Woo!

Anna ama música. Fazendo cocô durante a hora do almoço, ela se lembra do defunto rádio da casa de seus pais e de como a alegria calhorda de Luiz Caldas não fazia o menor sentido para seu cérebro de três anos, mas ainda assim ela entendera tudo e rira. Rira sentada no penico, fazendo cocô e achando graça do ritmo, da combinação de sons que a cumprimentavam sem vergonha.
Hoje, precisamente neste banheiro de escritório, ela seleciona artistas aleatórios em seu iPod enquanto comprime os músculos do abdomem e do cu — primeiro Clube da Esquina, depois Death in June, Yilma Hailu e Brian Eno — aaah, saiu. ‘Não posso comer tanta mozzarella’, pensou.
Seu celular toca, mas ela não ouve. As calças ainda nos tornozelos a impedem que ela sinta a vibração do aparelho. Cai na caixa postal. Sua irmã Fiona liga de novo. Seu corpo dói de tanto ficar sentada. Ela torce o tronco para se alongar e o fone cai de seu ouvido esquerdo. Ela escuta o celular e o atende.
- Fala.
- Anna, porra! Quem era mesmo que tinha ficado de me ligar pra “dar uma notícia braba”?
- Cara…
- Fala, tô ouvindo.
- Eu saí com o Jansen e a gente foi beber no bar atrás da Casa Ferro e era noite da ‘Arrasa!’ então a gente acabou indo pra pista dançar. Só tocava Rihanna e umas outras bateções de cabelo.
- Você levou o Jansen pra bater cabelo?
- A gente tava se amarrando e ficamos “voguing” na pista.
- Voguing?
- Quando começou o Chris Brown ele me encoxou e a gente já foi pro banheiro.
- Depois do voguin-
- Cala a boca. A gente achou uma cabine que trancava por dentro, porque todas as outras portas, inclusive a do banheiro, abriam sozinhas de tão vagabundas. Dava pra ouvir Ciara tocando lá embaixo. Depois tocou uns lances mais pesadões, parecia que o DJ tava trilhando a minha transa.
- O Jansen tem tanta cara de criança que de repente o DJ tava ajudando a ritmar o garoto.
- Tava rolando. O problema foi que começou a tocar ‘I believe I can fly’.
- ‘I believe I can touch the sky’?, cantou Fiona.
- ‘I think about it every nigh-’ essa mesmo. Então, não consegui gozar.
- R. Kelly é foda. E ele?
- Gozou soltando um gritinho sincronizado com o vocal do Kelly. Eu ri um pouquinho.
- Deixa de ser mentirosa. Eu teria chorado de raiva.
- Cara, eu olhei pra ele no contraluz, com o rosto virado pro teto, as costas em arco pra trás soltando um ‘woo!’ e só conseguia ver o R. Kelly.
- Então rir…, disse Fiona.
- …foi inevitável, respondeu Anna.

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