ANTES DO DESPERTADOR TOCAR

Acorda sem motivo aparente, o coração levemente acelerado. Abre os olhos com esforço, e cada milímetro de distância que uma pálpebra fica da outra é convertido em ardor. Está virado para o lado oposto da janela e o sol não ilumina a parede. Pode ser o meio da madrugada, o que seria ótimo, ou pode ser um dia cinzento que parou na cortina black-out, o que seria péssimo. Mas é o mais provável, mesmo que não queria acreditar: que o som da chuva lá fora, que é ótimo para dormir mas péssimo para suas pretensões, porque deixa o dia cinza e talvez já seja de manhã. Não consegue se virar. Consegue, literalmente, mas não quer se virar. Não encontra a força necessária e parece esquecer como fazer para movimentar o corpo, a mente não tem controle do resto. Apenas pisca, tentando afastar a ardência dos olhos. O ombro esquerdo, que está embaixo do corpo, formiga desconfortavelmente, e o formigamento logo desce para o braço todo. Precisa mudar de posição, mas não quer. Isso vai passar. Não sabe que horas são, mas também não tem certeza se deseja saber. Tirou o relógio antes de deitar, e agora ele está lá em cima da mesa, dono do tempo, marcando as horas desconhecidas, seu ponteiro se movendo sem parar. O celular está ao lado, mas ele não quer se virar. Pode, mas não quer. Ele não quer saber. E também torce, inutilmente, para que sua ignorância se reverta em mais tempo antes do despertador tocar, como um acordo silencioso. Acha que dará certo. Fica satisfeito. Fecha os olhos. Aos poucos, adormece. Sem perceber, vira-se para sair de cima do braço dormente e dolorido.

Então, quase instantaneamente, o despertador toca.

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