Empresas de mídia da Europa tentam ganhar do Google no grito

Ou usar a lei antitruste para dizer que o Google acaba com seus negócios…



Os europeus tiveram a oportunidade de presenciar nesses últimos meses, através de ações cada vez mais firmes das empresas, dos governos e da justiça europeia, um movimento contestador contra a posição, julgada dominante, do gigante da informação Google. Particularmente, na França, desenvolveu-se uma lógica de desconfiança que chegou a atingir as esferas políticas do país.

Foi nesse contexto que Arnaud Montebourg, Ministro da Economia, acompanhado da Secretária Axelle Lemaire decidiram reagir, não sem ímpeto, à posição que ocupa o Google na França e na Europa. Enquanto o Ministro da Economia considera que há um abuso de poder “esmagador” da empresa americana no setor de buscas e tenta combater a evasão fiscal da Google, Axelle Lemaire fustiga a empresa por ser o maior obstáculo no desenvolvimento de empresas de buscas “Made in France”. No entanto, existem problemas estruturais no país que parecem justificar com bem mais veracidade as falhas do setor tecnológico francês.

Com efeito, França está longe de ser um país competitivo em matéria de tecnologias e sofre problemas tanto na educação quanto na captação de investimentos.



Segundo a Shangai Higher Education Raking, a melhor universidade francesa em ciências da computação se encontra na 76º posição, enquanto na captação de investimentos externos, a Associação Francesa de Investimentos para o Crescimento nota que o país só representa 1/33 dos EUA. O Google encontra-se então como sendo o resultado de uma equação que a França não parece conseguir resolver: o acesso à obtenção massiva de capital para investimentos, somado a um sistema educacional orientado aos negócios, com ampla disponibilidade de engenheiros capacitados. Todavia, segundo a Axelle Lemaire, a ausência de “grandes campeões” europeus na Internet se explica, em parte, pela atitude permissiva da Comissão Europeia em nome do princípio da livre concorrência. A Secretária francesa considera que a Europa, fonte de 500 milhões de consumidores, precisa estabelecer mecanismos de transparência e de neutralidade para o uso de plataformas que os europeus julguem essenciais.

No entanto, estas ideias começam a encontrar eco e a se tornarem parte da ideologia dominante no resto da Europa. Com efeito, a Cidade Universitária Internacional de Paris foi o palco, algumas semanas atrás, de um evento do Open Internet Project (OIP), reunindo várias empresas de mídia europeias, dentre das quais os gigantes Axel Springer Group alemão e o francês Lagardère Active, além do Ministro da Economia Arnaud Montebourg e alguns detratores do Google como Gary Reback ou Laurent Alexandre. Apesar de o movimento ter sido qualificado de “surreal” por alguns, as reivindicações e as críticas do OIP, contidas no processo que a organização está brigando contra o Google (o qual começou em 2010) parecem plausíveis: uso de práticas anti-concorrenciais, preferências para seus próprios sites à custa da equidade nos resultados de busca e a falta de transparência sobre o uso e a guarda da quantidade astronômica de dados que o Google obtém. A este respeito, o Ministro francês “exigiu” que o gigante americano estocasse os dados privados dos franceses na União Europeia e que, em caso contrário, haveria de iniciar um novo processo judicial na comunidade europeia.


No entanto, e por mais que tais empresas europeias de mídia possuam relevância no mercado, não se consegue demonstrar de qual maneira Google produziria os possíveis prejuízos em tais empresas. Ademais, existem na Europa certas companhias que conseguem competir com o Google.



É o caso, por exemplo, do site de compras online leguide.com da empresa francesa Lagardère. Porém, isto não quer dizer que o Google não poderia vir a usar de sua posição dominante de maneira dúbia para superar seus concorrentes. Não obstante, a Google impulsiona largamente a visibilidade de sites de comércio eletrônico e de notícias graças as suas ferramentas de busca, o que parece limitar a veracidade do argumento anterior.

Além disso, as companhias de mídias francesas se colocaram numa posição embaraçosa, já que haviam firmado, no ano de 2003, um acordo de investimento de 60 milhões de euros com a Google, para fomentar projetos digitais administrados pela mídia francesa. Este acordo previa que as empresas se comprometiam em não atacar judicialmente o Google no terreno dos direitos autorais. Contudo, tais empresas foram incluídas na ação judicial do OIP, através do GESTE (uma associação francesa “federativa” de mídia). Contudo, tais empresas se distanciaram significativamente do processo judicial, para não se verem prejudicadas no uso dos incentivos ofertados pelo Google.

Em Mountain View, muitos destacaram o “paradoxo francês” onde, de um lado, as empresas de mídia recebem investimentos do Google e, de outro, formam grupos antitruste e atacam o judicialmente para diminuir a sua suposta hegemonia. Do lado do Google, é claro que uma eventual renovação ou extensão de investimentos na França, na Alemanha ou em qualquer outro país europeu estão fora da ordem do dia. Independentemente de seus méritos, a ação antitruste criada pela imprensa europeia é pouco oportuna e poderia definitivamente gelar as relações com o Google.

Rafael Pellon

David Santana

Fontes:

http://tinyurl.com/lvr4pu8

http://tinyurl.com/mgmxeqe

http://tinyurl.com/l4thnqq

http://tinyurl.com/luxtrw7