AVE SANGRIA


A tosse antiga, molhada e cheia de desprendimentos de catarro deu lugar a uma nova expulsão, mais rasgada e aguda, que faz vibrar as paredes do quarto de Genie. Este ruído irritante que seu esôfago e garganta produzem, como o de uma gralha plugada num pedal de distorção, lembra a moça do pássaro infernal que sua mãe tivera o desprazer de hospedar há uns anos atrás. Era uma merda de um bicho enorme, cruza de graúna com a besta-fera, cego do olho esquerdo e com um bico superior no formato da lâmina de um machado. Chegou escondido depois de um dia de chuva forte, estraçalhou dezenas de cheques esquecidos sobre um móvel e dormiu na cesta de frutas, entre as coroas pontiagudas dos abacaxis como se o incômodo o acalmasse. No dia seguinte, ganhou uma caixa de papelão grande e depois uma gaiola ainda maior, para onde se mudou como quem diz — finalmente um lugar só meu.

De dia o cretino não grasnava, mas se a mãe aparecesse na área pra respirar o ar enfumaçado de maconha do vizinho de baixo, o pássaro, raspando o chão do cárcere, imitava o motor de alguma maquinaria pesada que o tal vizinho fumante não seria capaz de operar naquele momento. Vez ou outra sua jaula vibrava tanto que caía no chão abrindo a portinhola. Talão, como era chamado, estava solto, mas não voava em liberdade. Não que não soubesse ou não pudesse — simplesmente não queria.

Com algum tempo de casa, e quando se via livre nessas circunstâncias, se comportava como um míssil teleguiado correndo em disparada atrás de dedos mínimos. A mãe achava que ele, por enxergar com um só olho, confundia qualquer coisa roliça e rasteira por uma minhoca. Puro embuste — aquela graúna escrota não só enxergava uma calopsita no cio a duas quadras de distância, como petiscava tuas extremidades, a começar pelo dedo mínimo. Na jovem Genie de sete anos todos dedos dos pés pareciam mindinhos e então roubaram-lhe um.

Era tão desagradável o desassossego que a ave gerara na casa que o renomearam para Escape. Poderia ter recebido a alcunha de ‘vá à merda’ ou ‘frango à passarinho’, mas a mãe tentava justamente inspirar a brisa amena lá do 302 para não reagir tão violentamente às coisas. O novo apelido era uma súplica — fuja daqui, retorna pra dimensão torta de onde você saiu.

Três anos depois de chegar, Talão decidiu atender ao apelido e foi embora como veio, sem ninguém o ver. Em sua estada, o desdentado fizera barulho suficiente, mutilara o pé da moça que hoje nem sonha com sapatos peep-toe, e nos ecos das paredes que continuam vibrando com as tosses ásperas de Genie, o monstro mandou um recado:

– Talão fora a primeira coisa que comi na tua casa, vinte páginas azul-celeste que vocês poderiam muito bem ter preenchido com uns três dígitos para que qualquer alma me levasse embora já no primeiro dia.