Só queria dizer que eu te compreendo, Anna!

A culpa é do Fidel

Às vezes a gente se pega pensando sobre um certo filme. Assim, de repente. E não é qualquer filme que consegue vir das profundezas da memória assim, do nada. Há sempre aqueles que vêm por conta de uma música que marcou, outros por causa de uma cena específica que ficou famosa, ou até por estarem conectados com algum período ou evento específico em nossas vidas, a ponto de marcar a lembrança da época. Só que existem alguns filmes que são um tanto mais curiosos por não se enquadrarem em nenhum desses casos. São filmes cujo retorno à nossa lembrança se dá pelo mérito próprio da obra, pelas reflexões que ela despertou (ou segue despertando) e não por alguma relação com algo que já fazia parte de nossa vida pessoal e acabamos associando com aquele filme em específico.
 
 O filme francês “A culpa é do Fidel” (2006) é um caso desses pra mim. Assisti pela primeira vez há quase uma década e revi uma ou duas vezes depois disso. Permanece em minha lembrança como uma daquelas obras que garantem sua permanência por mérito próprio. Considero uma valorosa peça de cinema, do tipo que te coloca a pensar, bastando que se lembre dele. Recomendo fortemente para quem ainda não assistiu e que tenha um mínimo de interesse pelos assuntos tratados nele. La faute à Fidel (no título original) acabou tornando-se uma obra pela qual desenvolvi um carinho especial. A forma com que a direção de Julie Gavras conseguiu a honestidade de expor (e às vezes até contrapor) através da visão de uma criança, de forma simples e sem lentes embaçadas, muitas das incoerências que se escondem por trás dos discursos proselitistas e paixões ideológicas dos adultos, qualquer que seja o lado do espectro político em que se encontrem.

Outro ponto forte do filme (e um belo acerto da direção) foi a perfeição com que se conseguiu estruturar a narrativa e o ambiente para que a pequena atriz Nina Kervel-Bey pudesse entregar uma atuação belíssima, difícil de ver em atores mirins. Nina interpreta uma Anna cativante, com uma consistência e naturalidade que carrega tranquilamente o filme nas costas, ao mesmo tempo criando empatia e dando credibilidade à história que vai sendo contada.

A Culpa é do Fidel explora de maneira competente a inocência permitida ao observar certos assuntos sérios do mundo dos adultos pela visão da pequena Anna. Isso torna o filme aquele tipo de obra onde é possível ver com honestidade o sentimento singelo e forte da criança descobrindo que o mundo não é só preto ou branco (ou no caso, azul ou vermelho). E a honestidade passada por esses sentimentos deixa ainda mais claro que essa tarefa (tão complexa) de escapar de um dualismo maniqueísta e imbecilizante é algo que tantos adultos sequer chegam a aprender. 
 
 É por fim, um belo filme: elegante, singelo e delicadamente provocador. Mostra um momento histórico e político em específico influenciando a vida das pessoas envolvidas nessa história, mas isso não é tudo. Mostra também o tipo de influência que esses momentos acabam tendo no nosso cotidiano, quando as mudanças da sociedade nos pegam, sem escolha, como um barquinho em meio a um maremoto, mas isso ainda não é tudo. Mostra, aí sim, de forma muito importante, como às vezes precisamos aprender muito cedo a navegar e nos orientar sozinhos no mar confuso que é a vida. E traz uma mensagem muito importante nas entrelinhas: a de que nem sempre os mapas que mesmo os adultos (tão cheios de razão) à nossa volta nos oferecem para navegar nesse mar revolto da vida, são tão corretos quanto se pensa. Eu te compreendo, Anna!

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