Todo conhecimento do mundo na ponta dos dedos

Aprender demais também atrapalha

A ficha caiu logo depois que comprei o quinto livro sobre Big Data na Amazon e vi minha segurança sobre o assunto desmoronar quando fui chamado a responder uma questão mais ou menos simples sobre bases de dados relacionais. Notei que, na prática, meu nível de conhecimento era o que se chama educadamente de elementar. Mais básico ainda do que o conjunto de informações contidas na primeira das cinco obras que li sobre o tema: Big data for dummies — Big data para idiotas, na tradução que eu prefiro. Eu era menos do que um idiota na matéria, um pré-idiota. Ousei saltar para a tabuada do sete antes de dominar a do três. Isso já faz algum tempo e, por razões que não vem ao caso agora, eu tratei de aprender para valer, pelo menos o que eu precisava mesmo aprender. O bom mesmo é que minha passagem pelo mundo dos pré-idiotas teve seus altos e baixos, mas me valeu boas lições sobre a importância (e a desimportância) de aprender. Vou digitar bem de levinho para não fazer barulho porque a minha conclusão é que, em demasia, até aprender faz mal.

Aprender é uma dessas verdades absolutas, assim como respirar. Ninguém discute a importância, especialmente hoje com toda facilidade que existe para conseguir informação. Mas é aí que mora o perigo. Encher o pulmão de ar é necessário, só que inalar fumaça pode ser perigoso, assim como enfiar na cabeça qualquer conhecimento, de qualquer jeito, sabe lá Deus para qual finalidade. Aprender, aprender, aprender… antes do próximo livro, do próximo curso, já parou para pensar onde quer chegar com isso?

Todo mundo sabe que a pressão é grande. Quem já não se sentiu culpado passeando aleatoriamente pelo Facebook quando poderia estar fazendo alguma coisa útil — quem sabe um aplicativo para “aprender“ inglês, por exemplo? Há um mundo de coisas úteis para se aprender bem na ponta de nossos dedos. Um Google com a palavra “quântico” abre os portões para os segredos da física e da mecânica. Os maiores clássico da literatura, Shakespeare, Cervantes, Proust, todos podem ser obtidos de graça e cabem na memória do smartphone que você usa para curtir os amigos nas redes sociais.

No fundo, parece até que já não é moralmente aceitável dissipar energia com bobagens na internet quando a iluminação da sabedoria encontra-se apenas dois ou três clicks adiante.

Ikebana para relaxar

E temos os cursos, que também atendem pelos nomes de reciclagem, treinamento, seminário, congresso… Uma indústria para nos fazer aprender. Empresas adoram mandar funcionários para cursos: de oratória para convencer, ikebana para relaxar, media training para enfrentar jornalistas… O mundo corporativo acha que essas experiências são tão importantes que poucas empresas se dão ao trabalho de perguntar como as informações supostamente assimiladas serão usadas —ainda que seja para aprender a relaxar. Parece que, melhor do que praticar o que se aprendeu na semana passada é fazer logo o próximo meeting. Cursos ganharam status de prêmios e até dão direito a bônus e finais de semana prolongado. Eles foram para dentro das empresas na modalidade In Company e as empresas, por sua vez, montaram suas próprias universidades. Dinheiro para cursos, dizem, sempre tem! Quem ousaria dizer que aprender é ruim? Aprender, aprender, aprender…

Há produtos de todos os preços e estilos. Cinco dias em Las Vegas com o rei da auto-ajuda, Tony Robbins, saem por 40 mil reais, sem hospedagem nem passagens. MBA em uma escola de elite custa até 300 mil reais, por módulo. Mas não seja por isso. Quem disse que dinheiro é barreira para se aprender? Cursos inteiros das mais importantes universidade do mundo como Harvard, MIT e Princeton estão disponíveis online, em vídeos gratuitos, com direito a certificado assinado pelo professor. E na internet há professores de inglês, francês, alemão, espanhol e japonês online a qualquer hora do dia e da noite por algo em torno de 100 reais a hora. Aprender, aprender, aprender…

Subir na carreira sem fazer da prática de aprender um mantra? Esqueça. Sabe o que disse o CEO multimídia Richard Branson, da Virgin: “Os verdadeiros líderes nunca param de aprender”. Aliás, existe uma enciclopédia inteira de belas frases sobre aprender. Nas palavras do filósofo Will Durant, seria a constante descoberta de nossa ignorância”, “como o propósito de transformar espelhos em janelas”, complementa o jornalista Sydney J Harris. Lindo. Lindo, lindo esse negócio de aprender, aprender, aprender…

Definitivamente, como alguém ousa perde tempo no Facebook, ou em qualquer lugar do mundo, se pode contratar um professor de inglês nativo, por cem reais a hora? Se pode estar a-pren-den-do. É quase um desaforo! O fato é que os recursos são tão abundantes e acessíveis que ninguém mais escapa da obrigação de aprender alguma coisa, toda hora, todo dia. Vamos lá! Se não estiver aprendendo alguma coisa agora, passe para a frente, vá para o próximo artigo.

Mas aqui entram as lições que aprendi na minha fase de pré-idiota no mundo do Big Data. Frequentemente, o que chamamos de aprender é um confuso processo de acúmulo de badulaques em um depósito cheio e bagunçado. Jogamos as coisa lá dentro sem prestar muita atenção. Na melhor das hipóteses, quando precisamos das informações que aprendemos, lembramos que estão em algum lugar, mas não temos a menor ideia de onde pegá-las, ou de como usá-las e pior: o que fazer com elas. Muito do que eu havia aprendido sobre Big Data acabou em um desses quartos bagunçados. E assim eu precisei encarar um jogo da verdade com cinco livros sobre Big Data nas mãos.

A culpa é da raquete

Todo tenista de final de semana, pelo menos uma vez na vida, já acreditou que o segredo para melhorar no jogo é trocar a raquete, depois mudar de tênis, uma nova marca de meias, o saibro… Não é por outra razão que existem tantos métodos diferentes para ensinar inglês, os caras de pau dizem que até dormindo dá para aprender. Na ilusão de aprender vamos trocando de escola, de método, de professor, uma lista inteira de subterfúgios até admitir o que já sabemos: que não existe método misterioso para aprender os verbos irregulares. É sentar, estudar, aprender e só passar para a próxima etapa depois de saber direitinho onde achar o que já aprendeu. Lá no fundo, todo mundo sabe que a única coisa que faz mesmo a diferença é treinar, treinar e treinar. Até aprender.

Ler sem compromisso, pulando as palavras difíceis e deixando para depois a tarefa de compreender os conceitos mais tortuosos é mais gostoso do que ralar até aprender de verdade. Então, assim como muita gente que eu e você conhecemos, passamos pela vida aprendendo, aprendendo, aprendendo… aprendendo em demasia até. Coisas diferentes, idiomas, técnicas culinárias, tudo em depósitos bagunçados e rasos como uma gigantesca piscina de informações com cinco centímetros de profundidade.

Queria acabar assim, aprender é tão importante quanto respirar. Ar puro.