Como ser mais feliz com esmolas

Começa pela palavra esmola, carregada de sentido. É mais bonito dar uma ajuda do que esmola, mas dá na mesma. Esmola.
Eu conheço uma série de argumentos para encontrar paz de espírito quando eu nego ajuda a uma criança que pede dinheiro no semáforo. — Qualquer coisa, tio. Pode ser dez centavos. — Não. Não tenho.
Deus! Quinze segundos de máximo desconforto o desafiam a encontrar coerência entre seus valores morais, sua humanidade, o conforto do ar condicionado do carro e aquela criança pedindo qualquer coisa. Suja no meio da rua.
Depois de desfiar para mim mesmo, em silêncio, um rosário de justificativas, quase sempre consigo seguir em paz. Crianças precisam de cuidados e não de esmolas. As esmolas tiram das pessoas o desejo de trabalhar e conseguir as coisas com seu próprio suor. Muitos dos maltrapilhos que pedem dinheiro para comer vão mesmo é gastar o dinheiro em pinga, esmalte e cola para cheirar. Também repito para mim mesmo algumas palavras cínicas como "eu não sou casa de caridade" ou (a melhor de todas): "se eu fosse dar esmola para todo mundo que me pede acabaria quebrado!". Com um pouco de refinamento podemos até sair dessa história como os culpados, afinal já fizemos nossa parte pagando impostos escorchantes e essas pessoas que pedem deveriam ser assistidas pelo governo. E tem mais: lugar de criança é na escola!
É uma festival de mentiras. Quem não tem dez, ou vinte centavos? Quantas vezes você já negou dinheiro com a carteira cheia? E essa história de acabar quebrado, então? Um ou dois reais por dia não quebram ninguém. E se aquilo que te da paz é saber que ao negar 50 centavos está afastando o pobre diabo do crack e da cachaça, por medida de coerência deveria cortar aquela grana que o filhão adolescente recebe no sabadão para encher a cara na balada. Em um caso e outro o argumento é fraco e reducionista.
Amigão, quanto ao governo: esqueça. O governo precisa lidar com exigências bilionárias e carência ancestrais. Tem gente em macas no corredor, escolas caindo aos pedaços e miséria. É muito problema grande até que alguém possa olhar para um pedinte na calçada. Talvez fosse mais fácil se os cofres estivessem mais bem guardados dos saqueadores. Mas, e se fosse assim, ou se fosse assado, não resolve o problema dos maltrapilhos agora. Conhece criança fora de escola por querer? Se criança está na rua, só algum desarranjo dos grandes explica. Governo é que tem mania de anunciar o fim da miséria, o fim da fome e o fim de outros males como se bastasse pra isso a tal da vontade política para puxar a alavanca de todas as soluções.

Acho que uma esmola deveria ser apenas um alívio passageiro para alguém que precisa comprar um pedaço de pão, ou uma pedra de crack. Quem quer dizer não, diz não. Não é preciso se aborrecer com teorias socais e justificativas morais. É coisa simples, abre a carteira, tira um trocado e entrega. Sem precisar mentir que não tem o que tem. Sem julgar o desgraçado pelo uso que dará ao pouco que você tirou de si. Um lanche, coca-cola, cola, remédios? Que diferença faz?

Teu amigo ongueiro vai protestar, vai dizer que você faria um bem maior se ajudasse de verdade, trabalhando em uma instituição qualquer. O problema é que você não tem tempo, não tem vocação. Já entrou em um albergue? Já distribuiu sopão para mendigos, ou cortou suas unhas e cabelos? Algumas coisas exigem um desprendimento muito especial. Porém, sacar um Real da carteira exige pouco além de enfrentar o medo de ser assaltado.
Um Real resolve um problema minúsculo, mas pode ser a única coisa que você fará por alguém em uma cidade como São Paulo.
Um Real aqui e outro lá e talvez já se resolva um problema maior, um banho, uma escova de dentes e uma quentinha.

Tenho visto cada vez mais gente pedindo nas ruas. Encare a realidade. O governo não dá conta nem de cuidar do que está debaixo do seu nariz. Convivemos com milhões de pessoas que não tem nada, nada, nada.
Trabalhe, pague seus impostos, faça seu depósito mensal na conta da instituição de caridade que você escolheu apoiar. Faça tudo que é preciso fazer para encontrar um cidadão de bem quando se olhar no espelho. E dê esmolas, ou uma ajuda se preferir.
Opa, assaltos! Melhor não abrir o vidro.
Insulfilme, olha para frente, aumenta o volume
Eles desaparecem.