Da Prioridade Ontológica do Movimento sobre o Repouso

Por Pedro Vasconcelos Junqueira Gomlevsky

Provavelmente desde o advento do eleatismo constituiu-se uma tendência em metafísica de pensar o repouso como superior ao movimento. Mesmo que o movimento não tenha sido condenado tão completamente como fizeram Parmênides e seus seguidores mais imediatos, a tendência vitoriosa na metafísica ocidental tem sido assimilar o perfeito ao imóvel e o imperfeito ao móvel. 
 
Entretanto, há uma lacuna neste tipo de pensamento, que me provoca extrema desconfiança. Pois, se o movimento é imperfeito, mas ainda assim é algo, mesmo que ilusório ou menor, como poderia ele derivar do repouso? Que potência imóvel seria capaz de produzir os mais variados movimentos que percebemos? O eleatismo pensa o movimento como ilusão, mas não explica sua origem. Os variados teísmos fazem o movimento surgir de um Deus imutável por uma criação do nada, sem maiores explicações. Os dualismos têm ao menos a vantagem de considerar tanto movimento como repouso como primitivos. Pelo menos não caem no aparente paradoxo de um motor imóvel, nunca suficientemente explicado. 
 
O objetivo desse texto, portanto, será defender a tese contrária. Mostrar não só que o movimento não pode ser derivado do repouso, como que o repouso pode ser derivado do movimento. A defesa dessas duas teses, porém, não é suficiente para implicar que o movimento seja a única realidade, ou que realmente tudo o que há de repouso no ser foi produzido a partir do movimento. Afinal, mesmo que de fato algo do repouso se derive do movimento, do modo como pretendo mostrar, e que o repouso por sua vez, seja incapaz de permitir o florescimento do movimento, ainda assim, seria possível a verdade do dualismo, a saber, há tanto movimento como repouso, enquanto realidades primitivas e irredutíveis uma à outra. 
 
Dito isso, elenco aqui os passos que percorrerei para demonstrar as duas teses que indiquei acima. Primeiro, para mostrar que o movimento não pode ser derivado do repouso, me servirei, por antitético que pareça, de um paradoxo de Zenão. Tentarei mostrar, com ajuda de uma carta escrita por Spinoza, que o eleata não consegue mostrar a inexistência do movimento, mas antes a incapacidade do repouso de produzi-lo. Meus primeiros três passos, portanto, serão: apresentar o paradoxo de Zenão pertinente ao caso, apresentar a crítica que Spinoza faz dele e em seguida, mostrar como esta crítica nos obriga a reconsiderar o poder do argumento de Zenão a nosso favor. 
 
Após isso, buscarei demonstrar a segunda tese enunciada, a saber, que o repouso, ou ao menos, uma aparência de repouso, pode ser derivada do movimento. Para isso me servirei de duas estratégias, uma mais clara e julgo amplamente aceita e outra mais heterodoxa, por assim dizer. A primeira se baseará num conhecimento básico de física. Já a segundanum princípio da filosofia hermética, conhecido como princípio de vibração. Tendo feito isso, concluo tornando senão estabelecida, ao menos mais plausível, a tese da prioridade ontológica do movimento sobre o repouso.

Zenão contra Zenão: Paradoxo da Dicotomia

Começarei a demonstração desta primeira tese expondo um dos paradoxos de Zenão a respeito da impossibilidade do movimento: o paradoxo da dicotomia. Escolhi apresentar este por dois motivos. Primeiro, porque dos paradoxos de Zenão é aquele de mais simples compreensão, cuja estrutura é mais direta e clara. Em segundo lugar, porque parece que é ele que Spinoza tem em mente em sua carta a respeito do infinito, da qual citarei um trecho no momento oportuno. 
 
Como nos diz Nick Huggett, os paradoxos de Zenão não nos chegaram nas suas próprias palavras, mas sobretudo por meio de comentadores. Alguns vieram via Aristóteles, que buscava refutá-los enquanto outros vieram por meio de Simplício por vezes comentando as notas do próprio Aristóteles. Vamos, portanto, ao paradoxo:
 
“Há quatro argumentos de Zenão a respeito do movimento, que oferecem dificuldades a quem queira resolvê-las. No primeiro, a impossibilidade do movimento é deduzida do fato de que o móvel transportado deve chegar primeiro à metade antes de alcançar o termo;”

Este pequeno trecho da Física de Aristóteles já é suficiente para que possamos reconstruir o paradoxo da dicotomia. Ele recebe este nome, pois, dicotomia significa divisão em dois e é justamente esta divisibilidade que mostraria porque o movimento é impossível, de acordo com Zenão. 
 
Ora, o trecho diz que o móvel, ou seja, aquele que se move, deve alcançar metade de seu caminho antes de alcançar o fim. Até aí não parece haver qualquer problema. Entretanto, o que Zenão percebeu, foi que isto poderia ser aplicado recursivamente a qualquer trecho do caminho, tornando o movimento impossível desde o primeiro passo. 
 
Afinal, para que chegue até o fim preciso primeiro percorrer metade do caminho, entretanto, para percorrer metade, preciso antes ter percorrido um quarto, para ter percorrido esse quarto, teria de primeiro percorrer um oitavo e assim por diante, infinitamente. De modo que para sequer sair do lugar deveria ocupar infinitos espaços sucessivamente, o que tomaria uma infinidade de tempo. Assim, qualquer travessia, por menor que fosse, tendo alguma extensão, seria composta de infinitas partes e, portanto, para percorrer seus infinitos pontos, sempre demoraria uma eternidade de infinitos instantes.
 
Ampliando o escopo dessa argumentação, podemos dizer que ela serviria não só para considerar o movimento impossível, como a passagem de qualquer período de tempo. Ora, se pensamos o tempo como composto de infinitos instantes, cada minuto hesitaria em começar, do mesmo modo que o móvel que percorre o espaço não pode determinar qual seria seu primeiro passo. Desse modo, o que Zenão pretende mostrar é que o tempo não passa e o movimento não passa de ilusão.

Apesar de parecer patente a existência do movimento, da mudança e da passagem do tempo em geral, qual será o problema do argumento apresentado? 
 
Spinoza contra Zenão

Se nos valermos da décima segunda carta da correspondência de Spinoza, seremos capazes não só de encontrar onde Zenão falha em sua demonstração, bem como, com um pouco mais de imaginação filosófica, descobrir o que de fato se pode deduzir das premissas do eleata. 
 
Apesar de não mencionar diretamente nem Zenão nem o paradoxo da dicotomia, pela formulação que Spinoza faz é muito claro que ele tem esse exato problema em mente. Para resolvê-lo, ele mobiliza uma distinção entre a extensão e a medida e entre o tempo e a duração. Enquanto os dois primeiros de cada par, extensão e duração, tem existências reais, os dois últimos, medida e tempo, são entes de razão, produzidos pela imaginação, forma inadequada de conhecimento de acordo com Spinoza. 
 
O que diferencia o tempo da duração, bem como a medida da extensão é que esses seres de razão são divisíveis, quando na realidade, a duração e a extensão são concebidas pelo autor como indivisíveis. Ora, se cada minuto para passar precisasse passar por cada instante individualmente, se cada extensão a percorrer, precisasse ser percorrida ponto por ponto, um de cada vez, de fato, o movimento seria impossível. Entretanto, o que é impossível de acordo com Spinoza não é o movimento, mas sim que ele seja composto de partes. Nas palavras do autor: 
 
“Para que se veja mais claramente, tomai este exemplo: desde que se tenha concebido abstratamente a Duração, confundindo-a com o Tempo, e se tenha começado a dividi-la em partes, tornar-se-á impossível compreender de que modo uma hora, por exemplo, possa transcorrer. Para que ela passe, com efeito, será necessário que a metade passe antes, depois a metade do resto e, em seguida, a metade do novo resto; e assim retalhando ao infinito a metade do resto, jamais se chegará ao final de uma hora. É por isso que muitos, não se tendo acostumado a distinguir os seres de razão das coisas reais, ousaram pretender que a Duração se compunha de instantes e, desta sorte, para evitar Caribde, caíram em Cila. O mesmo acontece ao se compor a Duração com instantes e ao se querer formar um número ajuntando zeros.”

Neste trecho fica claro que a resposta de Spinoza se aplica diretamente ao paradoxo da dicotomia proposto por Zenão que apresentamos antes. Ele reconstrói o argumento, entretanto, aplicando-o exclusivamente a passagem do tempo e não ao movimento, tal como o grego fazia. De todo modo, isso não é relevante, haja vista que a estrutura lógica dos dois problemas é a mesma, tal como eu havia indicado acima na nossa leitura de Zenão. 
 
Vemos aí, portanto, que o erro de Zenão antes de ser lógico é metafísico. O eleata confunde seres de razão com seres reais, e atribui, portanto, uma propriedade desses seres de razão a seres reais, o que naturalmente leva a um absurdo. Esta propriedade é a divisibilidade. Spinoza, assim como os eleatas, concordará que a divisibilidade é algo que não se pode aplicar a extensão enquanto tal, entretanto, isso não impedirá o autor de considerar o movimento como algo real, que ocorre na Duração, para usar os termos dele. Quem também faz uma bela defesa da indivisibilidade do movimento é Bergson, na segunda conferência da Percepção da Mudança:
 
“Sem dúvida, enquanto levamos nossa mão de A para B, dizemo-nos que poderíamos detê-la num ponto intermediário, mas então já não lidaríamos mais com o mesmo movimento. Já não haveria um movimento único de A para B; haveria, por hipótese, dois movimentos, com um intervalo de parada. Nem de dentro, pelo sentido muscular, nem de fora, pela vista, teríamos a mesma percepção. Se deixamos nosso movimento de A para B tal como ele é sentimo-lo indiviso e devemos declará-lo indivisível.”
 
De fato, se atentarmos a nossa experiência direta, não perceberemos os movimentos como compostos de partes, mas sim como totalidades indivisas. O móvel que percorre uma distância qualquer não o faz parando ponto por ponto. Ao contrário. Percorre-a inteiramente e se para no meio do caminho para só então prosseguir, dizemos que ocorreram dois movimentos e não um só. O movimento é por sua própria natureza indivisível, tal como dizem Spinoza e Bergson. 
 
Enfim, parece que encontramos o problema na argumentação de Zenão, entretanto, como isso nos permitiria dizer que é impossível que o repouso possa produzir o movimento? 
 
Que o Movimento não se deriva do Repouso

Zenão, sem querer, nos deu ferramentas para criar um argumento que estabelece a realidade primitiva do movimento. Por realidade primitiva quero dizer que ele é existente e que não é originado no repouso, mas existe por si mesmo. Mostrarei a seguir como, com seu paradoxo, Zenão permite este insight.

Ora, vimos pelos comentários de Spinoza e Bergson, que uma questão central para que os paradoxos de Zenão funcionem é que admitamos a premissa de que o espaço, o tempo e o movimento sejam todos compostos de partes, mas quantas? 
 
Se compreendermos corretamente o paradoxo da dicotomia, logo veremos que para que ele funcione seria preciso admitir que o espaço, o tempo ou o movimento, devem ter infinitas partes. Isso ocorre devido à estrutura recursiva do paradoxo, ou seja, por ele ser um raciocínio a cujo resultado pode, indefinidamente, aplicar-se novamente. Vejamos como isso se dá. 
 
Para percorrer um caminho, devemos percorrer primeiro metade dele. O resultado disso é um meio caminho. Tomando agora este meio caminho como base, podemos recursivamente, aplicar o mesmo raciocínio. Ou seja, para percorrer meio caminho, primeiro devemos percorrer um quarto e assim indefinidamente como dissemos acima. Afinal, desde o início, o comprimento exato do primeiro caminho é irrelevante. Desse modo, qualquer meio ou quarto ou oitavo de caminho é também um caminho. Logo, se o paradoxo é indiferente a qualquer comprimento de caminho, isso só pode se dar porque qualquer um deles é compreendido como o mesmo em um sentido: permite a aplicação recursiva indefinida do mesmo raciocínio. 
 
Ora, para que o raciocínio possa ser sempre reaplicado, para que ele seja aplicado a qualquer caminho e a qualquer caminho nele contido, todos os caminhos devem ser infinitos em algum sentido, ou seja, sendo compostos de partes, devem ser compostos de infinitas partes. Afinal, como se sabe, qualquer conjunto de infinitos elementos possui subconjuntos igualmente infinitos, por definição. Para ter uma noção clara disso, basta considerar o conjunto dos números pares, que é infinito e um subconjunto dos números naturais, igualmente infinito. Já um conjunto de três elementos, claramente não pode possuir subconjuntos infinitos.
 
E é aí que o pensamento de Zenão aliado às críticas que lhe fizemos pode inusitadamente mostrar a realidade primitiva do movimento. Isso ocorre porque quando concebemos o movimento não como indivisível, mas ao contrário, como composto de infinitos estados sucessivos, cada um dos quais em repouso, como num filme, somos forçados — e Zenão o prova, a pensar que o movimento seria impossível.

A tese que subjaz a essa impossibilidade é o fato de que, não importa quantas cenas ajuntemos, jamais seremos capazes de produzir um movimento real. Quando o espaço é reduzido ao ponto, ele perde sua extensão. Quando o tempo é reduzido ao instante, ele perde sua duração. Igualmente o movimento, que reduzido ao quadro, não passa de repouso. 
 
Se o movimento fosse de fato infinitamente divisível, se como ser real que é, fosse composto pelo ajuntamento de infinitos quadros sucessivos, deveríamos fazer coro com Zenão e considerar o movimento como algo impossível. Jamais teria fim o processo de ir de um ponto a outro, passando, individualmente por sucessivos pontos, nos quais por serem adimensionais, a própria passagem é impossível. 
 
Entretanto, ao percebermos que o movimento na realidade é indivisível, devemos considerar o argumento de Zenão sob outra luz. O que ele nos mostra, antes da impossibilidade do movimento é a impossibilidade de um movimento como resultado do repouso. Por mais que ajuntemos infinitos quadros, a passagem de um a outro, o movimento ele mesmo, não pode ser deduzido deles e nem reduzido a eles. O movimento, portanto, deve ser pensado como primitivo, ou seja, como algo existente por si mesmo e não derivado do repouso, ou de qualquer outra coisa se é que isso faz sentido.

Como último recurso um eleata poderia me retrucar que isso pode até mostrar que o movimento, se existir, seria primitivo, mas não demonstra que ele existe de fato e que em realidade o movimento não passaria de mera ilusão. O que esse eleata perde de vista é que se a ilusão de movimento é capaz de nos iludir é porque algo nela está em movimento e o repouso, sem qualquer movimento, não é ingrediente suficiente para produzir sequer a ilusão de movimento. Se há uma ilusão de movimento, se algo de ilusório passa, isso já basta para concluir que o movimento é real. Posto que indivisível, posto que irredutível ao não-movimento, irredutível ao repouso.
 
Para tornar isso mais patente, basta trazer mais uma vez o caso do filme. Mesmo que o movimento que o filme apresenta seja ilusório, posto que só nos mostra sucessivas imagens em repouso, ainda assim é requerido algum movimento para compor essa ilusão de movimento. Senão o próprio movimento das imagens, o movimento que substitui uma imagem pela outra, numa velocidade tal, que nos faz integrá-las num só movimento. O repouso, deixado por si só, não é capaz de produzir o movimento, os quadros justapostos, não são um filme. O filme é a passagem de um quadro a outro. Mesmo que o movimento que o filme seja ilusório, ele sempre dependerá de um movimento real para ser capaz de iludir. 
 
Que o Repouso pode derivar do Movimento: Breve Excurso à Física

Como disse na introdução o objetivo deste texto era tornar mais plausível a tese de que o movimento tem prioridade ontológica sobre o repouso, ou seja, é primeiro em relação a ele na ordem do ser. Para tal, me comprometi a demonstrar duas teses, a primeira, com ajuda de Zenão, foi mostrada no passo anterior, que o movimento não se deriva do repouso. Agora, pretendo mostrar a tese inversa, a saber: que o repouso, ou ao menos uma aparência dele, pode ser pensada como efeito do movimento.

Hermetismo

Por fim, para concluir esta argumentação, a fonte extravagante da qual me valerei é a filosofia hermética. Meu primeiro contato com esta escola foi através de um pequeno livro, chamado O Caibalion. O hermetismo se encontra, aparentemente, na fronteira entre a filosofia e o ocultismo. Segundo se lê nesse livro, o proponente inicial de suas teses seria um sábio egípcio denominado Hermes Trimegisto, que teria influenciado em grande medida tanto a filosofia grega como vários outros ramos do pensamento humano. 
 
De todo modo, como o interesse aqui não é historiográfico, me limitarei a expor um dos aspectos conceituais do hermetismo, segundo essa fonte, a partir do qual poderei demonstrar de que modo o repouso, ou pelo menos uma aparência dele, poderia advir do movimento. Esse aspecto é um dos princípios herméticos, mais precisamente o terceiro princípio, de uma lista de sete, os quais seriam os axiomas básicos da filosofia hermética e que O Caibalion se destina a explicar, além de outros pormenores. Trata-se do Princípio de Vibração. 
 
Princípio de Vibração

Este princípio é apresentado no nono capítulo da obra supracitada, intitulado A Vibração. De acordo com a filosofia hermética este princípio é responsável por indicar que tudo está em constante movimento, mais especificamente num movimento de vibração, tudo vibra, tudo se move o tempo todo. Os hermetistas não apresentam uma demonstração para esta tese, até porque, como disse acima, eles a compreendem como um axioma e não como um teorema derivado de verdades mais primitivas. 
 
Apesar disso, a maior parte deste capítulo se dedica a tornar esta tese mais plausível por referência aos adventos da ciência moderna, que a cada novo aspecto da realidade natural conhecida, identifica mais uma vez o movimento. Desde o plano das enormes distâncias onde planetas orbitam sóis, ao plano dos átomos, onde elétrons orbitam os núcleos. Entretanto, não será necessário para meu argumento conceber o princípio de vibração como universalmente válido. Cabe apenas ressaltar que ele é compatível com a conclusão a que chegamos antes, a saber: o movimento é uma realidade primitiva. 
 
Nesse ponto, e isso é importante para o argumento que pretendo construir, é preciso destacar que o movimento universal de acordo com os hermetistas não é um movimento retilíneo, mas se trata de vibração. Ou seja, é um movimento cíclico. Movimento que alcança um termo e retrocede a um inicio e assim indefinidamente, como o que faz a corda de um instrumento musical ao ser tocada. 
 
Como poderia então, um movimento vibratório produzir o repouso? Logo no segundo parágrafo deste capítulo sobre a vibração podemos ler que: 
 
“Os ensinamentos herméticos são que não somente tudo está em movimento e vibração constante; mas também que as diferenças entre as diversas manifestações do poder universal são devidas inteiramente à variação da escala e do modo das vibrações. Não só isto, mas que o TODO em si mesmo manifesta uma constante vibração de um grau tão infinito de intensidade e movimento rápido que praticamente pode ser considerado como estando parado. ”

Para compreender esses dizeres herméticos é possível fazer uma analogia com um fenômeno cotidiano. Quem de nós nunca observou um ventilador em funcionamento? Ele pode ser comparado a um movimento vibratório, na medida em que o movimento de suas hélices é um movimento cíclico. Quando o ventilador está em funcionamento, a imagem que se forma das hélices se assemelha a imagem de um disco em repouso. Todas parecem fundir-se em um que é estático, quando sabemos em realidade ser mais de um em movimento. 
 
O Todo, que seria o equivalente ao absoluto no pensamento hermético, deve ser por isso mesmo concebido como dotado de um poder infinito. De modo que, se tudo vibra, este deve vibrar em grau infinito ou absoluto. Ora, se a vibração é um movimento cíclico, movimento no qual uma série de posições é ocupada sucessiva e repetitivamente e se o poder do Todo para executar essa vibração é infinito, isso quer dizer que no escopo de sua vibração ele ocupa todas as posições simultaneamente. Percorrer um caminho circular numa velocidade infinita é o mesmo que estar inteiro em cada um dos pontos a todo instante. 
 
Se ao leitor parecer muito extravagante a consideração hermética sobre como pode o repouso advir do movimento, proponho a ele dois remédios para este espanto. O primeiro mostrará a relevância metafísica de considerar a possibilidade de um movimento absoluto. O segundo será uma terapia alternativa ao problema do repouso, certamente bem menos extravagante, lembrar-se das breves considerações físicas que fiz acima.
 
A relevância metafísica está em que pensar a possibilidade de um absoluto movimento como princípio metafísico torna plausível a existência do mundo que percebemos diante de nós. Se os sentidos nos revelam movimento, mas o princípio metafísico do qual dispomos para explicar essa realidade é um princípio imóvel, como poderíamos compreender essa existência?
 
Entretanto, se concebemos o repouso como nada mais nada menos que o movimento absoluto, conceberemos a diferença entre o princípio e o principiado como uma diferença de grau, tal como diz o texto hermético supracitado. As diferenças entre as coisas são apenas diferenças no grau de vibração, desse modo, é possível compreender como, por uma variação de grau, o absoluto se faz relativo. Produção que não pode ser explicada sem contradição por um princípio imóvel, posto que se considerarmos o argumento precedente, saberemos que o repouso é incapaz de produzir o movimento, sequer como ilusório.

Conclusão

Podemos então terminar este texto tendo alcançado o objetivo a que ele se propôs no início, a saber: tornar a tese de que o movimento tem prioridade ontológica sobre o repouso mais provável. Para isso foi preciso mostrar não só que o movimento não pode ser derivado do repouso, como que o repouso pode ser derivado do movimento. 
 
Para a primeira tese me vali do paradoxo da dicotomia de Zenão e com a ajuda de Spinoza e Bergson, mostrei onde estava seu erro: supor que o movimento era divisível. Dessa indivisibilidade do movimento, então, foi possível concluir não só que o movimento é real, como que é primitivo, ou seja, existe por si mesmo e não pode ser derivado do repouso. Mesmo que sejam infinitos repousos justapostos, sem a passagem de um a outro, o que já é o próprio movimento, é impossível que o movimento advenha. O que por isso mesmo confirma sua realidade, pois até a ilusão de movimento precisará do movimento como seu constituinte essencial.
 
Em seguida, a partir do pensamento hermético e da física básica mostrei como podemos pensar o repouso a partir do movimento. Não só de um ponto de vista metafísico heterodoxo, podemos dizer que o repouso é um caso do movimento, o movimento do absoluto; como de um ponto de vista amplamente aceito, podemos dizer que o repouso relativo ocorre quando dois movimentos têm a mesma velocidade e sentido. 
 
A vantagem metafísica desta posição ainda pode ser colocada, pois é possível compreender como um absoluto em movimento pode ser e como ele é capaz de produzir o finito, que guardaria com ele apenas uma distinção de grau. Completando a desconfortável lacuna a qual aludi na introdução, afinal ainda não se explicou satisfatoriamente como o repouso absoluto poderia produzir o movimento, aliás, mais do que isso, nossa argumentação mostra que isso é impossível. 
 
Se o caso não está fechado, é porque o dualismo não pôde ser descartado, ainda resta a possibilidade de um repouso absoluto inerte, que não tem nada que ver com nosso mundo em fluxo. Para deixar ainda mais provável a tese da prioridade ontológica do movimento sobre o repouso posso apenas fazer mais um questionamento: que relevância teria esse absoluto repouso indiferente a nós?

Referências Bibliográficas:
ARISTÓTELES, Física. In: Os Pensadores Pré-Socráticos, São Paulo, Nova Cultural: 2000.

BERGSON, Henri, A Percepção da Mudança, In: O Pensamento e o Movente, São Paulo, Martins Fontes: 2006.
 
HUGGETT, Nick, “Zeno’sParadoxes”, The Stanford EncyclopediaofPhilosophy(Winter 2010 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/win2010/entries/paradox-zeno/>.

NIETZSCHE, Friedrich, A Filosofia na Era Trágica dos Gregos, São Paulo, Hedra: 2011.

TRÊS INICIADOS, O Caibalion: Estudo da Filosofia Hermética do antigo Egito e da Grécia, Editora Pensamento, São Paulo: 2016.
 
SPINOZA, Obra completa II, Correspondência Completa e Vida. São Paulo, Perspectiva: 2014.

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