Onde se encontra a filosofia?

A título de esclarecimento: comecei a pensar esse post depois de um podcast que escutei nessa semana sobre Vilém Flusser. Entre as inúmeras questões abordadas surgiu a do local do seu pensamento, isto é, onde se localiza institucionalmente/burocraticamente a prática filosófica e sobre como, por sua posição heterdoxa, isso acabou influenciando na recepção das suas ideias — talvez isso já seja uma derivação que realizei na minha cabeça, não posso confirmar. Essas discussões, por sua vez, acabaram me lembrando de um texto que eu escrevi e que acabei engavetando para a coluna da ANPOF. Na ocasião discutia-se sobre um tópico que aparece de maneira recorrente o suficiente para poder ser considerado sintoma do nosso vira-latismo eterno: a eternamente vindoura filosofia brasileira. Nos diversos textos que apareceram na coluna, dos mais variados professores, discutia-se ora o porquê da ausência da filosofia brasileira, ora a falta de sentido de se pensar uma filosofia num contexto nacional, ora a cegueira para uma filosofia brasileira que já existiria (quero acreditar que as menções que li ao Mangabeira Unger foram um golpe de alucinação). O texto que eu escrevi para a coluna (e que foi rejeitado explicitamente pelo fato de eu não ser professor de pós-graduação) estava, confesso, cheio de raiva, mas tratava de um problema que, mesmo agora que estou mais calmo, ainda considero fundamental: falo aqui da ausência de preocupação com os aspectos lúdicos ou criativos da prática filosófica. Por fim, é bom lembrar também que a minha tese de doutorado que estou terminado de escrever também aborda, entre outras questões, o sentido da prática filosófica (embora em outro sentido e em outro contexto), de modo que esse tipo de questão é bem presente.


Considerando a história do capitalismo moderno como uma história da regulação das atividades produtivas pode-se ver que nem mesmo a prática filosófica escapou desse destino. Um olhar sobre a história da filosofia nos mostra como a partir do século XVIII houve um processo gradual de profissionalização da prática filosófica. Se antes disso (mesmo na modernidade), a cátedra não era a posição mais desejada (Spinoza e Leibniz, é bom lembrar, são dois dos autores mais potentes da era moderna e que preferiram recusar essa “distinção”), a partir do século XVIII o local de atuação do filósofo cada vez mais se confunde com o desenvolvimento das instituições universitárias. A coisa se consolida a tal ponto que o filósofo “fora da universidade” passa a ser visto como um rebelde (Camus, Sartre por exemplo) ou mesmo como um excêntrico [rico?] (Maurice Blanchot, talvez sendo o caso mais paradigmático do século XX). Mas é preciso se perguntar: o que se passa na universidade? Não posso, e nem pretendo, dar conta detalhadamente da transição (ou transmutação) do filósofo autônomo — que na ausência de riquezas familiares, precisa conviver com um fantasma de precariedade — para o filósofo como um funcionário do estado. O que me interessa, no momento, é entender esse espaço que é construído nas universidades para acolher “a filosofia” e que tipo de produto ela é capaz de gerar.

Se olhamos um pouco para os cursos de bacharelado e licenciatura em filosofia, o olhar sobre o currículo e sobre a prática dos professores nos permite ver como essa instituição tem sobretudo uma natureza conservadora (novidade!). Não é necessário olhar muito longe para perceber que essa tarefa é em parte herdeira da tradição dos monges copistas. Se os monges, por um lado, copiavam manualmente os manuscritos, permitindo a sua perpetuação para além dos limites do seu suporte material, os professores de filosofia não deixam de realizar uma operação semelhante, ainda que com um nível de abstração maior. A preservação não se faz mais a partir de uma cópia manual, mas a partir do desenvolvimento da criação de formas de transmitir determinados pensamentos de forma mais eficiente. É preciso esclarecer aqui: não falo aqui simplesmente de reproduzir mecanicamente, algo que costumamos ver nas práticas (anti-)pedagógicas do ensino médio. O tipo de “cópia” que o professor de filosofia universitário realiza é uma que demanda um trabalho intelectual (sobretudo quando bem feita) para que os traços essenciais do pensamento de um filósofo possam ser destacados sem que sua obra se torne um castelo de areia. É, portanto, a partir de criações já feitas que um historiador da filosofia trabalha. O trabalho do verdadeiro historiador da filosofia — que ainda não é suficientemente elogiado — , aquele que consegue exercer essa peculiar abstração, precisa ser distinguido de um outro tipo de profissional que lida com a filosofia. Um tipo que chamarei de operador da filosofia.

Porém, como sabemos, a universidade não vive só da conservação e transmissão de saberes. Ela é um dos principais agentes do capitalismo, sendo responsável tanto pela formação de uma mão de obra qualificada como também pela busca por inovações técnicas que consigam melhorar a produtividade de inúmeros setores. É claro que isso não faz sentido para a filosofia, afinal, o que ela produz é algo de outra ordem (não vamos falar disso aqui, aguardem a minha tese hah), mas ela não deixa de ser afetada por esse movimento geral de pesquisa presente nesse tipo de instituição. Dessa forma, até a filosofia será afetada pela necessidade de produzir um modelo de pesquisa que privilegia graus intensos de especialização em detrimento de visões mais gerais. O que isso acabou gerando nos departamentos de filosofia não foi, porém, a proliferação de novos conceitos. O movimento que foi intensificado — mas nesse mesmo movimento, deturpado — foi o da história da filosofia. O profissional de filosofia deixa de ser aquele que está procurando conservar e transmitir as filosofias passadas e se converte em alguém que conhece muito profundamente um filósofo, e muitas vezes, uma região desse filósofo (“a moral kantiana”, “a estética nietzschiana”) para conseguir dar conta de cada detalhe desse micro-setor — deixando de lado, fora um diletantismo ocasional, tudo o que se se encontra fora desse cerco. Esse profissional, que é antes um operador que um historiador, passa grande parte do seu tempo escrevendo artigos e participando de colóquios em que se discute detalhes muito específicos de determinados filósofos com outros operadores igualmente especializados. Pode-se até admitir que em alguns casos consigam desvendar coisas que se encontravam escondidas, ou mesmo decifrar o “real sentido” de um conceito específico que fulano desenvolveu, jogando uma “nova luz” sobre o problema — mas sempre ressoa, diante desse tipo de trabalho, um enorme pra que?. Essa pergunta inclusive nos leva para outra distinção entre o operador e o historiador. Se o operador tende a encarar a filosofia (e sua história) como uma série de proposições positivas que se encadeiam e se sustentam no vácuo, o historiador da filosofia tende a se aproximar do filósofo ao encarar a a prática filosófica como uma que é sempre movida por problemas, isto é, a tentativa dos filósofos de lidarem com eventos, situações, objetos, coisas, etc que simplesmente não se permitem ser compreendidas com os conceitos já sedimentados que ele tem em mãos. O trabalho de um historiador da filosofia pode ser visto, então, como uma tentativa de apresentar a filosofia de algum filósofo (ou um grupo de filósofos, ou um período inteiro, tanto faz) em uma estreita relação com aquilo que o move [1].

Esse tipo de figura, infelizmente, domina cada vez mais as universidades. O problema não é propriamente com esse tipo de “saber” produzido pelo operador, mas com o fato de que o que ele produz não parece ter nem as qualidades de transmissibilidade que o historiador da filosofia procura cultivar. A coisa toda se desenvolve de uma maneira que a cena em que nos encontramos atualmente é uma que privilegia antes o operador que o historiador. Por razões que não cabe desenvolver, o sistema de publish or perish que domina as agências de fomento parece ser mais propícia para a produção de artigos ultra-especializados que busquem apenas “esclarecer alguns pontos da filosofia de x”. Com seus currículos melhores esses operadores passam a ocupar as vagas de professores. A partir desse momento o ciclo aumenta a marcha e se potencializa, pois raras vezes esse operador da filosofia tem a capacidade (ou mesmo o desejo) de sair do seu cercadinho. Os cursos de bacharelado e licenciatura em filosofia (o espaço “ideal” para entrar na filosofia) passam a ser dominados por matérias que antes buscam esclarecer minúcias técnicas de um autor do que transmitir a potência especulativa e os movimentos aberrantes que seus conceitos proporcionam. Torna-se cada vez mais difícil evitar essa relação meramente técnica com o conceito.


Mas tem algo que faltou nessa história que contei: o filósofo. O que é estranho desse movimento todo é que fica claro que se surge alguém que deseja brincar e experimentar com os conceitos isso é um mero acaso. Mesmo os historiadores da filosofia não estão preocupados com isso — seus objetivos são inteiramente outros. Não há espaço para o caráter lúdico da filosofia e a todo momento os alunos são constantemente lembrados de que “ainda não estão prontos”, de que “precisam estudar mais”, “precisam conhecer solidamente algum autor” etc. É claro que o estudo, e a o estudo de outros filósofos, é uma parte fundamental da prática filosófica. Mas, como é preciso lembrar, não é, nem nunca foi, pré-requisito saber escrever monografias sobre detalhes técnicos em algum filósofo aleatório para conseguir produzir um conceito. A coisa se torna ainda mais opressora se lembrarmos que a ausência de uma “filosofia brasileira” funciona como um teto de vidro para as nossas aspirações. O que acaba acontecendo é que aquele local que acabou por inicialmente receber os filósofos em seu momento de profissionalização é também o mesmo local que produziu uma escassez de pensamento pela própria maneira como esse tipo de instituição se organiza.

Não é de surpreender que vemos o pensamento aparecer em outras áreas. É uma piada entre as pessoas de filosofia que os departamentos de teoria literária fazem filosofia sem “o nosso rigor” [2]. Mas o que é esse rigor? Saber em detalhes os interlocutores materialistas de Nietzsche? O que nós devemos nos perguntar é se eles estão tão errados. É claro que encontraremos pessoas que simplesmente rolam na grama, que falam coisas que simplesmente não se sustentam sozinhos — mas isso não é verdade para todas as áreas? E na nossa não haverá também inúmeras pessoas que produzem trabalhos com um rigor absoluto mas sem o mínimo de interesse?

O fato é que cada vez mais encontramos a potência especulativa que era própria da filosofia em outros campos, seja nas letras (Luiz Costa Lima), na antropologia (Eduardo Viveiros de Castro), nas ciências (Mario Novello) [3]. Isso não significa que a filosofia morreu, apenas que uma confusão entre filosofia e departamentos de filosofia começa cada vez mais a se desfazer. Pois esses novos locais em que o filosófico renasce não são acorrentados pelo rigor do operador da filosofia, pelas demandas de uma hiper-especialização que nunca te concedem definitivamente uma licença para voar. É claro que isso também não significa simplesmente que o local da filosofia agora é em outros departamentos. Não. Inclusive, é importante dizer, o “filósofo estrangeiro” precisará construir por conta própria o seu percurso na história da filosofia, algo que certamente não é fácil, sem contar as inúmeras ervas daninhas que irão atacar a sua posição ambígua (“você deveria estar no departamento de filosofia”). Mas o que estou querendo apontar é que nos departamentos de filosofia há um contra-estímulo à atividade criativa e se esse desejo da criação conceitual consegue ganhar sobreviver melhor em outros espaços isso se dá pelo fato de que ele não é soterrado preventivamente. É como se o filosófico pudesse nascer alhures simplesmente pelo fato de que lá ele não é considerado perigoso. Essa prática se desenvolver em outros campos não significa, então, ausência de um rigor que só os operadores da filosofia podem julgar. Pelo contrário, o seu florescimento em outros campos nos obriga a tentar entender qual é o rigor propriamente filosófico (e que acredito encontrar nesses autores mencionados) — isso implica em repor a questão: o que é a filosofia? É preciso entender que há uma distância não só entre o filósofo e o historiador da filosofia, mas também uma distância do operador da filosofia.


[1] Não posso negar que estou sendo fortemente influenciado pela metafilosofia presente ao longo da obra de Gilles Deleuze.

[2] No caso dos EUA, essa piada não deixou de se tornar realidade, mas isso devido ao domínio analítico-fenomenológico dos departamentos de filosofia.

[3] Para ficar em alguns medalhões.