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Preencher palavras cruzadas era o que Ângela fazia de melhor na vida. Quando pequena, esperava saltitante a chegada do domingo. Era o único dia da semana que seu pai comprava o jornal. Ele dava uma rápida olhada na capa, resmungava quando folheava a editoria de política, lia com atenção as notícias sangrentas de polícia e reclamava das matérias de esporte. Para ele, todos os repórteres torciam para o Bahia e tinham má vontade com o seu Vitória.

Ângela tomava o café ansiosa e se deliciando com a cena. Era a última a deixar a mesa, mas não por comer demais. Fingia beber o café com leite e acabava brincando com o leite em pó que formava uma crosta no fundo da xícara até que o pai deixasse o jornal de lado. Ela tirava a manteiga da faca e, ali mesmo, recortava as palavras cruzadas antes de correr para o quarto.

Desde esta época, ela manteve a mania de colar na parede os passatempos incompletos. Olhava fixamente para as dicas e se recusava a recorrer às respostas escritas, de cabeça para baixo, no final da página.

Não mudou os hábitos mesmo depois de casada. Conheceu o marido, aliás, graças a uma palavra cruzada. Em um voo noturno, estava irritada por ter respondido muito rápido a revista que comprou durante a espera para o embarque. Queria dormir nas duas horas que separam o Rio de Janeiro de Salvador, mas os olhos brilharam quando viu o rapaz ao lado baixar a mesa, puxar uma revista e destampar a caneta.

- Lado em inglês: S I D E. Prêmio internacional da paz: N O B E L — apontava rapidamente enquanto ele lia a primeira dica.

Quando se deu conta, Ângela estava por cima do rapaz, com uma caneta na mão e preenchendo a revista dele. O passatempo tornou-se tão presente na vida dos dois que o pedido de casamento foi feito através de uma palavra cruzada. O único problema foi que ele não era tão bom nisso.

- Amei a surpresa, mas aceito é com a letra C.

Com o tempo, os filhos chegaram, e Ângela manteve o costume. Vez ou outra, no lugar da fralda, colocava uma página de palavras cruzadas nas crianças. A mania de pendurar pelas paredes da casa as folhas incompletas continuava.

Era difícil ela passar mais de um dia para responder um desafio completo. Quando isso acontecia, ficava paranoica. Chegou a não comer por dois dias seguidos. Trancou-se no escritório de casa e só saiu de lá com o problema resolvido.

Os anos se passaram e a mania se manteve. Quando teve um problema grave de saúde, não se importava de não receber visitas. Suas revistas de palavras cruzadas lhe bastavam.

Foi assim até o último dia de vida. Quando Ângela morreu, seu marido tentou lhe homenagear com o que ela mais gostava. Brigou, pechinchou e conseguiu mandar fazer a lápide do jeito que queria.

- Completou minhas palavras, mas me deixou incompleto.

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