pressão por resultados

Este fator, de longe, é um dos principais desafios de quem está à frente de uma empresa.

Alguns empreendedores podem perder o equilíbrio mental simplesmente por este elemento isolado. A pressão por resultados, que é o estresse que vem da cobrança pela melhoria constante de performance, possui 2 principais fontes: a interna e a externa.

A interna tem a ver com pressão que vem do próprio drive que o profissional possui para realizar seus objetivos.

Já a externa, está relacionada à pressão exercida pela expectativa que investidores, funcionários e demais stakeholders possuem em relação à performance da empresa.

Logo, para lidar de forma saudável com essas duas fontes, é importante se desenvolver bem a autoconhecimento para lidar com a parte interna e alinhar expectativas de forma sustentável com sua capacidade, para lidar com o que vem de fora.

Mudanças constantes

As coisas no mundo empreendedor mudam muito rápido, o que gera uma “montanha russa” de emoções.

É muito comum acordar com uma notícia excelente e terminar o dia com uma situação completamente oposta. É como estar estar visitando o céu e o inferno no mesmo dia.

Em razão disso, o empreendedor precisa estar “malhando bem seus músculos” para desenvolver inteligência emocional.

Isso se relaciona bastante com a questão da solidão, o que indica a necessidade de se criar rituais internos para lidar com as vozes conflitantes que estão brigando no ringue da sua mente.

Gerenciamento de altos riscos e imprevisibilidade

O mercado é complexo e volátil. O produto pode não ter fit com o público, os sócios podem mudar de premissas, os funcionários podem não produzir bem, os impostos, leis, e a burocracia nem precisamos comentar.

Todo esse risco e imprevisibilidade consomem uma grande quantidade de energia mental e exigem do empreendedor uma resiliência muito grande.

Uma hora o empreendedor pode cansar de apanhar

Por mais bonito e verdadeiro que seja o discurso, manter a intensidade e sacrifício a partir de certo momento não é mais sustentável.

Por mais heróico que alguém possa parecer, no final do dia ninguém é de ferro sob uma condição de estresse constante e indefinidamente prolongada. E não se atentar para esse limite é bastante perigoso, pois pode gerar consequências drásticas para a saúde no curto, médio e longo prazo.

E não estamos falando só dos casos de insucesso. Mesmo se o negócio estiver indo bem, o desgaste pode ser tamanho, que a conta não fecha.

Infelizmente, saúde mental ainda é um tabu no meio empresarial. E isso não se aplica apenas aos empreendedores, mas na sociedade em geral.

Falar sobre esse tema muitas vezes pode soar como “frescura”, “corpo mole”, “não quer trabalhar”, “não aguenta a pressão” e assim por diante. O fato é que a maioria ainda pensa que saúde mental é apenas a ausência de doenças mentais.

Porém, ela vai muito além disso.

Segundo a OMS, a saúde mental é definida como um estado de bem-estar em que cada indivíduo tem ciência do seu potencial e pode lidar normalmente com os estresses da vida, trabalhar de forma produtiva e proveitosa e é capaz de contribuir para sua comunidade.

Pessoas com mente sã agem conforme a premissa de que ninguém é perfeito e que não se pode ser tudo para todos ao mesmo tempo.

Enfrentam as oscilações de emoções e não têm medo de procurar ajuda quando têm dificuldade em lidar com conflitos.

Quando os profissionais não pedem ajuda é que podem surgir vários problemas.

Nesse contexto, gostaria de enfatizar 3 consequências que, apesar de serem bem comuns, são pouco discutidos em profundidade no meio corporativo. São a crise de ansiedade, depressão e exaustão.

Ansiedade

Tanto a ansiedade quanto o medo são estados emocionais importantes no nosso dia a dia e com papel fundamental na evolução humana.

Afinal, o medo faz o indivíduo evitar perigo próximo e a ansiedade mantém o indivíduo alerta para que seja possível um desempenho máximo — físico, emocional e psicológico — sob stress.

O problema surge quando, constantemente expostos a condições extremas, a ansiedade deixa de cumprir apenas uma função útil e passa a se tornar um transtorno: transtorno ou crise de ansiedade.

Esse transtorno se torna um desequilíbrio mental e físico que são fortes o suficiente para interferir nas atividades do dia a dia.

Quando em crise, é possível ter os mais diversos sintomas. Alguns exemplos:

  • No corpo: fadiga, inquietação e sudorese
  • Sono: insônia e pesadelos
  • Comportamento: hipervigilância ou irritabilidade
  • Cognição: pensamento acelerado, dificuldade de concentração
  • Outros aspectos: boca seca, medo constante, síndrome do impostor, náusea, palpitações e tremores.

O processo da ansiedade pode ser entendido como uma tríade cognitiva, que se dá seguinte forma:

1 — Eu: você começa a se sentir vulnerável e os estímulos externos começam a ganhar uma proporção maior do que deveriam;

2 — Ambiente: pela aumento da proporção, você sente o ambiente como sendo mais perigoso e ameaçador do seu equilíbrio;

3 — Futuro: pelo fato do seu equilíbrio estar em risco, você sente uma profunda incerteza e falta de confiança em relação ao futuro de forma constante, o que retroalimenta a vulnerabilidade do Eu, fechando esse círculo vicioso.

Falando de consequências, elas se estendem no âmbito pessoal e profissional:

No lado pessoal, essa tríade provoca uma maior tendência para conflitos na família e amigos, que podem ser pequenos ou grandes a depender o grau de ansiedade atingido.

No lado profissional, a questão fica ainda mais complicada, porque tende a gerar uma queda na qualidade da tomada de decisão e na produtividade do empreendedor, que, por sua vez, influencia negativamente os resultados da empresa.

Depressão

A depressão é um estado emocional grave que tem origem em crenças que são criadas e reforçadas ao longo da vida. Essas crenças vão se somando a partir de frustrações e assuntos mal resolvidos até o ponto que desencadeiam uma maior produção de cortisol, hormônio que altera o estado de humor e ajuda a reforçar as crenças e pensamentos negativos, autossustentando esse ciclo.

A principal emoção que caracteriza o quadro é profunda tristeza, que é explicada pela seguinte tríade cognitiva:

1 — Eu: você começa a ter uma visão negativa de si mesmo, do tipo “não sou interessante”, “não sou capaz”;

2 — Ambiente: em seguida, passa a ter visão negativa dos outros e do mundo, por exemplo “as pessoas não apreciam meu trabalho”;

3 — Futuro: por último, a visão do futuro também é comprometida: “as coisas nunca vão melhorar”, “as coisas não vão dar certo para mim”.

Esse ciclo vicioso é tão forte que em muitos casos o uso de medicamentos é necessário para quebrá-lo.

Os principais sintomas negativos são:

  • Comportamento: agitação, choro excessivo, irritabilidade, auto-punição ou isolamento social
  • Sono: acordar muito cedo, acordar muito tarde, insônia ou cansaço
  • Corpo: fome excessiva, fadiga, ganho de peso ou perda de peso.
  • Cognição: falta de concentração, lentidão e pensamentos suicidas

As consequências desses sintomas na vida do empreendedor pessoal e profissional são devastadoras. Se em um quadro de ansiedade sua produtividade cai, na depressão o profissional pode não ser capaz de produzir até que reverta a situação.

Na família, sua ausência tende a ter impacto negativo na saúde emocional e mental dos seus entes queridos, que podem, inclusive, retroalimentar negativamente sua saúde.

Um dos casos de depressão emblemáticos do mundo do empreendedorismo foram o do Rand Fishkin da Moz, cuja produtividade caiu até ele renunciar o cargo de CEO da empresa americana referência em SEO.

Aqui no Brasil, a Bruna Bittencourt, fundadora do emotion.me também abriu mão do cargo de CEO devido a depressão.

Esses ainda tiveram um final relativamente feliz, o que não foi o caso das recentes histórias que aconteceram no vale do silício.

Austen Heinz da Cambrian Genomics, Aaron Swartz do Reddit e Ilya Zhitomirskiy da Diáspora se suicidaram, interrompendo sua vidas jovens e cheias de potencial.

Essas são poucas histórias que a mídia cobriu.

Mas se fossemos contar a dedo as histórias silenciosas de sofrimento que estão acontecendo agora na sala dos executivos, nos banheiros da empresa e no travesseiros de cada um, de quantos dramas estaríamos falando?

Dezenas, centenas, milhares?

Não sei ao certo.

O que sei, porém, é que todos esses sofrimentos podem ser tratados e resolvidos, a bem da nossa saúde, que é o ativo mais precioso que possuímos.

Exaustão

A exaustão seria não seria em si uma doença, mas o sinal mais nítido de como o empreendedor pode estar perdendo o rumo das coisas.

Ela vêm como uma consequência do desequilíbrio emocional ou mental, pois o profissional tenta compensar fisicamente o que está faltando nas outras dimensões.

Quem está passando por exaustão ou estafa pode até perceber que não está com a energia num bom nível, mas dificilmente toma alguma atitude em relação a isso, porque estar cansado é algo normal em todo papel desafiador.

Por outro lado, a constância desse estado é preocupante, justamente porque pode ser o indicador da ansiedade e depressão discutidos acima.

Em razão disso, é muito importante contar com o apoio de pessoas ao redor — e no caso do empreendedores mais solitários — de um profissional como psicólogo, psiquiatra ou terapeuta, pois quem está de fora percebe com mais facilidade e pode interceder mais rapidamente no desequilíbrio antes que se torne algo mais grave.

Conclusão

Apesar de toda a complexidade que um quadro de desequilíbrio psicológico em um empreendedor possa oferecer, isso não é o fim do mundo.

Se você está passando por algo parecido, espero que esse texto já tenha gerado um pouco de alívio, por simplesmente conversarmos sobre o problema.

Há como “tratar”, amenizar, reequilibrar antes de qualquer agravamento. Começar a conversar e expor o assunto é o primeiro passo para começarmos a nos tratar.

Remover tabus, investir em autoconhecimento e buscar ajuda de profissionais como psicólogos, psiquiatras ou terapeutas vem logo em seguida.

Uma sugestão para tratamento é o uso da Terapia Cognitivo Comportamental, que possui uma visão bem moderna, empírica e pragmática para lidar com esses problemas.

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