Estrada para o silêncio

Um lagarto se aquece, sob o Sol do inverno, em uma rodovia que corta uma seca planície de cerrado no meio do nada. Ao longe, o réptil escuta um som crescente. Não deu tempo de o animalzinho se questionar qualquer coisa a respeito do tal barulho. Um Chevy 79 vermelho esmaga o animal, praticamente fundindo-o ao asfalto.

O velocímetro ultrapassa 120 quilômetros por hora. Não há mais para onde o pedal do acelerador ser afundado. Nos dedos, um cigarro queima sem ser tragado. Ao lado do assento de motorista, uma latinha de cerveja quente.

O som do carro reproduz uma fita cassete na qual estava gravada uma composição de Page e Plant. Ela dizia que, como a águia deixa o ninho, temos que partir para longe. Era isso que Yvens estava fazendo, ouvindo e cantando Ten Years Gone, do Led Zeppelin, enquanto dirigia sem rumo.

O pôr do Sol reflete em seus óculos e assegura que ruma para o Oeste. O vento bate e penteia seus cabelos engordurados. Entre uma cidadezinha e outra, para para urinar, abastecer o carro com gasolina batizada e comprar mais um fardo de cerveja.

Quando o rádio do veículo está desligado, cantarola notas e simula riffs de guitarra, sempre com uma latinha de cerveja de uma marca qualquer na mão. Vez ou outra, derrama um pouco na calça e na bota, formando quase uma massa de barro em seu traje de vagabundo.

Depois de fumar um cigarro por completo, o homem retoma o ritual de vagar sem destino e, em segundos, está de volta à estrada. É tudo muito natural. Ele sequer pensa no que está fazendo. O Chevy se move enquanto os primeiros acordes da canção preferida alcançam seus tímpanos.

A luz da Lua surge por detrás das nuvens. O peso dos quilômetros atravessados sobrepõe-se aos ombros. Yvens desliga o toca-fitas por um minuto para encontrar a entrada de um motel na beira da estrada. Em meio a um amontoado de arbustos, uma placa vermelha pisca e atrai seu olhar.

São algumas dezenas de metros cobertos por cascalho e Yvens estaciona diante de uma construção em estilo colonial. Ele sai do carro. Na mão esquerda, o restante do fardo de cervejas. Na mão direita, uma mochila preta com o zíper estragado. Pela abertura, era possível ver algumas cuecas de algodão, uma calça jeans e uma edição sem capa do Drácula de Bram Stoker.

Antes de adentrar o motel, Yvens precisa voltar ao carro. Ouvira Robert Plant cantar “Oh darlin’, oh darlin’” mais uma vez. Ele tira a fita do tocador e a coloca no bolso externo da mochila.

A terra incrustada em sua bota cai sobre o assoalho de madeira. O olhar de desaprovação da recepcionista faz com que ela o ignore e entregue uma chave qualquer. Ele pega e se dirige ao quarto número 19. De cabeça baixa, seus lábios sibilam na única melodia que lhe vem à cabeça.

No banheiro há um espelhinho. Yvens aproveita para espremer alguns cravos. No quarto, “Changes fill my time, baby, that’s alright with me” toca em algum canto. Yvens não se lembra de ter colocado a fita para tocar em nenhum lugar, mas continua a cantar.

A cama é daquelas de molas enferrujadas, que parecem se encaixar por entre as vértebras. É o conforto que Yvens precisa. Mais um cigarro, e…

“In the midst I think of you, and how it used to be”

Yvens vê que não há rádio, tevê ou qualquer outro aparelho eletrônico capaz de reproduzir qualquer som, e…

“Did you ever really need somebody, And really need ’em bad”

Yvens, de cuecas, sai do quarto, seguindo a música. De pés descalços, caminha pela trilha de cascalho até seu Chevy. Nenhum som saía do toca-fitas, e…

“Do you ever remember me, baby, did it feel so good”

– Aaaaaaaaaaaargh! — Ele grita.

A melodia continua. Cada Ré, Lá e Sol ressoa como uma broca por dentro de seus ouvidos. Yvens se arrasta. Cada nota é acompanhada por um passo, lento e pesado, a caminho do porta malas. E…

“Oh darl…”

Silêncio.

Yvens abre os olhos a tempo de ver a chave de fenda ensanguentada tocar o chão. Ao levantar a cabeça, percebe que está sendo observado pelos demais hóspedes que, assustados, se mantém à distância. Seu corpo é tomado por um doloroso alívio. Não há mais sons. Nada.

O homem sente sua respiração. Ritmada como o som de uma bateria. Uma que apenas John Bonham é capaz de dominar. E Bonham nunca está só. John Paul Jones, Jimmy Page e Robert Plant se juntam a ele, numa sinfonia infernal.

“I’m never gonna leave you. I never gonna leave
Holdin’ on, ten years gone
Ten years gone, holdin’ on, ten years gone”

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