QUAL É O SEU SONHO?

Descobri que não tenho facilidade em responder qual o meu sonho no terceiro passo da Filosofia Elos — o Sonho.

O Sonho é o momento em que vamos descobrir com a comunidade qual o sonho coletivo que eles querem realizar juntos.

Pode parecer um detalhe, mas a palavra coletivo faz uma grande diferença no processo.

Construir um sonho coletivo não é fazer algo com que muitas pessoas da comunidade simplesmente concordem. 
Para que o sonho seja coletivo, é necessário que toda sua construção seja feita de maneira colaborativa.

Portanto, nosso desafio não é só descobrir sonhos que existem na comunidade, mas estimular que esses sonhos sejam compartilhados com a comunidade e pela comunidade para que se possa sonhar junto.

Sonhar junto é importante por alguns motivos.
Primeiro porque assim o sonho vem das futuras beneficiárias e ninguém melhor do que elas para saber o que é pertinente ser feito.
Segundo porque, para se chegar em um sonho comum, é preciso que as pessoas se aproximem e um diálogo aconteça. 
Terceiro porque esse diálogo permite que as pessoas conheçam umas às outras e se reconheçam umas nas outras
E, por último, porque se as pessoas construirem a ideia juntas e entenderem o valor do trabalho a ser feito, muito mais provavelmente elas se engajarão ativamente para fazer o milagre acontecer.

Este processo flui mais facilmente depois de termos trabalhado o Olhar e o Afeto como passos anteriores, mas confesso que estava muito curioso e um pouco desconfiado em relação a possibilidade de fazer tudo isso acontecer.

Acredito que isso esteja relacionado ao meu histórico, pois sempre trabalhei em projetos que envolviam hierarquia, existia um objetivo que não necessariamente era o que mais contemplava as necessidades dos envolvidos e sempre tinha alguém responsável por mediar, organizar e direcionar os resultados.

Ou seja, nunca trabalhei de maneira realmente colaborativa.

Como a melhor forma de aprender é fazendo, lá fomos nós.

Saímos na comunidade para dar aprofundar as conexões com as pessoas e descobrir quais seus sonhos para a comunidade.

O exercício não é simples, pois precisamos manter nossa escuta muito ativa para deixar que ela fale sobre seus sonhos. Isso significa me segurar para não sugerir possibilidades de sonhos, complementando o que as pessoas estavam tentando comunicar, ou compartilhando minhas próprias ideias, que já foram construídas ao longo do tempo passado no bairro.

Depois de algum esforço e ótimos papos, duas coisas ficaram evidentes para mim.

Uma foi a importância das crianças no mundo.

Além de elas serem o futuro do mundo, como escuto desde sempre, o sonho de ter disponível mais espaços e possibilidade de cuidado com as crianças surgiu amplamente pela comunidade.

A outra foi a importância de trabalharmos constantemente o pensar coletivo, pois isso estimula nosso altruísmo.

Quando perguntávamos sobre os sonhos das pessoas para a comunidade, muitas diziam coisas como “ganhar na loteria” ou “ser feliz”, mas ao insistirmos na parte coletiva da pergunta, apareciam muitos sonhos para a comunidade como um todo.

E, muitas vezes, essas coisas nem contemplavam o próprio sonhador diretamente. Um exemplo foi uma pessoa que não tinha filhos ou parentes pequenos, mas disse sonhar em ter algum espaço de lazer para as crianças brincarem e não precisarem ficar na rua.

Depois, fomos buscar comprovar de maneira mais ampla e quantitativa a validade dos sonhos que tínhamos descoberto até então.

Andamos pela comunidade trocando sonhos por sonhos. Para quem nos contasse um de seus sonhos para a comunidade, daríamos um de nossos sonhos de creme.

Foi nessa oportunidade que ouvi uma coisa muito interessante.

Perguntei a um senhor se ele tinha um minutinho para compartilhar um de seus sonhos para que a comunidade vivesse melhor.

Ele me ouviu, ficou me olhando e logo disse: “Ah, eu sonho muitas coisas, né?”.

Pedi então que ele especificasse uma dessas coisas. Qualquer coisa concreta na qual ele acreditasse.

Ele pensou, balbuciou alguns “ééé…”, “bem…”, “eu acho que…” e, depois de um minuto, disse: “É tanta coisa que nem consigo te falar uma específica”.

Se queremos tanta coisa, por que temos tanta dificuldade em dizê-las?

Fiquei com aquilo na cabeça.

Também fizemos um exercício sobre nossos próprios sonhos, para nossas vidas, e percebi que eu também tenho dificuldade em definir quais são meus sonhos. Sei de muitas coisas que não quero que aconteça em minha vida, mas não tão facilmente consigo dizer o que de fato quero.

Sonho que um certo problema social não exista, sonho que um comportamento não se repita, sonho não ter mais um certo hábito.

Com frequência, eu sonho no negativo.

E não me parece ser possível realizar não-coisas.

Além disso, será que, se eu excluir tudo aquilo de que não gosto na vida, vou ter algo de que gosto?

Acho que é por isso que muita vezes corro atrás do rabo quando quero fazer mudanças em minha vida. Não quero um monte de coisa, mas não sei ao certo o que quero.

Sempre que soube o que queria, fui atrás e a mudança foi uma consequência natural, sem resistência e sem dor.

Depois de toda essa reflexão, organizamos o Círculo dos Sonhos, no qual queríamos juntar as pessoas da comunidade para conversarem sobre seus sonhos coletivos e quais os pontos de convergência entre elas.

De novo, os primeiros a chegarem em peso no evento foram as crianças.

Começamos a dinâmica com eles e, quando parecia que eles seriam os únicos a compartilhar e discutir seus sonhos, os adultos começaram a aparecer.

Com alguma mediação, foi lindo ver as pessoas se encontrando — em muitos níveis.

Uns mais cansados depois de muitas tentativas, outros ainda muito sonhadores. Mas todos ali, juntos, dedicando energia ao que o ser humano sabe fazer melhor: trabalhar junto.

Saímos de lá com uma lista de 5 sonhos realmente coletivos, pertinentes e exequíveis.


No dia seguinte, o Elos organizou um evento juntando pessoas das três comunidades nas quais os Guerreiros estão imersos e alguns convidados inspiradores para falar sobre experiências de transformação comunitária e abundância que buscam, encontram e evidenciam em situações e lugares onde geralmente se enxerga escassez.

Escutamos sobre o Instituto Favela da Paz, sobre o Movimento Boa Praça e o projeto Ecobairro, sobre o projeto Vie La En Close e sobre a UNAS, de Heliópolis.

Gente de diversos contextos, em lugares diferentes, fazendo um movimento comum de juntar talentos, visualizar as mudanças que querem e trabalhar com os recursos que tem disponíveis no momento.

Me parece que o processo que estou buscando individualmente, de revolucionar a minha visão de mundo para revolucionar meu mundo, é o que as comunidades nas quais esses projetos atuam e muitas outras pelo mundo afora estão fazendo no nível coletivo.
Estão se organizando internamente para mudar sua forma de estar no mundo, pois isso, sem dúvida, muda seus mundos.

Termino o dia inspirado e certo de que quero fazer parte e ajudar essa mudança a acontecer.

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