NÃO ACREDITO EM MILAGRES, MAS SEI QUE ELES EXISTEM

COMO FOI PARTICIPAR DE UM MUTIRÃO JUNTO À COMUNIDADE DO LARGO DO MACHADO

Fê Chammas
Jul 29, 2017 · 13 min read

Finalmente chegara o momento mais esperado do programa para grande parte dos Guerreiros. O Milagre é o quinto passo da Filosofia Elos e o momento de tangibilizar nosso trabalho nas comunidades.


Dia 1

Começamos o primeiro dia sem saber exatamente tudo que seria feito.
Como seria o parquinho? Como reorganizaríamos o lixo?.

Tampouco tínhamos todos os recursos necessários — tinta, cimento, madeira — ou o comprometimento dos talentos que sabiam como executar as coisas — pedreiro, encanador, grafiteiro.

Tínhamos três espaços de trabalho: o Largo do Machado em si, uma pracinha que fica em cima de uma gruta em homenagem a Nsa. Sra. do Lourdes e um espaço comunitário, que se chama a Espaço do Tarzan, que estava fechado a cerca de 10 anos.

Na praça, o objetivo era fazer um parquinho para que as crianças se divertissem e transformar um espaço morto em vivo, com plantas.

Espaço para o parquinho na Praça da Gruta
Espaço para o jardim na Praça da Gruta

No Espaço do Tarzan a ideia era construir uma estrutura para que ele se tornasse um espaço multiuso, para diversão, festas e oficinas. Além de dar um tapa no visual, seriam construídos dois banheiros lá também.

Parte da frente do Espaço do Tarzan. Abaixo da imagem do São Bento tem uma mina que jorra água fresca de dentro da terra. ❤
Parte de dentro do Espaço do Tarzan

Fiquei na equipe que cuidaria do Largo do Machado, cujos principais sonhos eram encontrar uma maneira de cuidar melhor do lixo, que no momento deixava o lugar sujo e com um odor desagradável, e organizar as vagas de estacionamento para os carros do Largo que, apesar de ser um lugar onde oficialmente não se pode para carros, com frequência tem mais de 15 carros estacionados de maneira muito irregular, atrapalhando não só a convivência e o fluxo das pessoas, como, por vezes, também impedindo que o caminhão entre no espaço para retirar o lixo — complicando ainda mais a situação do local.

Lixo no Largo do Machado
Espaço de convivência no Largo do Machado

Nos reunimos todos no largo para oficialmente dar o pontapé inicial.
Éramos majoritariamente Guerreiros, exceto por algumas crianças. Era sábado, 8h40 e o Largo estava deserto.

Eu estava tímido. Não sabia bem o que fazer, por onde começar.

Sentia a vergonha familiar de começar a fazer algo sem a validação de algumas pessoas que considerava importante — no caso, a comunidade.

O lixo estava muito sujo e eu estava cheio de dedos de me jogar, me envolver e me sujar.

Nos juntamos os quatro responsáveis pelo largo e começamos a se mexer. O lixo estava todo no chão, mas precisávamos do espaço para limpá-lo e repintá-lo. Emprestamos um dos contentores de outro ponto de coleta para colocarmos o lixo do Largo durante as obras.

Tampa o nariz, coloca luva e bora jogar esses lixos no contentor.

Em paralelo, fui chamar Seu Zé, o pedreiro mais respeitado da comunidade e um ser humano naturalmente maravilhoso.

Seu Zé trabalha há mais de 30 anos como pedreiro.

Ou seja, ele constrói casas e coisas há mais tempo do que eu respiro.

Pensa na experiência.

Além disso, ele também já trabalhou como gerente da cozinha de um bar e restaurante e já foi gerente de uma padaria.
Frequenta uma igreja Mormon e já se engajou em muitas ações sociais ajudando a reformar escolas e a resgatar construções em áreas alagadas.

Fala do amor que tem pela vida, das incertezas do viver e da beleza em fazer bem ao outro.

Seu Zé tem 49 anos e está cursando a 5a série do ensino fundamental. Vai todas as noites para a escola e se mostra muito feliz por ter a oportunidade de aprender na teoria as matemáticas que já sabe na prática.

Além disso, demonstra em algumas colocações o peso que sente por não ainda ter um diploma. Imagino o quão frequentemente a sociedade deve jogar isso na cara dele.

Aí me pergunto: que sistema é esse nosso que não reconhece e valoriza tanta expressão humana e capacidade técnica porque um processo formal, que somente deveria dar suporte ao desenvolvimento dessa expressão e capacidade, não foi completado?

Seu Zé passou o dia nos ensinando sua arte e construindo uma cantoneira que para um muro vivo perto do lixo, que decidimos construir para evitar que jogassem entulho no espaço.

Fizemos concreto, usamos o prumo e até me arrisquei a chapiscar o muro à distância — o que gerou boas risadas no Seu Zé.

Enquanto isso, na lavagem da lixeira, já tínhamos aliados da comunidade conosco. Cláudia, mãe do Vinícius, trocou a faxina em sua casa particular pela faxina em sua casa coletiva, seu bairro.

Conseguimos Cândida com Diego e Fábio tava sempre conosco pro que desse e viesse.

No almoço, também pudemos perceber a presença da comunidade no movimento.

O objetivo era que não comprassemos nenhuma comida e arranjassemos lugares para cozinhar para todos que participassem do mutirão — comunidade e guerreiros — e para que todos pudessem comer.

Desafio dado, desafio realizado.

Arroz, feijão, macarrão, salada e uma batata cozida maravilhosamente temperada feita pela querida Rosi.

Seu Zé, Rosi e eu no almoço

Para terminar o dia no largo, fizemos a primeira camada de pintura do espaço.


Dia 2

Começamos o domingo tentando resolver o lixo que tinha se acumulado no dia anterior. O contentor que pegamos emprestado estava transbordando e sabíamos que o caminhão só viria na segunda, portanto tínhamos que preparar o local para o lixo que viria ao longo do dia.

Nos aventuramos, Vincent e eu, a empurrar o contentor até o outro ponto de coleta para descarregá-lo.

Tinha uma pequena subida, que nos preocupava um pouco, e uma ladeira que deveria ser tranquila. Estávamos equivocados. Se não tivéssemos a ajuda do menino João e de um outro morador no caminho, não teríamos aguentado segurar o contentor na descida e seria muito lixo ladeira abaixo.

Resolvida a situação do lixo, nos colocamos a fazer as artes embelezadoras do espaço. Afinal, todos gostamos do que é belo e cuidado é um círculo vicioso. Estávamos — e ainda estamos — confiantes de que as pessoas cuidarão mais do espaço ao vê-lo bem cuidado.

César, também morador da comunidade, que carrega até um carro nas costas escadaria acima se preciso for, fez o desenho da bandeira do Brasil com o planeta terra no centro em uma parede e uns floreios em outras.

Samuca, um dos Guerreiros, se aventurou em demarcar as vagas de carro e fui ajudá-lo. Fizemos que foi possível, dado que muitos carros estacionados lá estão quebrados ou o dono não se encontrava, o que não nos permitiu completar o trabalho.

No fim do dia, ainda me aventurei com Saara, Pati e Cláudia em fazer minha primeira massa de cimento — seguindo os ensinamentos de Seu Zé — para construir um murinho de pedra que seguraria o jardim da gruta. Missão realizada de maneira estabanada, mas bem realizada.

Eu e Dudu engajados no mutirão

Terminei o dia bem tranquilo, pois quase tudo que “dava pra fazer” já tinha sido feito, mas com a percepção de que tinha algo faltando. Esse algo era a mobilização real da comunidade.

Não queríamos vê-los só ajudando. Queríamos que se responsabilizassem e liderassem as transformações dos seus espaços.


DIA 3

Tínhamos a impressão de que no terceiro dia teríamos menos engajamento da comunidade, pois era uma segunda-feira.

Começamos o dia com o foco em estimular que os moradores tomassem algumas decisões ainda pendentes dos dois assuntos mais importantes pra eles: manutenção do lixo e cuidado para que pessoas não estacionassem seus carros de maneira irregular no largo.

Vincent, Miguel e eu pensamos em organizar um círculo aberto de tomada de decisão. Convidamos o máximo de pessoas possível para a roda às 11am.

Eu estava muito feliz com a ideia e ao mesmo tempo bem discrente de que funcionaria. Colocar um bando de marmanjo para conversar com regras do tipo “só um fala por vez” ou “cada um fala somente por si e não pelos outros” não me parecia uma ideia fácil de desenrolar.

Mas eu tava curioso de ver isso na prática.

Às 11am estávamos lá e tinha somente duas pessoas presentes. Minha crença estava se comprovando. Esperamos um pouco, ninguém mais apareceu, então começamos somente entre nós, mesmo.

A dinâmica seria a seguinte:
1. Apresentar as informações da situação e o conflito
2. Escutar as vozes sobre possíveis soluções
3. Buscar um comum acordo (consenso ou consentimento
4. Celebrar a resolução

Enquanto apresentávamos a dinâmica, chegaram mais dois, e logo mais uma pessoa. Convidamos algumas pessoas que passavam a pé e elas pararam.

Ficamos a maior parte do tempo em umas 9 pessoas na roda, por 1 hora e 20 minutos de conversa.

Com alguma facilitação — não muita — para trazer as pessoas de volta aos objetivos da roda, em vez de falar de suas percepções negativas e experiências passadas, e pedir que escutássemos uma pessoa por vez, o círculo aconteceu.

Chegamos a pontos de concordância e decidimos responsáveis por tocar as frentes do lixo e do estacionamento.

Legal, mas e aí?

Fui almoçar e na volta preparei um resumo de tudo que se decidiu para botar pilha na galera. Quando cheguei no largo, nem precisei abrir o cartaz. A galera já queria meter a mão na massa.

Não hesitei.

Corri, peguei tinta, trena, madeira pra fazer de régua e indiquei o que faltava para terminar de marcar as vagas no chão.

Fiquei dando suporte pro Ronaldo enquanto ele tocava o trabalho.

Aproveitei para escutar mais sobre sua história. Conheci Isaac, seu filho de 1 ano e 9 meses, que prefere ficar com o pai em vez da mãe e que “tem inteligência pra ser doutor”. Soube também de suas três filhas que moram longe, mas que viriam morar com ele se as mães deixassem. Escutamos funk, rap e falamos sobre a importância de cuidar do espaço que é de todo mundo.

Enquanto isso, vi outro pedaço da galera do Largo intervindo na retirada de um jogo de banco e mesa de concreto que vinha da praça e seria levado embora. Disseram que queriam aquilo pra fazer uma praça ao lado do espaço do lixo, assim as pessoas cuidariam mais do espaço.

E sem nenhuma interferência dos Guerreiros, a comunidade criou essa pracinha. Concretaram as peças no chão e pintaram tudo.

Escreveram também, em cima do lixo, as regras de descarte: só de segunda a sexta, entre 19h e 7h, assim o lixo não fica apodrecendo ali no espaço público.

Acho que poucas coisas teriam mexido tanto comigo. Ver a galera se mexendo, idealizando e realizando o que queria, era o melhor sinal que podíamos receber de que o que estava acontecendo fazia sentido para eles e de que eles cuidariam daquilo.

Em paralelo, o parquinho estava pronto na Praça, faltando somente alguns toques de pintura. E o Espaço do Tarzan tinha evoluído bastante, apesar de os banheiros ainda precisarem de bastante trabalho.


DIA 4

Começamos o último dia de mutirão relativamente tranquilos, sabendo que o maior desafio seria terminar as coisas no Espaço do Tarzan, pois o Largo e a Praça estavam praticamente prontos.

Mais uma ilusão.

O sub prefeito veio ver o parquinho pela manhã e disse que ele estava irregular. Por normas de segurança, precisávamos mudar alguns dos pilares de lugar, tirar dois bancos de concreto para que houvesse um espaço de 1,5m em volta do brinquedo e mudar o piso do local, que é de concreto, e demonstra um risco sério caso as crianças caiam. Teríamos que encher a praça de areia ou colocar piso emborrachado.

Ele tem razão.

Essas normas são importantíssimas e comprovamos isso ao longo do dia, quando uma criança caiu do brinquedo e não se machucou porque o chão já estava coberto de areia. Mas avisar no último dia de mutirão, sendo que estavam cientes do projeto muito antes de ele acontecer, foi bem frustrante.

Sem tempo para choramingar, começamos o trabalho. Foquei toda minha energia na praça.

Com a ajuda de Ronaldo, Rita e Nino, todos moradores do Largo, e da Bru, outra Guerreira, movemos o brinquedo de lugar (retirando o pilar de um lugar e concretando em outro) e retiramos os bancos.

Ao longo do dia, muita gente se mobilizou pra levar muitos metros cúbicos de areia até lá em cima. Eduardo, Negão, Ismael, Robert, Fabinho, César.

Ainda tínhamos que cavar os buracos para os caibros que segurariam a cerca do parquinho, concretar a mureta que seguraria a areia e resolver a questão do ralo, que não podia ser coberto por areia, mas que tinha que drenar a água.

O tempo foi passando, algumas coisas foram sendo resolvidas, e outras nem tanto.

Consegui a doação de uma tela para o ralo num comércio do bairro.

Já no fim do dia, quando o último círculo de encerramento do mutirão estava se formando, eu e Bruno, ex-Guerreiro e parte do time do Elos, estávamos correndo pela comunidade atrás de um saco de cimento para terminar de concretar os caibros da cerca.

Achamos.

Nós, um voluntário e um morador, Marcelo, preparamos a massa em 10 minutos e ficamos mais uns 30 para fazer tudo que era necessário. Terminamos quando a celebração já estava quase no final.

Cheguei na roda a tempo de ouvir o poema que o Fábio, um dos moradores da comunidade que esteve conosco desde o primeiro dia, escreveu sobre a experiência de receber os Guerreiros em sua casa e se envolver na experiência.

Dedicatória

Sorrisos que nos encantam
Olhares que nos fascinam
Pequenos homens gigantes
E grandes mulheres, meninas

Sensíveis como as flores
Cultivadas entre amores
No jardim das existências
Semearam em nossas carências

Trouxeram seus encantos
Trouxeram suas magias
Ainda que por um momento
Nos trouxeram um pouco de alento

Deixaram tudo para trás
Família, amigos, irmãos
Rumo ao desconhecido
Abraçaram sua missão

Se tivesse como pagá-los
Por tamanha dedicação
Atitudes que não tem preço
Só são pagas com gratidão

Obrigado por tudo, amigos irmãos

De olhos mareados, acompanhei o encerramento do círculo com o coração cheio.

Organizamos as coisas e fomos pra casa transbordando a energia que já nem tínhamos mais.

Deitei no chão do quarto esperando para tomar banho e pensando sobre como meu corpo estava exausto e sobre o quanto me sentia bem.


Dois dias depois de terminarmos o mutirão, fomos os 60 Guerreiros visitar todas as comunidades nas quais trabalhamos.

Começamos pelo México 70, conhecendo suas palafitas, o porco de estimação chamado Progresso, a praça enorme que foi revitalizada no mutirão e as artesãs locais que estavam expondo seus produtos.

Praça da Comporta, no México 70
Palafitas no México 70

Depois, fomos ao Fontana, comunidade vizinha do Largo do Machado. Andamos por suas escadarias, conhecemos seus pontos privilegiados de vista para toda a cidade de Santos — do porto à praia — e conferimos as transformações feitas no mutirão.

Mesa de ping-pong construída no mutirão no Fontana
Vista privilegiada do Fontana

Quando caminhávamos para o Largo do Machado, a sensação era de estar chegando em casa. Cenário muito familiar, muitos “boa tardes” conforme passávamos em frente a estabelecimentos e muito carinho com o local. E só tínhamos ido lá por 13 — intensos — dias.

Chegando no Largo, vimos que o lixo ainda estava muito bem organizado e havia algumas pessoas desfrutando da nova pracinha que foi construída. Nino nos contou que a nova praça foi batizada como Praça dos Guerreiros. Só falta a placa para consagrar.

Largo do Machado depois do mutirão
Espaço de convivência do Largo depois do mutirão

Algumas crianças já vieram nos receber com muita areia no corpo — sinal de que estavam aproveitando o parquinho, também.

Praça da Gruta depois do mutirão
Jardim da Gruta depois do mutirão

Por fim fomos ao Espaço do Tarzan e recebemos o que foi tido por todos como o maior presente: 6 moradores da comunidade seguiam trabalhando para finalizar o banheiro do espaço. Terminando telhado, tubulação e elétrica e varrendo toda a área.

Frente do Espaço do Tarzan depois do mutirão
Espaço do Tarzan depois do mutirão (ainda em obras, sendo finalizado pela comunidade)

Fábio pegou o auto falante para dizer a todos que estava muito feliz com a realização dos projetos, mas que o maior presente que havia ficado na comunidade era o fortalecimento das relações.

Dava pra sentir a energia do grupo ao presenciar aquele momento. Pessoas envolvidas e empolgadas com a possibilidade de seguir trabalhando juntas.

Todos os Guerreiros 2017 e parte da comunidade do Largo do Machado no Espaço do Tarzan

O que segue reverberando em mim é a importância de humanizarmos os processos que construímos e não dar atenção somente para os resultados que buscamos. Mais do que construir um parquinho ou revitalizar o Largo, ali foram construídas muitas novas possibilidades de relações interpessoais.

E tem forma melhor de passar por esta vida do que convivendo, aprendendo e construindo laços com aqueles que cruzam nosso caminho?

Sigamos juntos.

Me tornando um guerreiro sem armas

Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

    Fê Chammas

    Written by

    Otimista por natureza // Optimistic by design

    Me tornando um guerreiro sem armas

    Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

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