Comunidade global via Facebook?

Se isso não te parecer nada estranho, vou propor uma rápida reflexão sobre porquê deveria.

A visão de futuro de um gigante como o Facebook Inc. é algo que deve ser analisada com muito cuidado, de preferência fazendo comparações entre o passado ocorrido e o futuro que será desenhado. Neste sentido a publicação na página de @MarkZuckerberg no dia 16/02/17 abarca elementos muito interessantes para que possamos comparar com as atuais práticas da principal mídia social da atualidade.

É importante para esta análise perceber quais elementos externos e internos influenciam neste posicionamento do criador do Facebook, como a política populista e nacionalista de Trump, os crescentes questionamentos acerca do poder de influência do próprio Facebook, as Fake News e os vínculos com as eleições presidenciais norte-americanas. Até o próprio CEO da empresa passa por um momento conturbado por conta da tentativa de sua retirada da presidência do conselho, por um grupo de acionistas.

Na leitura do texto publicado é importante perceber a mudança de postura desta gigante da tecnologia no contexto de centralização das mídias digitais. A cada ano que passa vemos o aumento da presença de grandes empresas e conglomerados tecnológicos que oferecem serviços à comunidade de forma “gratuita”. Se antes tínhamos à disposição uma série de mídias sociais competindo por usuários, agora temos o amplo reinado do poucas empresas. Esta é uma tendencia preocupante da própria internet, que deveria ser distribuída e não centralizada.

Esta nova topologia da internet cria um verdadeiro funil no fluxo informacional, onde as poucas empresas que detém as principais vias de informação são aquelas que controlam praticamente toda a web.

E esta dinâmica evidencia a real natureza de empresas como o Facebook, sendo seu verdadeiro negócio os dados lá postados, informações que publicamos diariamente sobre nossos comportamentos, os acontecimentos próximos a nós, nossas opiniões e nossa própria visão de mundo. Estes dados são insumos para a venda de anúncios, para estudos de grupamentos e análise de tendências em comunidades cada vez maiores.

É entendendo o negócio da empresa Facebook Inc. que podemos caminhar para a análise dos principais pontos elencados por Zuckerberg em seu “textão” no Facebook. Na primeira parte do texto o CEO do Facebook faz uma rápida apresentação de suas aspirações para a ferramenta e uma análise do momento que vivemos no mundo: “estamos construindo o mundo que queremos?”.

A partir deste questionamento o autor destaca o que ele chama de infraestruturas sociais, sendo elas os elementos que possibilitam a construção do que convencionamos chamar de sociedade. Entendo que estes elementos, conforme indicados por Zuckerberg, são estruturantes da vida “social” por facilitar a convivência e a busca por objetivos comuns, tornando possível a aproximação de cada vez mais pessoas. Como exemplos utilizados no texto destaco a citação das comunidades, dos meios de comunicação massivos e dos governos como expoentes destas infraestruturas sociais.

Neste ponto chama a atenção o papel delegado pelo autor do texto à plataforma Facebook, no desafio de construir o próximo passo no desenvolvimento da humanidade, das nações para a comunidade global:

Em tempos como estes, a coisa mais importante que nós do Facebook podemos fazer é desenvolver a infraestrutura social para dar as pessoas o poder de construir uma comunidade global que funcione para todos (Zuckerberg).

Como CEO da empresa é claro que colocaria sua solução tecnológica no centro do desenvolvimento de novos processos associativos, justamente em decorrência do aumento do fluxo informacional na vida contemporânea. Mas isto somente revela o papel desempenhado pelo Facebook no problema da centralização na web, apontando para a intensão de manter a plataforma como a principal ferramenta, realizando aquisições de outras soluções que possam “comprometer” o avanço do software. Aqui podemos ver como a proposta de resolução do problema indicada pelo Facebook, tornar-se ainda mais importante como infraestrutura social para a humanidade, pode gerar mais questionamentos se relembrarmos da questão da centralização das mídias na internet.

Ok, o software realmente nos auxilia na sociabilização diária, contribuindo com o estabelecimento de fluxos interacionais que não tínhamos em outras ferramentas. Mas com o crescimento do uso da ferramenta algumas perguntas importantes ficaram sem resposta. O que fazem com nossos dados? Como os dados postados diariamente são analisados pela ferramenta? Que tipo de estudos são implementados com as informações produzidas pelos indivíduos? Como tenho certeza sobre os filtros a que são submetidos a informação que chega a mim por meio da timeline se a política dos algoritmos não são reveladas? Quais as possibilidades de análise do banco de dados global do Facebook?

Estas são somente algumas perguntas que podem ser feitas a respeito dos pontos mais nebulosos sobre o Facebook e seus efeitos no processo de compartilhamento de informação.

Com a postura descrita no texto de Zuckerberg, o Facebook pretende responder às crescentes críticas que vem recebendo, travestindo os interesses corporativos com um apelo humanitário e de desenvolvimento social pleno. Ao retirar este fino véu discursivo podemos verificar as agressivas políticas de uso e apropriação dos dados na plataforma, reforçados pela falta de transparência do funcionamento de seus algoritmos, de suas negociações comerciais e também de suas relações governamentais.

Trata-se de um projeto social, mas também de um projeto de negócios, reunir mais pessoas ao redor do mundo, engajá-las e trabalhar em direção a objetivos positivos. (IDGNow).

Por meio desta demonstração de novos olhares, o Facebook Inc, que tem como seu principal negócio o tempo que gastamos na ferramenta e as informações que lá deixamos, dá indícios de novas iniciativas que estão surgirão futuramente:

Durante a última década, o Facebook focou em conectar amigos e familiares. Com este alicerce, nosso próximo objetivo será desenvolver a estrutura social para comunidades - para nos apoiar, para nos manter seguros, para nos informar, para o engajamento civil e para a inclusão de todos (Zuckerberg).

Comunidades de apoio

Após se estabelecer como principal mídia social, cujo primeiro propósito foi aproximar as relações entre as pessoas, o Facebook agora pretende fortalecer as funções da ferramenta Grupos.

Ao explorar a dinâmica de uso dos usuários em relação a função de grupos do Facebook, Zuckerberg aponta algumas novas soluções que poderão ser implementadas, todas baseadas nas experiências dos usuários:

  • o acesso aos grupos ocorre pela indicação de amigos ou do próprio Facebook: Mark nos diz que a maioria dos usuários do Facebook não busca grupos por conta própria, mas os acessa por meio de indicações. Assim, o caminho lógico é o aprimoramento do processo de indicação do próprio Facebook, por meio de seus algoritmos.
  • o papel dos líderes comunitários: para sustentar comunidades significativas o autor reforça o papel dos líderes comunitários. Neste sentido aponta que a ferramenta para administradores de grupos é relativamente simples, ressaltando os planos para sua melhoria, tal qual feito recentemente com a ferramenta Pages (as fanpages).
  • as sub-comunidades: durante todo o texto Mark faz comparações com as ferramentas no Facebook e nossas instituições e formas de viver coletivamente, buscando problemas que o software pode resolver. Observando as comunidades, tal qual uma escola, não é uma única comunidade, mas composta de várias outras, como as salas, grupos de estudantes etc. Há então outra linha de atuação, a expansão da ferramenta grupos para suportar sub-comunidades.
Nosso objetivo é fortalecer as comunidades existentes ao nos ajudar a se aproximar online tão bem quanto offline, além de nos permitir formar comunidades completamente novas, transcendendo a localização física (Zuckerberg).

Comunidade Segura

O Facebook pretende nos auxiliar na construção de comunidades mais seguras, uma vez que “hoje as ameaças estão aumentando globalmente, mas não a infraestrutura para a nossa proteção” (Zuckerberg). Aqui Mark ressalta o alto fluxo de informação compartilhado na rede e a capacidade de alcançar rapidamente um grande número de pessoas em todo o mundo como os principais pontos de ajuda da ferramenta, principalmente relacionada à função Safety Check:

Safety Check — ferramenta para marcar usuários que estejam seguros em situações de catástrofes, para alertar amigos e familiares. A ferramenta foi ativada cerca de 500 vezes em dois anos, com mais de um bilhão de notificações realizadas por usuários.

Dentre os encaminhamentos futuros para o Facebook fica bem visível o interesse no desenvolvimento de soluções de Inteligência Artificial, para aprimorar os mecanismos de leitura e análise dos conteúdos postados na mídia social.

Estamos pesquisando sistemas que podem ver fotos e vídeos para sinalizar conteúdo que nossa equipe deve analisar. Isso está ainda em fase muito inicial, mas nós já começamos a olhar para alguns conteúdos, gerando cerca de um terço de todos os relatórios para a equipe que revisa o conteúdo da nossa comunidade (Zuckerberg).

Diversos argumentos são utilizados pelo CEO da empresa para fundamentar a necessidade da solução, desde a busca por propaganda de grupos terroristas até o monitoramento para evitar tragédias individuais como suicídios.

Aqui entra a grande questão das fronteiras entre o monitoramento, a privacidade e o uso dos dados na ferramenta. Não é coincidência que Mark aborda a questão da privacidade justamente neste trecho de seu texto, exemplificando a utilização da criptografia utilizada no WhatsApp, também de propriedade da Facebook Inc.

Novamente aqui aquelas questões apontadas acima fazem ainda mais sentido. Qual a garantia, com uma solução que tenha a capacidade de analisar todos ou a maioria das informações postadas nesta mídia social, será dada aos usuários de que seus dados não serão compartilhados com terceiros e nem utilizados pela Facebook Inc. de forma irregular? Aqui cabe a discussão da questão da propriedade do conjunto de dados gerados pelos usuários, algo para uma próxima reflexão.


Comunidade Informada

Aqui Mark aborda duas das principais controvérsias que envolveram a ferramenta no ano passado, além da questão da privacidade dos dados, o alto compartilhamento de Fake News na rede e os Filtros Bolhas.

Diversidade de pontos de vista:

Para tratar da questão dos filtros bolha, o autor compara o potencial das mídias sociais ao das mídias tradicionais, afirmando que elas possibilitam ao usuário maior quantidade de perspectivas, justamente por estas novas mídias darem voz a um número cada vez maior de interlocutores. Realmente, se antes tínhamos acesso a poucos veículos de informação, como os jornais impressos, de rádio e televisão, hoje há um universo de possibilidades, principalmente ao se levar em conta as mídias digitais.

Mas mesmo esta grande diversidade de fontes de informações não é o suficiente para furar o filtro bolha, como aponta Zuckerberg:

Pesquisas mostram que algumas das ideias mais óbvias, como mostrar para as pessoas um artigo da perspectiva oposta, aprofundam a polarização ao enquadrar outras perspectivas como exteriores. Uma abordagem mais eficaz é mostrar uma gama de perspectivas, permitindo que as pessoas vejam onde suas opiniões se enquadram em um espectro e para que possam chegar a uma conclusão sobre o que eles acham que é certo (Zuckerberg).

Ou seja, o que Mark nos mostra, é que para vencer esta dicotomia produzida pelos filtro bolha, é necessário reforçar o papel ativo dos indivíduos no processo de análise crítica das informações que lhes são apresentadas. Ao abandonar a comparação de extremos, compreendendo a complexidade das controvérsias em discussão é que poderemos caminhar para fora destas bolhas. Este é realmente um passo acertado em direção à compreensão mútua.

Precisão da informação:

Na questão do combate ao avanço das notícias falsas vemos que as mídias sociais produziram o cenário perfeito para o crescimento desta prática. Não é uma prática nova, mas a facilidade de acesso à instrumentos que ampliaram o potencial de fala dos indivíduos, com relativo anonimato, facilitou esta prática.

Sobre esta prática Mark nos informa que avanços foram feitos para combater as notícias falsas, utilizando as mesmas estratégias utilizadas com os spams, mas ressalta a dificuldade de filtrar as notícias falsas entre sátiras e opiniões. Para isto ele informa que a abordagem do Facebook nesta questão será direcionada na ampliação da divulgação de diferentes perspectivas acerca de um fato e também na atuação de profissionais que realizam a checagem dos fatos (Fact-cheking).

Com relação à checagem de fatos a estratégia adotada pela plataforma será a parceria com instituições independentes que acompanham os conteúdos compartilhados com indícios de notícias falsas. Ao ser constatado determinado conteúdo como notícia falsa, ele será marcado como tal e rebaixado no feed de notícias do Facebook. Além disso, Mark apresenta que o Facebook começa a levar em consideração que os conteúdos que são compartilhados sem que as pessoas tenham lido, como claros sinais de notícias falsas ou sensacionalistas.

Para fomentar a produção e o compartilhamento de conteúdos de qualidade o CEO da empresa indica o interesse no fortalecimento dos veículos de mídia na plataforma. Indica principalmente a preocupação com o fortalecimento de notícias locais e com o desenvolvimento de novos formatos noticiosos, como o mobile e novos modelos de negócios.


Comunidade Civicamente Engajada

Ao tratar do engajamento cívico em nossa sociedade, Mark demonstra clara preocupação com o “recuo” percebido nas sociedades democráticas nestes últimos anos. Destaca como exemplo as baixas taxas de participação de eleitores nas eleições presidenciais norte americanas e a dificuldade encontrada na participação direta do cidadão com os processos políticos decisórios. Tendo em vista este cenário, Zuckerberg destaca dois tipos especiais de infraestruturas sociais estão no foco do Facebook:

O primeiro encoraja o engajamento em processos políticos existentes, como o voto, envolvimento em questões controversas e também com seus representantes políticos. O segundo refere-se a criação de um novo processo para que os cidadãos possam participar em processos coletivos de tomada de decisão.

Fomento na participação em eleições:

No decorrer do texto o CEO da empresa vai deixando claro que ela está particularmente preocupado com as baixas taxas de participação nas eleições, exemplificando com o caso dos EUA. Lá, talvez pelo fato do voto não ser obrigatório, foi registrado que somente 50% das pessoas elegíveis exerceram seu direito cívico de escolher seus representantes. Além de encorajar a participação em votações, Mark cita o apoio da ferramenta no registro dos eleitores antes das eleições, como outra iniciativa já implementada.

Cobrança ativa com os representantes eleitos:

Para mostrar as possibilidades de ampliação da atuação das pessoas no acompanhamento das ações de seus representantes eleitos, o autor cita o exemplo da Índia, em que o primeiro-ministro Modi solicitou aos seus ministros que compartilhem suas agendas e informações no Facebook, para que possam ouvir feedback diretamente dos cidadãos.

Aqui, Mark dá um exemplo sobre a grande capacidade de análise e predição dos dados compartilhados na ferramenta ao informar que foi verificado pela corporação que nas campanhas recentes pelo mundo, da Índia e Indonésia até Europa e EUA, o candidato com a maior e mais engajada comunidade no Facebook geralmente foi aquele que ganhou as eleições.

Assim, o Facebook vai nos dando pistas sobre como estão sendo acompanhados pela ferramenta o compartilhamento das informações relacionados aos processos eleitorais. Ação que ainda é fruto de muito questionamento em razão das últimas eleições norte-americanas, justamente pelo potencial de compartilhamento de boatos e notícias falsas e sua influência em grande quantidade de pessoas. Ao ter em seu domínio um dos principais campos de discussão “pública”, o Facebook tem também a posse destes dados, insumos importantíssimos para análise dos acontecimentos que permitem análises preditivas que são estratégicas em determinados momentos.


Comunidade Inclusiva

Aqui Zuckerberg destaca o complexo papel de regular o processo de compartilhamento de conteúdo na plataforma, analisando principalmente aquelas informações relacionadas ao sexo e violência explícita e aos discursos de ódio. Afirma ainda que o Facebook não é só uma tecnologia, mas uma comunidade de pessoas, e para mantê-lo como tal é preciso ter alguns padrões que definem o que se pode ou não ser permitido na plataforma.

Esta preocupação tem como pano de fundo o recente aumento no compartilhamento de conteúdos de ódio, fazendo com que o próprio CEO da empresa reconhecesse os erros de classificação de conteúdo realizados pela ferramenta até então. Estes erros de classificação foram responsáveis pela derrubada de vídeos de notícia relacionados ao movimento Black Lives Matter e os casos de violência policial nos EUA, por exemplo.

Para lidar com esta situação Mark aposta em desenvolver soluções que possibilitem processos coletivos de tomada de decisão em larga escala, aliados à Inteligência Artificial. A ideia é deixar que cada pessoa possa decidir que tipo de conteúdo quer ver, qual o nível de nudez que acha aceitável em seu feed de notícias, de violência, de profanação, entre outros conteúdos. Ao aumentar os mecanismos de controle de informação, dando ao indivíduo o poder de gerenciar este fluxo, o Facebook acredita conseguir lidar com o desafio das diferenças culturais, das legislações locais e de outros aspectos que interferem na forma como cada pessoa percebe um conteúdo.

E para aqueles que não configuram suas preferências, como isto irá funcionar? Para estes Mark responde que:

... o padrão será o que a maioria das pessoas em sua região escolheu, como um referendo. É claro que você será livre para atualizar suas preferências pessoais, a qualquer tempo(Zuckerberg).

Vale ressaltar o papel da Inteligência Artificial no processo de análise de dados de fotos, vídeos e textos, identificando e classificando os conteúdos de violência, sexo, e discurso de ódio. Assim vemos um movimento que busca um alto nível de controle sobre todo o conteúdo compartilhado na ferramenta, apostando na inteligência artificial e seu potencial de classificação destas informações que, por sua vez, possibilitarão às pessoas que selecionem que tipo de conteúdos querem ver, com base em opções sistematizadas pela própria ferramenta.


Estes são alguns pontos que destaco do texto publicado por Mark Zuckerberg, mas há muito mais a ser explorado. Estes pequenos apontamentos revelam muito sobre os caminhos futuros da ferramenta, e também sobre como será a gestão das informações na plataforma. Agora cabe a nós escolher se concorda ou não com os “padrões” e as políticas de uso da ferramenta, que estão em constante atualização.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.