Há pressa

(reprovado na Comissão da Família)

Marina Marques De Nadai

Veja bem antes de começar tome um fôlego tome sim respire fundo umas duas três quem sabe quatro vezes que daqui para frente não faremos pausas nem concessões muito menos vírgulas e pontos são inimagináveis porque eu direi tudo numa tacada só sem parar para pensar que o momento é sensível e requer cuidados especiais mas eu prometo ser breve bem breve para que não lhe falte o ar e agora dou mais uma chance de tomar um fôlego tome sim e respire fundo até quatro vezes e não deixo de pedir perdão ao doutor Rosa e ao Machado e ao Pessoa pela afronta a coisa mais linda que fizeram nesse mundo depois da minha sobrinha e da mulher que amo e esta coisa é a língua portuguesa com seus pontos vírgulas orações e coordenações divertidíssimas partes de uma bela dança que Saramago dançou tão bem sem empecilhos que Deus o tenha aí em cima José e com o perdão dos deuses humanos eu sigo em frente que o momento é delicadíssimo e eu lhe digo o que é que se assucede é que nós criamos uma confusão muito grande a partir de coisas tão simples mas tão grande que não fazemos a menor ideia de como resolvê-la acreditamos um dia que a solução seria a cadeia mas obviamente estávamos errados depois entendemos que um fuzil bem apontado na cara do sujeito faria milagre e botaria tudo em ordem mas nunca botou meu camarada e nós continuamos nessa confusão e eu vejo o meu irmão ao meu lado e a minha mãe que olha por mim e a minha irmã que sorri a minha sobrinha lutando para se manter de pé tão alegre meu cão que me vê e balança seu rabo e lambe minha cara e a mulher que amo me dá um colo que torna tudo tão estúpido e que coisa mais estúpida é essa do que homens e mulheres vivendo nas ruas estendendo suas mãos pedindo um pedaço velho de pão e quanta força eu não preciso fazer para não deixar cair dos olhos lágrimas por eles todos e por mim que quero sentar com eles e comungar do pão que eles não tem e da cachaça que eles desejam e entender seu passado e o presente e orar pelo futuro não a Deus mas à vida e dela espero que traga apenas paz porque paz nos falta e tanto quando um garotinho morre na praia por um simples motivo e esse motivo é que o mundo resolveu fechar as portas para reforma deixando os desavisados os pobres as putas os bêbados para trás sem grandes perspectivas além da miséria e da tristeza e que tristeza é essa que cresce em mim quando penso nisso e descubro que essas portas estão fechadas mas não estão trancadas e então minha vontade é derrubá-las com um chute e levar junto as amarras do preconceito e dos julgamentos e das prisões e agora eu chego onde eu queria que é o momento delicado pois existem homens e mulheres reunidos e eles são os políticos e eles também pensam nisso ah pensam sim meu camarada que com certeza eles estão reunidos e só sairão daquela sala com uma solução para botarmos ordem na nossa casa. Respira.

Respira, meu irmão, minha irmã, minha amada. Respira, José. Respira, Pessoa. Respira, doutor Rosa. Respira, Machado. Respiram as Marias e os Joãos. Que eles saíram da sala. E algo lá dentro deu muito errado. Algo deu muito errado já que um deles me afirma que aquele menino morto na praia é a escória da sociedade, diz ainda que a solução reside na agressão e não no perdão — mas não é cristão esse pobre diabo? Algo deu muito errado, não é possível. Eu pedia a você que não respirasse, meu camarada, para guardar o ar na explosão do grito de alegria. Deixa guardado no teu peito que não será agora, ainda não, mas há de ser um dia. Por ora grite “mas que cacete eles estão fazendo?”, porque os homens e mulheres que saíram daquela sala, aqueles deputados, eles se equivocaram. Nós pleiteamos que todos devem encontrar um ponto de repouso no amar. Eles entenderam que deveriam definir limites e maneiras de como os homens devem se amar.

(Inspirado no texto “Cachaça da Vida”, de Murillo Szvaticsek)

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