Carta de Deleuze para Arnaud Villani, sobre como julgar um livro de filosofia

29/12/86

Caro amigo

(…)

Você me pergunta como eu resumiria brevemente os meus livros, em pontos distintos. É de fato interessante, uma vez que, então, não se pode assumir uma unidade. Acredito que um livro, se ele merece existir, pode ser apresentado sob três aspectos rápidos: não escrevemos um livro “digno” salvo: 1) se pensamos que os livros sobre o mesmo tema ou sobre um tema vizinho caiam em uma espécie de erro global (função polêmica do livro); 2) se pensamos que qualquer coisa de essencial foi esquecida sobre o tema (função inventiva); 3) se acreditamos ser capazes de criar um novo conceito (função criativa). Naturalmente, é o mínimo quantitativo: um erro, um esquecimento, um conceito. Pouco importa que o livro seja sobre alguém ou sobre alguma coisa. E não falo simplesmente da filosofia, isso vale também para “outros” gêneros, com outras palavras. Por isso, tomarei cada um dos meus livros, abandonando a modéstia necessária, e me perguntarei: 1) que erro ele alegou combater 2) que esquecimento ele quis compensar 3) que novo conceito ele criou. Isso será rápido. Por exemplo, meu livro sobre Masoch: o erro é de terem posto a ênfase na dor; o esquecimento é de terem negligenciado a importância do contrato (e para mim o sucesso desse livro é que, após ele, todo mundo falou do contrato masoquista, enquanto antes era um tema bem acessório)/ o novo conceito é a dissociação do sadismo e do masoquismo — Outro exemplo, para Proust [e os signos]: o erro é a memória; o esquecimento são os signos; o conceito é a coexistência de três (e não dois) tempos — Farei assim, portanto, para cada livro. E nós veremos bem, para concluir, os modos de unidade que se descolariam: seria uma combinatória, quase quantificável, e em sua maior parte objetiva (não podemos trapacear: quantos livros resistem a esse modo de apresentação, precisamente pois eles não tem nada a dizer).

Até logo, com todo meu afeto,

Gilles Deleuze

(carta traduzida do livro “Lettres et autres textes” de Gilles Deleuze)

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