“O Segredo” e o meu preconceito com livros de autoajuda

Não sei se você lembra, mas há oitos anos explodiam as vendas de um livro que prometia desvendar um dos mistérios mais importantes da humanidade: o pensamento positivo. Claro que o marketing da editora não deixou tão na cara assim. A descrição da obra integrava-se à arte gráfica da capa, que remetia a uma escritura antiga preciosa, e ao próprio título:

“Você tem em suas mãos um Grande Segredo. Desde tempos imemoriais ele tem sido transmitido, cobiçado, ocultado, perdido, roubado e comprado por grandes somas de dinheiro. Este Segredo milenar foi compreendido por algumas das mentes mais brilhantes da História: Platão, Galileu, Beethoven, Thomas Edison, Andrew Carnegie, Einstein, bem como por inventores, teólogos, cientistas e pensadores de todas as épocas. Agora, O Segredo está sendo revelado ao mundo” (Sinopse)

Essas palavras chegaram a mim, em 2008. A sensação de ter em mãos um mistério prestes a ser desvendado foi impulso para ler as 216 páginas do livro. Estava bebendo da fonte que, possivelmente, grandes nomes da história da humanidade também se utilizaram. A minha satisfação de ler foi a mesma quando comecei a pôr em prática os ensinamentos escritos pela autora.

Para ser sincero, não me lembro detalhadamente os pontos levantados por Rhonda Byrne, ao longo da obra, mas posso sintetizá-los em um: quanto mais você pensa em algo, maiores são as chances de você conseguir isso.

Os argumentos da autora para defender o posicionamento envolviam as forças do universo, responsáveis por realizar os desejos, extremamente maleáveis ao pensamento humano. Isto é, o universo está aos seus pés, basta pensar positivamente (isso incluía retirar a palavra “não” do vocabulário).

Pensando positivo o Universo vai te trazer o que você deseja

Na época em que li, não tinha mais que 14 anos e cursava a última série do ensino fundamental II, ou seja, era um adolescente ainda em formação sem um mínimo de senso crítico para filtrar informações úteis para a vida.

Ter em mãos um livro tão poderoso, como já falei, me deixou com a sensação de que tudo eu poderia. E foi assim que comecei a desejar me dar bem na prova de história, conseguir notas altas e, pasmem, me esforçava todo dia para tentar diminuir o grau de miopia, que vinha desenvolvendo desde os meus 10 anos de idade.

Será que consigo ler aquela placa?

Nem preciso dizer que, com esse utensílio “misterioso”, deixei de estudar, de me esforçar e até de desconsiderar os meus óculos de grau. Tudo eu posso, já que penso positivo. O resultado disso foram questões incorretas de história, notas baixas e algumas dores de cabeça por forçar a vista.

Mas, uma quarta consequência, bem menos superficial e visível, mexeu comigo por longos anos.

Não consegui confiar em autoajuda

Melhorar a produtividade, a autoestima e até ganhar mais dinheiro. Nem as narrativas mais interessantes me passavam segurança. O que até foi uma boa, porque esse foi o incentivo para procurar as respostas das minhas perguntas nos clássicos da literatura brasileira. Aprendi bastante com as histórias dessas obras e com os conflitos internos das personagens.

Mesmo assim, por um bom tempo continuei nutrindo uma certa repulsa por títulos que estivessem nas prateleiras de autoajuda, o que não era muito diferente com pessoas que liam esses livros.

Livros de Autoajuda BLLEEERGH

Isso durou, mais precisamente, oito anos. Por todo esse tempo eu evitei chegar perto de livros que me prometiam sucesso, dinheiro e felicidade. Na verdade, ainda não sou conquistado por narrativas muito misteriosas, que prometem a chave para as portas da vida, como “O Segredo”. Esse ano, porém, acabei me rendendo a não-ficção e acabei descobrindo que:

O problema não é o livro

Hoje, ao meu ver, o problema que tive com a obra de Rhonda estava relacionado muito mais à minha falta de senso crítico do que aos mistérios de Platão, Galileu e os diversos pensadores citados na orelha do exemplar.

E é isso que, provavelmente, acontece com muitas pessoas que projetam suas vidas baseadas totalmente nesse tipo de livro. Recebem as informações, as dicas e os ensinamentos sem nenhum filtro, sem nenhuma crítica sobre diferenças de contexto, de ambientes e de tempo.

É possível, por outro lado, tirar bons e grandes ensinamentos sobre como levar sua vida profissional com foco, manter relacionamentos estáveis e saudáveis e até investir na bolsa. Sempre com cuidado de não endeusar os autores e suas palavras.

Eu digo isso porque, apesar desses oitos anos de repulsa, dei a chance para algumas obras e acabei incorporando dicas que desenvolveram meus posicionamentos perante o mundo e a minha própria vida. Mas isso é tema para outros textos. Enquanto que nesse, vou finalizar com um: desvendar segredos, nunca mais!