O ELEMENTO TERRA E O OLHAR

Entrando em contato com o primeiro elemento e trabalhando a janela pela qual enxergamos o mundo.

Fê Chammas
Jul 10, 2017 · 7 min read

No quarto dia do programa tivemos contato com o primeiro dos 5 elementos com que trabalharemos — a terra.

A dinâmica para experienciarmos a essência do elemento terra foi uma vivência e um jogo, liderados pelo escritor de origem indígena Kaká Werá. Pegamos um barco e subimos o rio em direção ao uma região de mangue e mata bem pouco habitada.

Eu estava super curioso com a vivência que teríamos, mas confesso que também sentia uma coisa estranha dentro de mim, quase um embrulho no estômago.

Ficava me perguntando: por que tô me sentindo assim?

Seria ansiedade? Medo do mato? Medo de perder?

Pronto.

Medo de perder. Acho que cheguei numa pista boa.

Percebi que a palavra jogo me deixava incomodado, mesmo sabendo que não teria competição.

Me vinham lembranças dos acampamentos e gincanas da escola, nos quais sempre competíamos entre os coleguinhas, salas ou outras séries. Eu ficava com muito medo dessas experiências, porque me pressionava para ganhar e me afirmar frente aos outros e, principalmente, para me convencer do meu próprio valor.

E quando as situações envolviam atividades físicas ao ar livre, o sentimento ganhava uma dimensão ainda maior, pois, apesar de sempre ter sido ativo, era bem gordinho e com capacidades físicas limitadas — e isso me deixava complexado.

Só por esse convite a refletir já valeu a vinda ao Jogo da Terra.

Foi muito bom conseguir entrar em contato com esse sentimento, perceber e aceitar que essa mentalidade nunca me fez bem.

Melhor ainda é saber que um outro racional é possível.

Entramos no mato.

Silêncio.
Cheiro fresco de mata viva.
Um sol gostoso esquentando o corpo em alguns pontos do caminho.
Os pés descalços na terra.

Nos reunimos em círculo, como de praxe.

Algumas respirações fundas, trazendo pra dentro de mim um pouco daquele ambiente, e meus incômodos, medos e inseguranças, foram se dissolvendo.

Fizemos uma dança indígena em homenagem à mãe terra e entramos em contato com as sensações que se passavam em nosso corpo enquanto nos assentávamos naquele ambiente.

Fomos convidados a refletir e compartilhar, em uma palavra, o que a terra significa para cada um de nós.

Regeneração, vida, maternidade, criação, cuidado, força, energia, nascimento, ventre, cuidado, proteção, interdependência, raízes.

Já parou pra pensar no tamanho dessa potência?

Raízes das árvores que pedem de volta seus espaços quando são cimentadas em calçadas.
Plantas que crescem em pequenas fissuras no asfalto dos centros urbanos que tomaram seu espaço.

Essa foto foi tirada em Alcântara, MA. Vemos partes da cidade colonial em ruínas, mas a terra e suas manifestações estão lá, exuberantes e renovadas a cada dia, sem precisar de nenhuma interferência.

Da mesma maneira, essa potência se manifesta também dentro do nosso corpo, quando precisamos lidar com alguma adversidade que sofremos e que pode nos fazer mal. Descanso, febre, cicatrização, resistência. Tudo isso é a potência da terra dentro da gente.

E se tornou normal o ato de cortar essas manifestações do corpo com pílulas ou estimulantes porque, na rotina doida que vivemos, não podemos nos dar ao luxo de trabalhar menos horas para descansar, de desprender um tempo para buscar a origem daquela dor de cabeça irritante que não me deixa pensar direito ou de permitir que a febre atue até que o corpo termine de se defender.

Mas independentemente de como levamos nossa vida, a verdade é que da terra viemos e para a terra voltaremos.

O jogo indígena que fizemos foi uma corrida, na qual carregávamos um tronco de um ponto a outro e a regra era que todos os 60 tinham que carregar o tronco antes do ponto de chegada e todos deveríamos chegar juntos.

Quais o os impactos de termos construído uma vida moderna tão distante desse elemento e de suas propriedades?

É evidente a importância de estarmos próximos da terra para que possamos usufruir integralmente de toda sua potência, dentro de nós, em nossas relações com o outro e com o todo.

Sem isso, é impossível nos reconectarmos como espécie e conviver de maneira harmônica, colaborativa e sustentável.


Nos dias 5 e 6 fomos às comunidades começar a exercitar o primeiro passo da Filosofia Elos: o Olhar.

O Olhar diz respeito às belezas que somos capazes de ver, os recursos que conseguimos encontrar e a apreciação que sabemos exercitar.

Subimos o Morro São Bento e chegamos no Largo do Machado, um lugar desconhecido para todos do grupo de Guerreiros. Fomos direto ao nosso ponto de acolhida, a Sociedade de Melhoramentos da comunidade.

Antes mesmo que nos apresentassem as redondezas, nos lançamos à nossa primeira atividade: caminhar vendado pelo bairro, guiado por um outro Guerreiro que tampouco conhecia o espaço. Fomos em dupla, portanto guiamos e fomos guiado.

Comecei guiando.

Parecia que a caminhada seria corriqueira. Só precisava cuidar para que a Yasmin não se machucasse e encontrar algumas coisas para ela tocar.

Que nada.

Quanta diferença faz caminhar por um lugar desconhecido buscando formas de possibilitar ao outro experienciar a comunidade através de qualquer sentido que não fosse a visão.

Encarei a escadaria infinita já de cara.
Identifiquei diferentes texturas de paredes e portas — algumas bem semelhantes com as decorações rústicas que me agradam.
Reconheci a variedade de plantas e a diferença dos tamanhos, formas e texturas de suas folhas.
Achei lugares com um solzinho acolhedor.

Paramos para apreciar o som da água que caía de uma bica de água fresca que rola ao pé de uma das escadas do bairro, em um monumento em homenagem a São Bento.

Depois coloquei a venda.

Pensei que ia conhecer a comunidade sem meus dois olhos.
Mas a verdade é que o fiz com outros mais de 20 órgãos da visão.

Pontas dos dedos, palmas, cotovelos, ombros, nariz, orelhas, joelhos e pontas dos pés. Tudo virou olho.

E juro que esses olhos me davam, em minha cabeça, uma clara noção dos lugares por onde eu passava.

Sambinha rolando e eu podia imaginar certinho alguns amigos sentados em volta da mesa, no quintal, tomando uma cervejinha.
Cheirinho de comida no ar e eu podia ver o arroz e feijão caseiro sendo servido.
Plantas pequenas pedindo espaço nas brechas dos muros e grandes folhas entregando sua imponência ao mundo e percebo claramente a exuberância natural da região.

Uma criança.

Ela viu a experiência acontecendo, se aproximou e ficou parada em minha frente — sem que eu a visse, é claro.

Yasmin me direcionou para tatear as caixas que o pequeno trazia. Faço isso e acabo chegando em suas mãos.

Me surpreendo ao perceber que tem um ser humano ali na frente. Quem será que é? — pensei intrigado. Qual a idade, o gênero e o que tá fazendo aqui parada?

Não importa.

Suas mãos são extremamente macias, seus braços lisos e seu abraço, que ganhei de lambuja, super confortável. Já consigo sentir a receptividade e o acolhimento do local.

Voltando da experiência, somos convidados a representar em palavras ou desenhos a experiência que tivemos.

Foi como se, ao tirar minha forma tradicional de ver, eu saísse da superfície de conceitos que tomam meus julgamentos de assalto quando vejo uma paisagem condicionada e pudesse me aproximar dos sentimentos que estar presente naquele local me proporcionavam.

Quase como se deixasse de ver os reflexos que projeto das coisas e chegasse um passinho (só um) mais próximo dos sentimentos que se passavam em mim ao viver aqueles momentos.

Almoçamos na Dona Ângela, que estreou suas aventuras na culinária vegetariana diretamente com uma panqueca de abobrinha que já vai entrar no cardápio dela.

De tarde fomos convidado à Festa Junina de um centro de jovens que fica logo à frente do nosso local de concentração.

Bola na boca do palhaço, argolas, pescaria, latas pra derrubar e quadrilha. Ah, claro, e a parte mais importante: os olhares mais vivos que eu tinha visto na comunidade até então.

Crianças e adolescentes transbordando de curiosidade para saber o que fazíamos ali, como era morar no Zimbábue ou na Bélgica e querendo nos mostrar tudo da festa junina que eles mesmo fizeram — com suas próprias mãos e recursos que encontraram pela comunidade.

No segundo dia pelo bairro, tivemos a oportunidade de nos aprofundar no olhar, buscando as belezas e os recursos disponíveis na comunidade.

Casas lindas, árvores frutíferas, praças, escadarias, bica de água fresca, decorações de material reciclado, boleiras, costureiras, uma vista privilegiada do porto, da Vila Belmiro e do mar, grafites. Quanta coisa!

Chegamos de mansinho e começamos a buscar o belo do local. Mas, na verdade, o trabalho que estava sendo feito era dentro de nós.

Se vemos as coisas como somos, e não como elas são, deveríamos buscar revolucionar nosso olhar ou a nos mesmos para ver belezas em nosso entorno?

Que convite.

E além de tudo isso, tem uma última coisa que reverbera profundamente dentro de mim.

Tivemos dois dias completos, dedicados somente a olhar a comunidade. Com tempo de sobra, calma e possibilidade de conversar e trocar sobre as vivências, chegamos a uma lista de toda a abundância que encontramos no bairro.

Talvez isso não fosse possível se acelerássemos o passo e não déssemos tempo ao tempo.

É simples: para fazer as coisas de maneira mais rápida, nosso cérebro foca nas coisas que ele já conhece e que identifica com mais facilidade. Ou seja, se seguirmos precisando agir rapidamente, como será possível enxergar coisas que não estamos acostumados a ver?

Quer uma sugestão? Desacelera aí pra refletir sobre isso.

Me tornando um guerreiro sem armas

Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

    Fê Chammas

    Written by

    Otimista por natureza // Optimistic by design

    Me tornando um guerreiro sem armas

    Relatos sobre minha experiência no Guerreiros Sem Armas #10

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade