Sobre OMNIs, o Menino do Acre e o novo clipe do JAY-Z


Essa semana, o maior mistério do primeiro semestre de 2017 acaba de ser solucionado. Depois de especulações insanas, teorias conspiratórias e uma investigação digna dos melhores episódios de Scooby Do, Bruno Borges, o “menino do Acre”, voltou para casa. Num desfecho nada surpreendente, seu livro já está entre os mais vendidos do Brasil antes mesmo de ser lançado.

Curiosamente, na mesma semana, outro fenômeno surgiu na internet: Moonlight, o novo “clipe” do JAY-Z. Chamo “clipe” porque não sei bem do que chamar. Moonlight é uma espécie de curta de mais de 7 minutos, para promover uma música de 4.4 minutos… sem a música. Não entendeu? Você ainda não deve ter assistido.

Tá, então tem 1 minuto de música pra 6:25 de vídeo.

Não me entenda mal. O curta é INCRÍVEL. Bem escrito, bem produzido, bem executado. Mas eu não sei bem se isso é um clipe. Porque na teoria, um clipe serve pra dar um suporte visual à música, tornando a experiência mais “formatada” para meios audiovisuais. Artisticamente, o clipe pode expandir ou distorcer o entendimento da música, criando mais camadas de interação com o conteúdo. Mas praticamente, o clipe devia no mínimo vir com a música. Não?

Pelo visto, não. Mas se é assim, talvez o problema seja de nomenclatura. Talvez a gente precise de um novo nome para essas coisas que a gente não sabe bem para que servem, mas que surgem nos nossos canais de comunicação e pegam a gente de surpresa, enredando nossa atenção em um foco esquisito, sem centro, mais parecido com uma força gravitacional do que com um alvo.

Eu tenho uma sugestão.

Minha proposta é chamar essas coisas de OMNIs: Objetos Midiáticos Não Identificados. São esses “eventos” que a gente não consegue bem explicar ou categorizar, mas que obviamente estão acontecendo por algum motivo não explícito.

O Menino do Acre tinha um objetivo: vender seu livro. Isso só ficou claro com a descoberta do acordo sobre a venda dos livros com um amigo de Bruno.

O OMNI do JAY-Z também tem um objetivo claro, quase óbvio quando a gente pensa um pouco: deixar todo mundo com vontade de ouvir esse cacete de música. Hoje, o YouTube é uma das ferramentas de streaming de música mais usadas do planeta. Só que o JAY-Z tem seu próprio app de streaming, o Tidal. Se o clipe viesse com a música completa, por que eu pagaria para ouvir Moonlight em outro lugar? O curta, ou clipe, ou sei lá, o coiso é mais do que um teaser: é outra experiência completamente diferente, que te deixa com vontade de mais. Tipo pipoca, que é gostoso sozinho, mas tão salgado que pede um refrigerante.

Outros OMNIs podem ser vistos no nosso dia a dia. Por exemplo, quando uma notícia bizarra surge convenientemente próxima de uma notícia política que precisa ser abafada. Ou quando um fato é manipulado em vários canais de notícia ao mesmo tempo, criando uma falsa sensação de “verdade objetiva”. Por vezes, o mundo nos presenteia com coisas tão bizarras que acreditamos ser OMNIs (vide o Rei do Camarote), mas outras vezes… tem mais coisa aí mesmo.

Os OMNIs geralmente têm uma função mercadológica. Estão tentando vender alguma coisa, sem que você perceba que está sendo persuadido a comprar. E nem sempre é uma coisa que se compra com dinheiro. Eu não tenho nada contra cases publicitários ou aqueles stunts que a gente sabe que serão assinados por uma marca mais cedo ou mais tarde. E também não tenho nada contra o clipe do JAY-Z. Pelo contrário, depois de entender para que servia, achei ainda mais genial. Mas os OMNIs começam a ficar perigosos quando são tão sutis e bem pilotados que você não nota estar diante de um OMNI. E zap. Mais um cérebro abduzido para fins escusos.

Eu não sou adepto de grandes teorias da conspiração, mas acredito em OMNIs. Por isso, acho saudável aprender a identificar e entender esses fenômenos. Afinal, nunca se sabe quando outro pode aparecer. E pode ter certeza: nem sempre eles vêm em missão de paz.

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