FAZENDA flores FENECEM

Bianca nasceu com o dom inato da magia. Ela tinha a capacidade de conversar com os espíritos e conseguia ver coisas que sua família não via. Como ela tinha nascido em uma vila puritana, as vozes a aconselharam a manter segredo. Pelo menos até ela ser forte o suficiente.

Quando ela fez doze verões, as vozes disseram que era dela se despedir da família e da vida antiga e ir atrás do conhecimento verdadeiro. Na madrugada do seu aniversário, a filha caçula de uma família comum de puritanos calçou as sandálias e saiu da cama. Foi até o quarto dos pais, beijou a mão da mãe e pediu a benção do pai com um suspiro. Olhou mais uma vez para suas quatro irmãs, totalmente diferentes dela, mas ainda assim tão amadas, e partiu para nunca mais voltar.

Vestindo apenas sua camisola, Bianca correu pelo orvalho da grama e arbustos. Quando suas sandálias se partiram, tamanha a sofreguidão em escapar da vida pacata e iniciar sua aventura, ela continuou correndo. A lua crescente a acompanhava distante no céu. Em um tronco oco, ela encontrou as duas coisas que tinha guardado e que precisava para completar a fuga: um punhal velho que os espíritos tinham mostrado onde estava enterrado, às margens do riacho, e uma moeda de cinquenta centavos.

No meio da clareira que havia antes da floresta, com a companhia apenas de seu coração batendo forte e as vozes gritando, Bianca realizou o ritual da viagem. Com o punhal, picou o dedo e ofereceu uma gota de sangue na moeda para o deus pés-alados. Nervosa como estava, ela pronunciou as palavras emboladas, errou os nomes e esqueceu alguns. Nada aconteceu.

Os espíritos pediram paciência e calma:

-Repita, repita, repita... dessa vez fale de forma clara e pausada, pausa, pausa… — explicaram as mil vozes.

Bianca inspirou e respirou. Com a garganta fazendo o “er” e os lábios fazendo o “mis” o mais claro possível. Dessa vez, um farfalhar de asas e uma risadinha grave veio de lugar nenhum e fez o mundo rodar. Bianca olhou para o céu e se sentiu nauseada. Desequilibrou-se, deu dois passos para a frente e caiu de joelhos no chão.

Não estava mais na entrada da floresta. Agora tudo o que via era uma estrada de barro batido, cercada de altos ciprestes. Normalmente, um ritual assim não funcionaria, mas Bianca era favorecida e aquele era um deus esquecido e faminto.

Após andar alguns metros, Bianca encontrou uma porteira fechada com uma placa de madeira inscrita “Fazenda” em cima, um desenho de flores no meio e “Fenecem”. A Fazenda Fenecem era um dos maiores covis de bruxas americanas. Um local onde dezenas de adolescentes e mulheres iam procurar ajuda ou simplesmente aprender com as mais velhas. Um local onde uma menina de longos cabelos pretos, olhos verdes e pele muito branca poderia viver e encontrar seu propósito.

Bianca escalou a porteira facilmente e entrou. A estradinha tinha pedrinhas de brita que machucavam seus pés, mas ela não se importava. Nenhum sangue derramado a faria parar agora, pois seu sonho estava se tornando realidade. Esse motor quando iniciado, até mesmo em pessoas que não foram tocadas pela magia, não pode ser parado.

Finalmente a menina chegou na casa grande, com longos pilares brancos na varanda. Ela subiu os dois degraus e já ia bater na porta grande vermelha, quando esta se abriu e revelou uma velhinha de sorriso gentil e um brilho inescrutável no olhar cinzento:

— Ora, boa noite, criança. Eu sou mãe Ohana, matriarca dessa casa. Você sabe o que é matriarca, querida?

— Sei não, senhora. É como mãe?

— É exatamente como uma mãe, meu amor. A mãe de todas. Quer dizer que eu cuido das minhas meninas, entendeu? E sua graça, quem seria?

— Meu nome é Bianca… — “e procuro hospitalidade”, sussurraram as mil vozes — e procuro sua hospitalidade. Certo?

— Perfeito, querida. Entre, fizemos chá para você. Estávamos a sua espera.

Isso, no entanto, era uma grande mentira. Mãe Ohana esperava tanto Bianca quanto espera uma pedra nos rins. As bruxas daquela casa estavam separadas das vozes há decadas e haviam se afastado da fonte original há muito tempo. A aparição daqueles grandes olhos verdes irradiando energia assustava mais a matriarca que as ameaças e ofertas dos jagunços e coronéis da região.

E porque Ohana teve medo, Bianca não aprendeu nada durante aquela semana. Havia muito poder na menina, era visível para qualquer um que prestasse atenção. As flores desabrochavam perto dela como se ela fosse o sol, mais pássaros pousavam na janela dela. Até a comida que ela tocava parecia mais saborosa. E Ohana não podia permitir que outra bruxa tivesse a chance de desafiar seu poder.

Durante aquela semana dissimuladamente feliz, as bruxas adultas alimentaram bem a menina, com bolo de milho, pão quentinho do forno e grossas fatias de queijo. No almoço haviam pratos enormes de feijão com costela de porco. As bruxas adolescentes brincaram com ela, contaram anedotas e levaram ela pra conhecer os arredores, inclusive o lago detrás da casa. Mostraram as galinhas, os porcos e a única vaca. E explicaram os nomes dos 19 gatos preguiçosos que se espreguiçavam na varanda. Tomaram banho no lago gelado sem roupas e, à noite, quando todas estavam sonolentas, Ohana cantou uma cantiga de ninar romani.

No final da semana, Bianca já sabia costurar um botão em um vestido, preparar o feijão e ordenhar a vaca. Mas não havia aprendido nada sobre seu dom e os espíritos se agitavam mais a cada dia. Por isso, no jantar do sétimo dia ela questionou:

— Quando vocês vão me ensinar, irmãs? As vozes insistem que eu tenho um caminho a trilhar e devo começar o mais cedo possível.

Todas na mesa sorriram e se viraram para mãe Ohana, que respondeu:

— Logo, logo, filha. Não há pressa, pois o caminho é longo e tortuoso. Você precisa se preparar para as provas que virão.

Entretanto, os espíritos estavam contrariados e gritavam na cabeça da menina. Eles sentiam uma presença pesada ao redor da residência e não podiam tolerar mais um segundo. Todos ao mesmo tempo repetiam incessantemente: “É hora, é tempo, chegou o momento. Ordene, peça, implore para Ohana te ensinar. A iniciação é agora, agora, gora…”

Bianca olhou para o seu prato intocado e se levantou. Falando o mais seriamente que se permitia, ela implorou:

— Por favor, mãe Ohana, os espíritos dizem que eu preciso ser iniciada.

A matriarca olhou severamente para a menina, como se ela tivesse cometido um pecado mortal, e no instante seguinte voltou a atitude bondosa:

— Os espíritos, querida?

— Sim, foram eles que me trouxeram até aqui.

— Claro, e o que mais eles disseram?

— Eles apenas insistem nisso.

Ohana sorriu. Claramente eles não sabiam o que estava se passando e havia uma vantagem ali. Sem esperar um instante, a matriarca se levantou pesadamente e anunciou:

— Vamos iniciar a pequena Bianca, então. Todas as mestras se vistam depois do jantar. Nós vamos até o lago hoje.

Bianca abriu um sorriso largo e começou a comer seu prato com voracidade, sem notar como todas as outras bruxas haviam ficado silenciosas.

Naquela noite, as bruxas mais velhas vestiram uma capa preta de veludo e Bianca vestiu a camisola de algodão cru com que havia chegado. Ao sinal de Ohana, todas saíram caminhando pela porta da frente e deram a volta pela casa, indo até o lago. A lua estava cheia e uma brisa fria começou a soprar arrepiando os pelos de Bianca. Ela sentia frio, mas não hesitou quando a matriarca pediu que elas entrassem no lago juntas.

Quando chegaram ao ponto em que a água batia na cintura, Ohana proferiu:

— Você veio até minha casa e eu a acolhi. Te alimentei, te vesti e te dei uma cama. É verdade?

— É sim, mãe, eu agradeço.

— Mesmo assim, você trouxe intrusos consigo, minha querida. Eles não são bem-vindos.

— Mas, mãe, eles me trouxeram. Eles são amigos e me ajudaram sempre, me aconselharam.

— Não importa, Bianca. Você ainda é uma criança para entender, mas essas coisas carregam um peso enorme. Se livre deles e eu te iniciarei.

“Mentirosa, falsa, caluniadora”, gritavam as mil vozes desordenadas.

— Você me ouviu, menina? — perguntou Ohana severa.

“Não faça, Bianca. Ela mente, por favor. Não diga. Não faça.”

Porém Bianca não tinha escolha agora, pois a Fazenda Fenecem era sua família. Não a família dada, mas a adquirida. E os espíritos não ofereciam outra solução. Por isso, Bianca disse instintivamente:

— Eu os renego eternamente. Repudio agora e sempre — e as mil vozes que haviam falado com ela desde que era um bebê se desvaneceram.

Ohana sorriu e levantou as mãos para o céu.

— Aceita esta filha minha, ó pai da terra. Nos dê poder em troca.

Mãe Ohana segurou o corpo de Bianca delicadamente e a levantou nas águas iluminadas pela lua cheia. Em seguida, antes de mergulha-la, sussurrou com rugas profundas marcando os cantos dos olhos:

— Respire fundo, criança.

E sem maior aviso, afundou a menina. Bianca conseguia ver o rosto da velha muito mal. Dois vultos passaram dos lados da matriarca e pararam. Após trinta segundos, o ar acabou e Bianca fez menção de se levantar, mas as duas mulheres encapuzados colocaram as mãos no peito e cabeça da menina e seguraram firme. O pânico nasceu no peito dela e tomou conta de cada músculo do corpo. Ela arranhou, gritou e esperneou violentamente, mas era inútil. Os seis braços continuavam segurando. Em um último espasmo, ela abriu a boca e deixou a água entrar, que encontrou seu caminho até os pulmões e encheu a menina de frio.

Duas coisas passaram pela cabeça de Bianca antes que ela morresse. Primeiro, como era silencioso agora que as vozes tinham ido embora. E embaixo da água, não havia nem mesmo o som do vento nas árvores para acalentá-la. E segundo, como a lua estava grande e branca, brilhando forte através da água turva. Essa imagem ficou congelada como uma fotografia nas retinas da menina. A luz intensa foi se espalhando, destruindo os contornos de todas as outras coisas. Os braços mergulhados se tornaram apenas listras finas. E a lua se tornou um sol enorme, destruindo toda sua visão.

Agora preste atenção na água. Ela borbulha. Quando se faz um ritual, é preciso tomar cuidado com os detalhes. A tradição diz que um sacrifício deve ser executado por um algoz. O altar onde o sacrifício vai ser executado deve conter símbolos do deus homenageado. Ohana sabia dessas coisas há muito tempo, mas havia se tornado prepotente e descuidada. Ela cometeu três erros: água conduz a alma para lugares distantes, como um farol atravessando o universo; a lua cheia intensifica tudo e permite que um poder selvagem se torne incontrolável; finalmente, três mulheres, sendo uma delas avó, outra mãe e a última filha é o símbolo de uma das deusas mais antigas da vingança. Um deus tríplice que equilibra o destino. As megeras divinas que fazem a água de um lago ferver em pleno inverno porque mataram sua filha mais querida.

A pele velha de Ohana cozinhou e caiu dos ossos naquela noite, enquanto Bianca era consolada no colo das fúrias em um lugar onde é sempre crepúsculo.