A Princesa

Um presente de aniversário para uma pequena.

Dedicatória da versão impressa

“As pessoas caem do céu, saltando de pássaros de metal!”. É assim que todos se referem àquela cidade tão distante. Ou, pelo menos, se referiam. Num lugar tão distante, tão calmo, tão bonito, o céu sempre tinha mais de um protagonista: além do Sol (e da Lua), das nuvens, dos pássaros, havia os homens. Todos se conheciam pelo nome, na cidade tão distante. As ruas não eram exatamente ruas — eram mais ou menos como a extensão da casa de cada um, e, assim sendo, a extensão da casa de todos. Eram como gigantescos quintais comunitários, em que todo o povo podia sentar, conversar, sorrir, por vezes discutir — o que sempre terminava não em tragédia, mas em piada. Os livros eram escritos pelos mais velhos, os Sábios, e neles toda a história era contada. Aos mais Jovens, cabia o papel de aprender tudo e, então, tudo ensinar. Nenhum conhecimento deveria ser escondido e nenhuma opinião deveria ser guardada: se existia algo que alguém gostaria de dizer, então existiria alguém que gostaria de escutar. Para conhecer os Alados, era só olhar para cima. Eles sempre estavam lá, descendo, descendo, descendo, como aves, só que homens. Como máquinas, só que com coração. E que coração! Os pequenos — Puros — eram protegidos pelos Sábios, pois a lenda dizia num dos antigos livros que a pureza era a curadora da cidade tão distante. E, num descuido, essa história começou.

O ambiente era de alegria — era isso que a cidade tão distante tinha: alegria. Mas o que os Sábios não sabiam e o que os livros não diziam era que da mesma forma que do lodo nasce uma flor, da alegria nasce a tristeza. Um dos Jovens — certamente um dos mais promissores — não conseguia ensinar o que lhe era passado. Não conseguia dizer o que sentia. Pensava que se dividisse seu conhecimento, perderia sua capacidade. Mal sabia o Jovem que dividir conhecimento é somar aprendizado! Passava seus dias lendo os livros, consultando os Sábios, mas quando perguntado, dizia que não tinha nada para compartilhar. E a cada dia aquele Jovem sabia mais, e mais, e mais. Sentia-se forte, já que o que ele sabia, poucos conheciam. Queria cada vez mais força. Começou a convencer alguns dos Puros a se juntarem a ele: prometeu toda a sabedoria que os Sábios supostamente escondiam, e junto com a sabedoria viria o direito de dominar a cidade tão distante. O direito de dominar os pássaros de metal e os Alados, que até então foram intocáveis.

Por dia, menos Jovens liam os livros. Os Jovens eram os Puros que cresciam, e como aumentava o número de seguidores do Jovem rebelde, a história sagrada da cidade tão distante ficou ameaçada. Depois de dizer que tinha certeza de que os Sábios manipulavam o povo, o Jovem rebelde conclamou que seus seguidores destruíssem os livros e aprisionassem os Sábios. Ordenou que os Alados tivessem suas asas cortadas e os pássaros de metal fossem colocados em gaiolas. Que tudo isso fosse feito ao nascer do Sol. Mas, num ato de surpresa, naquela data, a luz do dia não apareceu. A noite fez-se eterna. A noite não acabou. O Sol? Recusou-se a nascer.

Toda a população ficou em pânico. Tudo era escuridão. Eles tentavam entender o que acontecera, mas os livros estavam sob o poder dos seguidores do Jovem e só os Sábios teriam a resposta. E então o mais velho dos Sábios apareceu, segurando uma lanterna de óleo que fazia sombras nos sulcos de seu velho rosto; velho, gentil e sábio rosto de nariz engraçado. O Sábio caminhava vagarosamente, mas ereto; pensativamente, mas firme. Quando chegou ao centro da praça, parou e o povo automaticamente formou um círculo ao seu redor. O som do vento podia ser ouvido tamanho o silêncio que se fazia. Como se o silêncio, em si, berrasse a voz da natureza. E o silêncio foi rompido pelo grito enfurecido dele, do Jovem, que bradava:

- Foram eles! Os Sábios! Vocês não veem? Fizeram isso para amedrontar vocês e mantê-los sob o manto da ignorância! Levantem-se contra esses impostores!

O Sábio não se alterou e quando um dos populares ameaçou avançar contra o Jovem, segurou seu ombro com as mãos, demonstrando uma força extrema que não fazia jus a sua aparência de velho, velho e gentil. Pediu ao homem que não agisse com violência, e que ouvisse atentamente.

- Jovem, ouço tuas palavras. Tu és jovem e és sábio, talvez tão sábio quanto eu, que assim me intitulo. Tu leste os livros e tu escrevestes novas leis. Recrutaste teu Exército e formaste tuas ideias. Admiro-te, Jovem. Mas tu que tens olhos, não vês. Tens ouvidos, mas não escutas. Tens mãos, mas não sente. Estás cego pelo poder que deseja obter. E este poder nós nunca tivemos, meu caro Jovem. Nós somos guardiões do saber, não os donos. Nós somos o caminho, não o destino. Não desejo manter ninguém sob meu poder, usando como algema as minhas palavras. Nós, Jovem, celebramos a liberdade. E nossa liberdade não prende. Liberta. A escuridão não foi causada por nós. Jamais poderia ser. Não controlamos o Universo, nós o contemplamos. Respeitamos a natureza que sempre foi e será maior que nós. O dia não nasceu, Jovem, pois falhamos. Nós, Sábios, falhamos. E não você. Pois é nossa obrigação olhar pelos Puros, e desviamos nosso olhar. Quando desviamos nosso olhar, deixamos que a pureza fosse maculada e que nossa fonte de vida fosse comprometida. O Sol, Jovem, não nasceu porque não existe mais. A luz é a pureza. E a pureza foi capturada quando tu a manipulaste para teus planos. Vê, Jovem, o que tua ganância fez. Negou a palavra a quem queria falar, negou o ensinamento a quem queria aprender. Tudo isso em nome da tua verdade. Da tua, eu digo, pois a tua verdade é a que te convém. Deixou que tua inteligência borrasse tua visão. E agora nada mais enxerga, já que vivemos no escuro. Mas não te amedrontes, Jovem! A luz há de voltar. Aqui, nesta praça, uma criança está se formando. Formando-se de amor, de esperança, de felicidade. Esta criança trará de volta nossa pureza. A esta criança, chamaremos de Princesa. A esta criança dispensaremos todo o nosso cuidado e não permitiremos que a maldade macule seu coração. Esta criança nos guiará e nos governará através dos desafios. Esta criança, Jovem, que ainda está no útero, é a nossa redenção. Esta criança é a nossa luz. Mas até que ela nasça, deveremos viver no escuro. Deveremos viver no escuro para lembrarmos que escuro é o nosso interior quando deixamos a pureza se perder.

Quando o Sábio fechou os olhos ao terminar sua fala, uma jovem e bela mulher sentiu uma pontada na barriga e curvou-se no meio da multidão. Seu marido a amparou e, quando olhou em volta, percebeu que o Sábio os encarava. Percebeu que o Jovem rebelde corria até desaparecer no breu — o eterno breu. E o velho Sábio sorria. Um velho, sábio e gentil sorriso.


O Homem Alto era um Protetor. Não era o mais forte, nem o mais belo, nem o mais inteligente. Mas era um Protetor. Os protetores tinham a obrigação de proteger as pessoas uma das outras, e o Homem Alto odiava sua função. Odiava porque se sentia horrivelmente ferido ao perceber que as pessoas não conseguiam deixar de se agredirem, de se ofenderem, de se maltratarem. Seu trabalho era vital e ele sabia disso, o que não diminua nem um pouco a tristeza que sentia ao usar a força para evitar que dois seres humanos vindos da mesma poeira galáctica, da mesma centelha divina se destruíssem. Os Protetores trabalham em todo o mundo, e o Homem Alto estava alocado numa terra ao sul do globo. Ele ouvira histórias — como todo Protetor há de ouvir — sobre uma cidade tão distante em que homens como ele não eram necessários, porque lá a maldade não encontrava nenhum coração para se alojar. Claro que aquilo era uma lenda urbana. O Homem Alto tinha exemplos todos os dias de que lugar nenhum no mundo poderia viver em paz enquanto o homem fosse, bem, um homem.

Depois de separar dois irmãos briguentos, ele descansava encostado no muro da Associação de Protetores. Um garoto com cabelo amarelo no rosto parou na sua frente e disse

- Oi, Protetor. Você é o Homem Alto? Sim? Enviaram uma carta para você.

- Para mim? Quem, e de onde? — perguntou Homem Alto, curioso.

- Não sei. Eu sou só o mensageiro.

Assim, o garoto se virou e foi embora, deixando nas mãos gigantes de Homem Alto um envelope com um timbre estranho. Ao aproximar o papel dos olhos para ler melhor, viu as letras em relevo:

“Cidade tão distante”

É uma brincadeira, foi o que ele pensou. Algum amigo da Associação que sabia o quanto Homem Alto sonhava com um mundo sem a necessidade dos Protetores. Mas não custava nada abrir e ler, não é mesmo? E abriu. Retirou o papel que parecia mais fino que o de costume e o desdobrou para ver a mensagem:

“Homem Alto,

Preciso pedir antes de qualquer coisa que confie em mim. Sei que isso é difícil quando se começa uma carta sem explicar nada, principalmente vindo de um lugar desconhecido que aparentemente só existe no mundo dos sonhos. No mundo dos seus sonhos. Mas não é só no mundo dos sonhos, Homem Alto. Esse lugar, ele existe. Nós somos cidadãos da cidade tão distante, Homem Alto. As histórias que você ouviu são reais. Nós existimos. Mas precisamos de você para continuar existindo.

Nosso povo está ameaçado. Nosso Sol se apagou e hoje tudo é escuridão. Perdemos nossa fonte de vida, pois demos lugar às impurezas da alma. E só quando recuperarmos nossa fonte estaremos seguros novamente.

Sei que você deve estar se perguntando que tipo de brincadeira é esta, mas, acredite, Homem Alto, não há brincadeira alguma. Nós sabemos que você nunca conheceu sua mãe e foi criado pelos Protetores, a quem tudo deve. Hoje, é um deles. Os Protetores, Homem Alto, existem graças a nós. Não somos capazes ainda de estender nossa forma de vida por todo o mundo, então enviamos vocês para que garantam a mínima estabilidade entre os seres humanos. Sua mãe, Homem Alto, é uma de nós. Sua mãe é uma Sábia. Uma das mais importantes. Além de você, ela teve uma filha. Sua irmã. Antes de você nascer, sua mãe deu à luz uma menina que até agora não sabia sua origem. Sua mãe pediu para que mantivéssemos suas origens em segredo para que o fardo — o fardo de serem descendentes de uma das protetoras dos Puros — não pesasse sobre vocês. Mas agora nós precisamos de você. Sua mãe precisa de você. Sua irmã precisa de você. E, mais que tudo: sua sobrinha, A Princesa, precisa de você, Homem Alto.

Os Sábios te nomearam conselheiro da criança que trará de volta nossa luz. Você, ao lado de sua irmã, guiarão essa criança. Você é o responsável por deixar registrado tudo que A Princesa deve saber para manter seu coração puro, antes mesmo de nascer.

Homem Alto, confie em mim. Confie em nós. O que você sente em relação aos homens — a tristeza ao ver que os homens são incapazes de não se ferirem — é fruto da sua condição. Você é um membro da cidade tão distante. E no seu íntimo, sabe que isso é verdade.

Você conhece o caminho para casa, Homem Alto. Siga seu coração. E nós o aguardaremos aqui. Traga o guia de sua sobrinha. Traga de volta nossa luz.

Cordialmente,

Sábio da Cidade tão distante.”

As mãos gigantes tremiam. Homem Alto sentia a garganta dar um nó. A cabeça girava. O peito parecia pequeno. Mas em sua alma, existia calmaria. Não sabia como explicar, mas o Homem Alto tinha certeza de que tudo aquilo era verdade. Seu coração, acelerado, contente, já lhe indicava o caminho.


A jovem e bela mulher sentia dores ocasionais, mas tudo estava sob controle. Seu marido a ajudava em todas as tarefas necessárias e mantinha as lâmpadas acesas sempre que preciso. Eles sentiram medo, a princípio. Mas agora o medo deu lugar à alegria: eles teriam uma filha. Já sabiam que seria uma filha, pois os Sábios garantiram que dali viria A Princesa.

Durante mais uma noite em tempos de noite eterna, ouviram as batidas na porta. O marido foi atender e, depois de ouvir conversas abafadas, a mulher viu a mais respeitada Sábia entrar em sua casa. Quando olhou de perto, sentiu-se aterrorizada: parecia estar encarando o próprio rosto mais velho. A Sábia notou seu espanto e adiantou-se, tomando sua mão e acariciando sua barriga.

- Não há nada a temer, minha filha. Sou eu, tua mãe. Passaste quase toda tua vida se fazendo esta pergunta, e aqui reside a resposta. Sou eu. Não pude revelar antes para que tu fosses capaz de encontrar teu próprio caminho sem a minha sina a te assombrar. Mas hoje, revelo-te: sou tua mãe. E tenho te acompanhado todos os dias, com angústia por não ser parte da tua vida. Agora, carrega no ventre o futuro do nosso povo. Não posso encontrar palavras para pedir que tu me perdoes, mas peço mesmo assim. A partir de agora tua vida irá mudar. Vem de ti a esperança. De longe, vem teu irmão. Sim, tu tens um irmão. Ele está vindo ao teu encontro, e será o conselheiro da tua filha na tua ausência. Será o teu amor quando assim precisares. Ele vem para ti, por ti, e por ela, pela pequena Princesa.

A jovem mulher não foi capaz de falar pelos minutos que se seguiram. Era inacreditável que agora ela tivesse uma mãe e, além disso, que ela própria seria, também, uma mãe. A mãe de alguém. A mãe de uma Princesa. Era inacreditável. E, inacreditavelmente, era completamente natural, como se a jovem mulher e a Sábia tivessem vivido toda a vida uma ao lado da outra.

As duas — a mãe e a futura mãe — se abraçaram e, por um momento, alguém poderia jurar ter visto uma pequena faísca de luz no céu. Uma pequena faísca de futuro.


Homem Alto seguiu um caminho que conhecia dentro de seu coração, mas não de sua cabeça. Suas pernas andavam e seu corpo se movia, mas ele não poderia expressar em palavras para onde estava indo. Depois de 280 dias e 280 noites de viagem, parando em tantos lugares do mundo, dormindo na casa de desconhecidos de bom coração, comendo do pão e tomando da água de seus iguais, sabia que havia chegado à linha final. Sabia, porque sentiu, pela primeira vez em sua vida, como se estivesse em casa.

Um velho Sábio o aguardava, e o guiou até a casa de sua irmã. Ao abrir a porta, encontrou uma bela mulher de sorriso doce e um homem de olhar bondoso, ao lado de uma Sábia de rosto inteligente e forte que parecia estampar a sabedoria de todo um mundo. Eles nunca haviam se visto — a mulher conheceu a mãe havia um dia — e, no entanto, um piscar de olhos não poderia ser mais natural. Eles estavam ali, naquela casa, e era àquele lugar que eles pertenciam. Tudo que viveram até aquele momento pareciam somente o prefácio. Aquilo era real. Aquela família. Homem Alto, a Sábia e a jovem e bela mulher. E A Princesa.

A Sábia se levantou, beijou o rosto do filho como se assim o fizesse todos os dias e disse no mais doce tom que ele jamais ouvira:

- Meu amado filho. Protetor da vida humana. Aquele que se dedica a ver e tratar de tudo que é ruim, para que o bom possa existir. Vieste ao nosso encontro. Encontraste teu caminho. Nove meses se passaram desde que recebeste a carta do Sábio. E no dia exato, chegaste a esta casa. Diga-me, meu filho, trouxeste contigo o guia de tua sobrinha?

Homem Alto ainda segurava as mãos da mãe, tão macias quanto a seda mais nobre, tão fortes quanto o metal mais precioso, respondeu

- Mãe. Há 20 anos me pergunto quem é você e agora sinto como se a resposta estivesse comigo todo esse tempo. Assim como você, em meu coração. Meu coração que se fechou para a verdade e, agora, enfim aberto, eu posso ver tudo claramente. Eu cheguei, por você, pela minha irmã, pela minha sobrinha. Eu cheguei pelo meu amor a vocês. Eu cheguei pelo meu amor por ela, que ainda está no ventre. E trouxe comigo o guia que não escrevi com minhas mãos, mas sim com minha alma. Aqui está.

Então desenrolou o papel e o leu com sua alta voz calma:


“Para a Princesa,

De seu humilde tio que a ama tanto quanto a vida.

Querida sobrinha, a quem os outros chamam de Princesa, mas de quem eu sempre serei tio e a quem sempre chamarei de pequena, você tem uma obrigação enorme nas mãos. A obrigação de ser pura. De ser alegria, nos dias tristes. De ser luz, na escuridão. Você tem a obrigação de ser vida. E eu sou apenas um homem que talvez nada saiba, mas que tudo o que sabe viverá para te ensinar. Sou eu o homem que, ao lado de tua mãe e de teu pai, te erguerá nas quedas e apoiará nas conquistas. Acredite, então, amada sobrinha e Princesa, no que eu te direi, pois será difícil teu ofício:

A vida sempre será um desafio. É assim que as coisas são e é assim que sempre serão. Até aqui, na Cidade tão distante, vive-se um momento de medo, porque a maldade conseguiu falar. E é tua obrigação calar toda a maldade que existir. É tua obrigação ser boa para que o mal se envergonhe e, constrangido, vá embora para longe.

Você pode ter tudo o que quiser, e conseguirá se lutar por isso. Mas se lembre, amada sobrinha: se para ter o que você quer, alguém precisar sofrer, alguém precisar se sentir triste, alguém precisar pagar o preço, então não valerá a pena. Confie em mim. Não valerá a pena se a sua conquista for à custa da perda de outros.

Tudo o que você fizer deve ser para que alguém sorria. Sempre. Você deve sempre buscar a felicidade em tudo; a sua e a de quem está ao seu redor. Faça de sua vida um instrumento de alegria para quem você ama e para quem te ama. É disso que a vida se trata. Não mais — e isso é muito, minha pequena.

Você nunca poderá se calar diante da injustiça. Todos os dias você irá testemunhar tristezas e erros de julgamento. Julgamento. O que você jamais deverá fazer. Você se sentirá tentada a tapar os olhos, pois esse é o caminho mais fácil. Mas você não tapará. Você não deixará que nenhuma injustiça saia impune e lutará por todos. Por todos, pequena! Lutará pelos que são mais fracos e não podem lutar. E lutará pelos que são mais fortes, e mesmo tão fortes, desesperadamente precisam da sua ajuda, pois são frágeis em seus corações.

As dores dos outros serão suas dores. Você irá chorar e irá sofrer quando alguém chorar e sofrer. Irá porque você é humana. Porque você tem um coração e no seu coração vive toda a humanidade. Você sofrerá por todos e sorrirá por todos. E por isso você será grande. Será grande, minha pequena.

O mundo te fará duvidar. Com certeza, em algum dia você irá duvidar se tudo isso vale a pena. Se a alegria dos outros vale a pena. Se lutar vale a pena em meio a tanta dor. E você descobrirá a resposta: vale. Sempre vale a pena. Você irá olhar para seus semelhantes e verá neles o motivo para seguir em frente.

Passamos, amada sobrinha, toda nossa existência buscando um sentido para a vida. Buscamos tanto que assim somos incapazes de encontrar a resposta. Porque a resposta está tão próxima que nossos olhos desavisados deixam de prestar atenção. O sentido da vida, Princesa, está na própria vida. Viver é o sentido. Viver é um presente. As pessoas, o amor, o carinho, a felicidade, as lágrimas, a alegria, tudo que forma a vida é o sentido. Nós vivemos para que a vida continue a existir. Essa é a nossa obrigação. Garantir que a vida encontre seu caminho. Garantir que cada vida seja especial a sua maneira e que nenhuma seja desperdiçada. Assim somos responsáveis por todas as vidas, não só pelas nossas. Somos responsáveis por todos que nos cercam, somos responsáveis por todos que nos amam, somos responsáveis por todos que amamos. Nós somos a vida, Princesa. Nós somos o sentido.

Então, seja amor, seja esperança, seja alegria. Seja tudo, Princesa. Seja a vida.

E se assim você for, não posso te desejar mais nada, pois você será tudo que existe.”


Quando Homem Alto enrolou novamente a folha, a jovem e bela mulher sentiu o corpo estremecer na cama. Era a hora. Mas não foi dor que tomou conta de seus músculos, foi paz. Com as mãos do seu marido em seu ombro, e segurando com as suas as mãos do irmão, tudo se passou muito rápido. A Sábia disse que a Princesa estava vindo e, instantes depois, contemplaram a criança no colo da avó. A criança abriu os olhos, mas não chorou. Naquele instante, a Princesa via o mundo pela primeira vez. E naquele instante, o Sol voltou ao céu, iluminado e tranquilo, céu que novamente recebeu a visita dos Alados. Pois foi naquele momento em que a Princesa Alice sorriu. E o seu sorriso era a própria luz.


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