Da saudade — e do não esquecimento


Informação prévia e necessária:

A Escola Preparatória de Cadetes do Ar ou EPCAR, é uma instituição de ensino da Força Aérea Brasileira sediada em Barbacena, Minas Gerais. Transformando alunos em cadetes, tem como missão preparar os jovens para ingresso no Curso de Formação de Oficiais Aviadores (CFOAv) da Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, Estado de São Paulo, por meio do Curso Preparatório de Cadetes do Ar. Simultaneamente, proporciona aos alunos a graduação no Ensino Médio.

O CPCAR compreende três anos equivalentes ao Ensino Médio do Ministério da Educação, abrangendo instruções nos campos científico e militar, ministradas sob o regime de internato. Classificada pelo Exame Nacional do Ensino Médio como a quarta melhor escola pública do Brasil, oferece anualmente 180 vagas para uma média 13.000 candidatos no concurso. Disputado e concorrido, é reconhecido como uma das provas de admissão mais difíceis do país.

Os alunos que concluem com aproveitamento o CPCAR têm direito ao Certificado de Conclusão do Ensino Médio e matrícula assegurada no CFOAv, desde que estejam dentro das condições de saúde, psicológicas e de condicionamento físico requisitadas para o ingresso na AFA.


Por umas três ou quatro vezes eu cheguei no quarto 212 do H-8, sentei e pensei “é isso, hoje eu vou escrever sobre isso aqui”. Em todas as vezes eu estava extremamente irritado com alguma coisa que tinha acontecido na EPCAr — situação incrivelmente recorrente — e estava decidido a colocar no papel todas as minhas impressões, certo de que iria criar um próprio estudo sobre o militarismo e sua aparente ineficácia naquele momento. Escrevi o título em todas as vezes: “Tratado sobre a morte da Nascente”. Pesado, grosseiro, inescrupuloso. Exatamente como eu me sentia. Mas eu nunca escrevi. Sempre alguém começava uma conversa sem sentido que se estendia por horas, ou eu percebia que tinha me esquecido do café, ou que tinha deixado minha carteira em algum lugar, ou qualquer outra coisa que me tirava daquele transe que me consumia e me fazia sentir uma obrigação de escrever. Aquela obrigação de saber que no momento em que eu pisasse fora dos muros daquela Escola como ex-aluno, eu me tornaria incapaz de dizer o que eu queria naquela hora. Saber que no momento em que nós entoássemos, ombro a ombro, a canção do Adeus, Querida Escola, eu me tornaria completamente cego pelo saudosismo e deixaria escapar a oportunidade de ser frio e objetivo sobre um sistema que tanto me incomodou. E eu nunca escrevi. Cantei Adeus, Querida Escola, saí pelos portões da guarda, e o Tratado sobre a morte da Nascente nunca foi escrito. Eu gostaria de fazê-lo agora, o problema é que eu sinto saudade.

É muito difícil, para mim, explicar o que era estar na EPCAr decentemente. Geralmente essa explicação vem acompanhada de perguntas como “você já atirou em alguém?” não “vocês apanhavam?” não “vocês atiraram em alguma coisa, pelo menos?” sim “vocês não podiam sair durante a semana?” não, não podíamos “mas você nunca atirou em ninguém, mesmo?” não “você já ficou preso?” não “algum amigo seu já ficou preso?” sim, e por aí segue. É difícil explicar, porque nós também não entediamos muito bem o que estávamos fazendo. Por isso é muito cabível que alguém pense “mas como você pode sentir saudade disso?” E é exatamente por isso que eu não sinto. Eu não sinto e duvido muito que um dia venha a sentir saudade de acordar com um toque infernal de corneta as seis da manhã (ou antes, dependendo da boa vontade do ser humano que tocava), duvido que eu venha a sentir saudade de entrar em forma e ficar lá, parado, sem motivo aparente algum. Não sinto saudade dos discursos contraditórios e hipócritas, nem do falso-moralismo constante e da pretensão ao heroísmo que parecia ser pré-requisito para exercer algumas funções lá dentro. Eu não sinto e certamente não sentirei a menor falta da intolerância ao diálogo e ao debate, da intolerância aos gêneros e as diferenças — intolerância essa que era constantemente reforçada por aqueles que detinham algum tipo de poder. As minhas críticas ao militarismo se mantém e elas cresceram de acordo com o tempo em que convivi diariamente com o autoritarismo e o doutrinamento. Não digo que foi de um todo ruim: não foi. Mudou completamente a minha forma de enxergar as coisas e as pessoas. Talvez tenha me sensibilizado a ver através dos uniformes e das platinas, através das funções e da hierarquia. Enxergar o homem e enxergar em cada um, um pouco de mim. Esses três anos na Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar me fizeram tomar como hábito nunca gritar nem ofender ninguém sem antes saber toda a história — talvez porque eu tenha percebido que toda história tem duas versões. E, depois de conhecer cada uma delas, ainda assim resistir ao ódio e a ignorância, na medida do possível. Tomei como hábito ser chamado de “você” quando o regulamento disciplinar determinava que eu deveria ser tratado como “senhor” — esta era a minha maneira de subverter o militarismo, recusando o palco que eles me ofereciam de acordo com a minha antiguidade para manter meus pés ali, no chão, tornando impossível que eu olhasse de cima, com superioridade, qualquer pessoa que fosse — apesar de eu ser geralmente mais alto que as outras pessoas. Qualquer, seja a lavadeira, seja o faxineiro, seja o soldado da guarda, seja o brigadeiro. Pessoas. Não foi de um todo ruim, portanto. Pois é verdade quando dizem que lá entramos meninos e saímos homens: assim me sinto. Um homem que sente saudades.

Um homem que sente saudades de, no intervalo das aulas, ir à lanchonete tomar um café e comer dois trentos (de avelã), falando para o Rosemberg — dono — que ele era petista e dando risada da sua reação, cumprimentando a dona Lúcia e a Lili, largando ali uns dois dedos de prosa sobre qualquer coisa que fosse, me sentindo grato pela oportunidade. Saudades da sensação prazerosa que tinha numa véspera de feriado ao ver os ônibus chegando, sabendo que logo menos (oito horas de viagem depois) eu estaria em casa, de ligar para o seu Zé Arlindo na quarta-feira e dizer “Zé, vai fechar São Paulo”. Agora, da sensação antes de todo regresso não sinto saudade, não. Mas sinto das conversas estúpidas sobre assuntos estúpidos todos os dias, das sextas na Toca bebendo um whisky e falando, claro, sobre a EPCAr, das piadas comumente maldosas sobre nós mesmos, com a pura intenção de sacanear, de ficar gritando na sacada “alguém vai no Gulosão para mim, por favor!”, de chegar no começo da ladeira que dava para XV e pensar “meu Deus, façam um bondinho nesta merda” — para, depois, lá em cima, ficar ofegante e repetir a frase -, de ir no Bebe Fácil, comprar uma vodka e um refrigerante, sentar na praça e ficar por lá umas três, quatro horas, só debatendo inutilidades e dando risada, de saber que dentro do meu quarto existiam cinco pessoas completamente diferentes de mim, mas que eram em tantos aspectos, meus semelhantes, meus irmãos com os quais eu convivi durante três anos, da hora em que acordava até a hora em que dormia, de segunda a sexta, de fevereiro a novembro, saudade daqueles que que além de professores foram amigos, conselheiros, orientadores — mestres. Saudade dos bons e dos maus — mais dos bons do que dos maus -, saudade não dos regulamentos, não das doutrinas tortas, não das palavras vazias. Saudade das historias que temos para contar. Saudades dos personagens das historias que temos para contar.

Hoje, sentado no meu quarto do apartamento 154, bem longe de Barbacena, bem longe do H-8, finalmente comecei a escrever. O que me agrada é continuar sem ter dúvidas sobre as decisões que tomei. De ter certeza de que ter me desligado no primeiro dia na AFA foi a decisão mais sensata e correta que já tomei. As minhas rusgas com o militarismo não foram resolvidas; ainda há muito para ser dito. Mas eu sou grato, sou grato a EPCAr. Por tudo que ela me mostrou e que eu discordei, porque foi tudo isso que me moldou e me recriou, que me permitiu ver. Talvez a doutrina tenha funcionado de maneira meio inversa em mim, mas é paz o que sinto em relação a quem eu sou desde que usei uma farda pela última vez. Eu provavelmente nunca conseguirei escrever o meu tratado já que eu deixei passar a oportunidade e obviamente fui pego na armadilha de sempre ver as coisas que passaram melhor do que elas realmente foram. A verdade é que a saudade criou morada e quase deixou entrar o saudosismo: ainda não. Daqui a cinco anos, quem sabe? Quando nós, da turma Ares, EPCAr 2012, nos reunirmos no nosso primeiro encontro. Quando eu voltar a ser, por um dia, o Aluno 2012/086 Gabriel Cavalcante. Eu espero que chegue logo, mas só por um dia. Porque, inesperadamente, eu sinto saudade.

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