DEIXA QUEIMAR

AO SE QUEIMAR TAMBÉM SE APRENDE A CUIDAR.

Fê Chammas
Jul 24, 2017 · 5 min read

No décimo sexto dia do Guerreiros Sem Armas nós iniciamos a semana do elemento fogo.

Não coincidentemente (existem coincidências?), o dia amanheceu extremamente cinza, sem que pudéssemos ver qualquer resquício de céu azul, muito chuvoso e frio — fazia uns 13 graus depois dos 31 do dia anterior.
Todo mundo tava se arrastando, tentando adaptar seus corpos à mudança no ambiente.

Deveríamos sair cerca de 2pm para ir até o local do jogo, mas, além de o Kaká ter tido um problema com o transporte, a chuva não permitiu nossa saída.

Nos contentamos em adaptar o Jogo do Fogo para o ambiente que tínhamos disponível.

Sentamos na roda de sempre, na sala de sempre, e cobertos como nunca.

Kaká nos contou sobre as principais características do fogo, que sempre foi o elemento mais misterioso para o homem. Aprender a lidar com o fogo ajudou nossa caminhada como humanidade e, desde então, sentamos em volta dele para diversos fins.

Comida, calor, relaxamento, conversas, luz.

Nos falou também do seu potencial de colocar as coisas em movimento e da sua natureza de transformação, mas ressaltou também sua capacidade destruidora.

Fogo esquenta e queima.
Movimenta e faz desandar.
Transforma e destrói.

Como um característico ser humano cujo elemento dominante é o fogo, já pude sentir na pele muitas vezes essa coisa à qual ele se referia.

Já me encontrei muitas vezes em situações nas quais a energia que estava me permitindo acreditar, engajar e fazer algo foi a mesma que me impediu de continuá-lo fazendo.

Sempre quero muito tudo que quero.

Praticar yoga todos os dias, comer minha comida favorita até não caber mais, ouvir a mesma música infinitas vezes por diversos dias até enjoar, chegar no fim de uma trilha o mais rápido possível, seguir uma rotina extremamente regrada e inflexível.

Toda essa intensidade é fogo.

E é lindo ter energia e disposição para praticar yoga todos os dias, mas já adoeci e me machuquei por exigir mais do que meu corpo podia dar.
É delicioso comer a comida que mais gosto e escutar uma música recém descoberta, mas fazê-los tanto faz com que essas coisas percam a graça.
Sentir-se bem e capaz fisicamente é uma dádiva, mas já cheguei no fim da trilha e percebi que preferia ter ido junto em vez de mais rápido.
E disciplina, quando veio de dentro, sempre me trouxe muitos frutos. Mas, por vezes, o custo que paguei foi alto no quesito relações pessoais e até mesmo no relaxamento mental.

Portanto, a questão do equilíbrio não é nova pra mim, mas essa roda sobre fogo me colocou a pensar sobre isso.

E me liguei também que essa é uma questão extremamente pessoal.

Quero dizer que, por eu só saber o que eu sinto e penso — e não saber a totalidade das experiências de mais ninguém -, só consigo saber do meu equilíbrio.

Acho que é por isso que algumas coisas parecem tão absurdas pra uns e tão normais para outros. Mais ainda, por esse mesmo motivo, algumas coisas que me pareciam absurdas há 6 anos hoje são comuns no meu dia-a-dia.

Durante esse período, experienciei no corpo muitas coisas diferentes e novas que possibilitaram as mudanças que faziam sentido pra mim, uma a uma.

E isso também é fogo.

Me queimar com meu próprio fogo tem sido de extrema importância para aprender mais sobre meu equilíbrio.

Diferentemente de quando me falam sobre equilíbrio e sobre como a vida é, me queimando sinto a verdade na pele.

Fogo é mudança e, portanto, faz a vida acontecer.

Minha palavra sobre fogo foi execução.
Pro resto do grupo foi transformação, calor, renascimento, luz, força, proteção e perigo, ferramenta, energia, foco.

Como estávamos impedidos pela chuva de fazer fogo a céu aberto, acendemos velas e dançamos muito em círculo.

Quando já parecia que não teria jogo nenhum, aprendemos que o dia chuvoso e frio só estava nos convidando a acessar nosso próprio fogo para nos mantermos em movimento quando o clima não nos provia calor.

A chuva parou e foi possível fazer uma fogueira na parte de fora do alojamento.

Bora pro jogo.

Primeiro, pulamos a fogueira.
Depois, caminhamos na brasa.
Por fim, pulamos a fogueira em dupla.

Quão próximos podemos ficar do fogo sem que nos queimemos?

A impermanência é iminente à vida e toda transformação implica em destruição do velho para dar espaço ao novo.

Cada um tem de descobrir seu próprio equilíbrio, mas tá claro que uma forma efetiva de fazê-lo é permitindo que seu fogo atue.


A semana do fogo começou porque os sete dias subsequentes seriam de muita ação, muito movimento e muita transformação. Entramos na etapa do Cuidado, momento onde nos atentamos aos últimos detalhes antes que o Milagre aconteça.

É o momento de nos mexermos para que todos os sonhos coletivos da comunidade passíveis de realização em 4 dias possam acontecer.

Voltamos para as comunidades para nos aprofundarmos nos sonhos dos moradores, começar a planejar a captação de recursos e convidar as pessoas para o Encontro de Projetos.

O Encontro de Projetos é o momento onde a comunidade se junta novamente, mas agora para conversar sobre os sonhos previamente sonhados e entender suas viabilidades.

Tivemos cerca de 20 adultos da comunidade e pelo menos umas 30 crianças no evento.

Ótimo sinal. As pessoas escutaram e começaram a aceitar nosso convite de cultivar sua comunidade.

Mas a verdade é que a dinâmica coletiva não é simples nem fácil.

Se fosse, já seríamos, o mundo todo, uma só comunidade.
Colaborativa, consciente sobre nós mesmos e sobre o outro e vivendo em harmonia.

Mais de 3 horas de evento.
Muita discordância, opinião e emoção.
Muita vida, vontade e brilho no olho.

Não fechamos exatamente os projetos que seriam feitos dali a dois dias, mas saímos do evento com os corações cheios.

Ver tanta gente junta, discutindo sobre o que querem como coletivo e tomando pra si a responsabilidade de fazer acontecer é o maior ponto do trabalho que estamos fazendo.

Parafraseando uma coisa que escutei e que ressoou muito dentro de mim:

“No fim, se algo der muito certo, foi . Se não der certo, também foi a comunidade que fez.”

Mais do que as mudanças tangíveis e visíveis que podem acontecer, quero mesmo é saber das mudanças de paradigmas internos.

Me tornando um guerreiro sem armas

Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

    Fê Chammas

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    Otimista por natureza // Optimistic by design

    Me tornando um guerreiro sem armas

    Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

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