CHOVE EM SÃO PAULO

12–1–17, e chove lá fora.

‘chuva na cidade grande’, G. S. C. 2017

Aqui dentro está quente e abafado e o ventilador está ligado no máximo, indo de um lado para o outro, bufando um vento desagradável e necessário, jogando papéis da mesa para o chão. Mas pela janela é possível o ouvir o leve e constante barulho das gotas acertando o vidro. Chove lá fora. Por essa janela entra uma leva e úmida brisa, e ela traz um cheiro diferente. Não é o cheiro de todo dia de churrasco e de fumaça e de sujeira. É o cheiro da chuva. Da sujeira úmida. Do solo úmido. Do fogo apagado. De chuva. E chove em São Paulo.

Dessa janela no décimo primeiro andar é possível ver uma rua praticamente vazia. É uma rua do centro de São Paulo e ela está cheia de luzes, de iluminação, de lâmpadas. A fachada do prédio da esquina tem um letreiro neon em vermelho, é um hotel. Próximo daqui está o Shopping com suas luzes. Próximo daqui está a Prefeitura com a sua bela conservação. Próximos daqui estão pequenas barracas com suas lanternas e suas velas para espantar os ratos. Enquanto isso, chove em São Paulo. E nessa rua do centro de São Paulo a chuva molha o chão e o asfalto molhado fica escuro. A água acumulada nas calçadas e nas ruas reflete as luzes dos prédios, e há uma constante sensação de movimento, dos pingos que tocam as poças, da luz trêmula, da falta de movimento tão improvável nas ruas dessa enorme cidade. Porque chove em São Paulo.

As vozes lá de baixo já não são tão altas. São poucas, duas ou três. Os taxistas comentam que a chuva diminuirá o movimento.

— Acho que logo vou embora.

— Mas não são nem onze ainda.

— Mas está chovendo. Melhor eu ir embora.

Conversam entre si, falando sobre a chuva, que não diz nada. E vai caindo. E molhando o asfalto. E tamborilando na janela. E calando as vozes. Nas calçadas, poucas pessoas passam. Seus moradores se refugiaram atrás de abrigos improvisados. Seus transeuntes sem guarda-chuva andam apressados, porque não é uma chuva muito forte, mas é uma chuva, e eles aceleram a passada, amaldiçoando a própria estupidez. Transeunte não é palavra. O povo se amaldiçoava.

— Logo hoje eu esqueci meu guarda-chuva, mas que porra!

Quando se diz que está sem guarda-chuva, admirando a chuva lá fora, logo se ouve:

— Mas aqui em São Paulo não dá para andar sem guarda-chuva, não!

Chove em São Paulo, por isso não dá. Chove, como de maneira constante. Não chove hoje, não chove agora. Chove em São Paulo. Na constância. Na Consolação. Na Paulista. Na Rangel Pestana. No Gasômetro. Na Faria Lima. No Grajaú. Em São Paulo. À tarde, um sol insuportável. Então, com o ventilador ligado, a chuva começa a cair e cantar lá fora. Quem disse que nunca se pode andar sem um guarda-chuva na mochila, bate a mão na testa, num gesto de “eu sou mesmo um imbecil!”, e diz, meio que rindo da própria burrice:

— Logo hoje eu esqueci meu guarda-chuva, mas que porra!

Quem lembrou, anda mais tranquilo. Mais tranquilo que no sol. Que sem chuva. Chove em São Paulo e a chuva acalma São Paulo. Como um carinho gostoso entre os cabelos, que desce pelo pescoço e vira uma massagem nas costas. Relaxa. Dá vontade de fechar os olhos e aproveitar. Paulistano conhece a chuva. Vive na chuva. Caminha tranquilo.

Caminha tranquilo aqui. Mas para lá, para os lados, a chuva enche. Inunda. Leva tudo. Não se anda nem se corre, não se enfrenta a chuva para lá. Teme-se. Aqui, é tranquila. Delicada. Vai caindo, molhando o chão e fazendo as luzes parecerem mais bonitas do que são.

Os táxis continuam vazios, agora só tem três carros, o que disse que ia embora realmente foi, e no fim foi bom, porque chegou em casa e a esposa estava deitada no sofá e eles colocaram um filme e pararam no meio do filme e fizeram algo que há muito não faziam, com o som da chuva lá fora, e dormiram tranquilos, e mesmo que ela tenha perdido hora no dia seguinte, tudo bem, porque de manhã já não chovia, e ela pode ir contente trabalhar. Com o guarda-chuva na bolsa, porque em São Paulo, já sabe.

A porta de ferro do bar desce. Fechado. Saem os funcionários. Um com guarda-chuva, dois sem. Vão juntos, espremidos, caminhando na chuva. O metrô é logo ali.

O céu está completamente preto, uma escuridão total, e é uma escuridão bonita. Chove em São Paulo e a água que vem da escuridão traz uma certa paz. Com a escuridão, as luzes de São Paulo se destacam, e elas são tantas. As luzes dos apartamentos, a janela dos quartos, das salas, das cozinhas, dos escritórios. Do hotel. Do bar.

— Adoro dormir com chuva — diz a vizinha da frente para sua colega de apartamento.

— Eu também, muito bom, né? Pena que tenho que acordar cedo, ficaria na cama até dizer chega.

Deita-se meio chateada, mas o barulho da chuva lá fora logo acalma e ela logo está adormecida. É um sono bom. Sonho de chuva. E chove em São Paulo.

Chove em São Paulo e a rua está molhada e cada vez mais vazia e cada vez é mais tarde. A barraca está molhando e o morador precisa dar um jeito nisso, então usa lona e papelão e o que tiver. Seu cachorro brinca na água e ele dá risada, enquanto toma um trago.

Dentro do apartamento já não está tão abafado, e a janela está bem aberta. Chove em São Paulo. E por alguns instantes, tudo que se ouve é isso: a água que vem lá de cima e explode no chão. Sem carros, sem vozes, sem gritos, sem latidos.

Chove em São Paulo.

— Mas logo é hora de acordar, minha querida.

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