Porque eu ainda falo sobre roupas

Neste fim de semana (8 e 9 de setembro) estive no Pop Plus, um evento criado pela Flávia Durante que reúne diversas marcas e expositores plus size. Eu já a acompanho há uns anos, mas este ano foi a primeira vez que pude presenciar sua criação.

Créditos: Robson Leandro/Equipe Pop Plus @robson_leandro | @popplusbr

A primeira vez foi em março. Eu estava há sete meses desempregada, vivendo na cidade que eu sempre quis, mas sem um tostão para gastar. Mesmo assim, eu queria muito ir. Só pra ter certeza que no mundo existia gente parecida comigo.

Mesmo já tendo falado sobre o evento no episódio sobre gordofobia (clique aqui para ouvir!), eu não posso mostrar lá que quase chorei (pois não sei não ser fangirl às vezes) quando vi a Xanda (Alexandrismos), que fiquei rodeando a Ju Romano pra pedir um abraço e até pra dar oi para a própria Flávia morri de vergonha e emoção. Aquilo tudo, pra mim, só significava uma coisa.

Elas existem e são fascinantes.

Então eu existo.

E eu posso ser tão incrível quanto.

Na edição de março, eu provei roupa que nem jamais imaginaria provar e me apaixonei (alô vestidos justos, ainda vos quero) mas, mais do que isso, eu provei uma quantidade absurda de roupas que não só cabiam em mim, mas que ficavam bem, que me deixavam bonita. Ganhei umas dicas das donas da Madee e um vestido (belíssimo) do namorado.

Minhas amigas (quem me dera!!!!!!!!!!!!) Ju Romano e Alexandra
Flavia Durante (ou: eu tenho uma ídola)

Sempre tive questões na adolescência sobre imagem, porque eu não sabia quem eu era, não sabia do que gostava, não sabia nem responder nos testes das revistas teens qual era o meu estilo. Eu não era nem de longe desejada ou possivelmente amada. Eu não me identificava com atrizes ou cantoras e lembro que acompanhar a Sônia Abrão fazendo reportagens sobre os looks da Belinda (eu adorava ela sim, me deixem) me deixava mais triste do que empolgada. Não fazia diferença nenhuma.

Isso tudo porque, mesmo sendo gorda, tenho um monte de outros privilégios. Mesmo com eles, eu ainda não existia.

Ano passado eu fui ao Rio de Janeiro. Subi morro, desci morro, fui a parques e museus, conheci a Vane, encontrei outra amiga, nem liguei pro calor… Mas não tinha nem brusinha pra ir à praia. Eu só não tinha levado nada, até porque minha única opção era um maiô de natação que tinha em casa. Eu estava satisfeita com a ideia de ir à praia, olhar as pessoas e tirar umas fotos, mas jamais — jamais — a de desfilar com um biquíni por aí.

Aconteceu que eu ganhei um biquíni. Bem bonito, confortável. E eu usei. E eu, minha bunda, gorduras e tatuagens desfilamos por Ipanema e Copacabana (em uma delas eu também tomei um capote, porque eu nunca. tinha. brincado. de. mar).

Sei que o discurso ideal é de que tudo isso — maquiagem, roupas, indústria da moda etc — é opressor — e é — e não deveria existir, mas você só pode lutar para que algo não importe mais ou não exista mais porque você já cansou de se ver representado ali. E é por isso que eu ainda falo de roupas.

Eu nunca tive amigas que entendessem sobre isso, provavelmente porque eu nem sequer conseguia falar sobre. Se hoje tenho uma ou duas amigas gordas, sei que a autoestima delas é tão fragilizada quanto a minha. Sei que elas não se sentem amadas ou dignas de serem. Sei que elas são e serão trocadas por alguém no mínimo mais magras, ou que se envolverão em relacionamentos abusivos porque nossos corpos não nos pertencem ou, ainda, sei que elas serão escondidas.

E sei de tudo isso porque hoje eu entendo o quanto uma rede de apoio é importante, o quanto ter ao meu redor pessoas parecidas comigo é necessário. Sei de tudo isso porque eu preciso considerar sorte ter alguém que me ame, mesmo que já tenha ouvido que ele vai me trocar. Mesmo sabendo o impacto que isso tem nas nossas relações sociais. Mesmo sabendo que minha presença incomoda.

Como eu disse logo no início, eu existo. Eu existo e experimentei trocar de roupa na frente de outras dez mulheres, todas gordas, nuas, todas lindas, várias desconhecidas dizendo que essa peça tava linda sim, meu deus como essa cor te valorizou, olha isso que arraso! Eu existo e o mínimo que eu exijo é que eu tenha direito a cuidar do meu corpo. O mínimo que exijo é que eu tenha direito a ser vista.

Porque eu existo, assim como você.

E nossa, nós somos fascinantes.

(E um dia, quem sabe, consigo subir um degrau nessa trajetória e ir a um Toda Grandona)

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