Livro: Nu, de Botas de Antonio Prata

Quarta-feira, 06 de maio de 2015, 17h45

Estou aqui, em frente ao computador, ouvindo as desafinadas de Jorge Ben e olhando para os meus livros empilhados a esquerda da minha cabeça pesando a estante e a minha consciência. Por não ter tempo de pegá-los, de lê-los. Isso me mata.

E antes de desistir e voltar ao trabalho, nesses repiques de “vamos fazer algumas coisa de vez”, peguei o Nu, de Botas (2013, Companhia das Letras). Livro escrito pelo Antonio Prata que estava no fim da pilha, condenado ao peso de todos os outros acima.

Ele até está autografado, o Antonio teve a graça de me dar um autógrafo super fofinho e engraçadinho e eu nem pra ter vergonha na cara para ler o livro, que é bom, tive. Para resolver, decidi jogá-lo na mochila e carregá-lo pra Unicamp, amanhã tenho aula no campus e da última aula até o momento de partir tenho quase duas horas de bobeira.

Quinta-feira, 07 de maio de 2015, 13h

Tento escrever com uma dessas canetas promocionais-porcaria que quando caem no chão fazem o favor de parar de funcionar. Esta, pelo menos, ainda está falhando. Aqui, em Campinas, está um vento insuportável, frio e incessante. Com o frio eu consigo conviver, mas com o cabelo na cara, aí fica difícil!

Estou sentada em um dos bancos do segundo andar do prédio de salas de aula do IEL e já caminhei até a metade do livro. O Antonio é um autêntico cronista, até quando ele quer fazer romance — saí crônica. Não que isso seja ruim, pelo contrário, adoro crônica, respeito super o gênero. Na contra capa, o Duvivier diz que chorou e riu do livro. Na boa, esse babaca chorou? O Antonio só me fez rir. E eu ri de verdade! Gargalhadinhas sozinhas pelo corredor gelado.

Nu, de Botas se conduz com várias passagens engraçadas do típico humor ingênuo de criança. O protagonista do Antonio Prata é um Antonio de uns quatro anos, no começo, que cresce e chega até uns doze, nas últimas páginas. O livro é esse Antonio adulto-criança relembrando momentos de quando era pequeno. O que me retomou O Fantástico Mundo de Bob: quando a criança entende a linguagem adulta de forma literal e desencadeia confusões hilárias — para o adulto e o leitor rir sozinho.

17h

A aula terminou suavemente e o ônibus, que me leva para Mogi Mirim, saí, impreterivelmente, da frente da faculdade de Ciências Médicas só às 19h e 30min lá na puta que pariu do campus. Com esse vento comendo as minhas canelas expostas o negócio é me enfiar na Biblioteca Central e terminar o livro.

19h e 10 min

Livro concluído. Saí da BC peguei o bus interno Central II e estou numa cafeteria perto do ponto, pagando três reais suados num café de dois dedos queimado e mau passado e torcendo, fortemente, pra essa caneta agüentar até eu terminar de escrever.

As últimas crônicas do Nu, de Botas perdem um pouco do humor infantil do Mundo de Bob e ganha suaves ares das descobertas da adolescência. As duas últimas crônicas: ‘Patos’ e ‘Pela janela’ expõem, claramente, essa característica — o que, de certa forma, não é surpreendente. Pois, o livro caminha cronologicamente com o crescimento do Antonio-personagem.

As minhas considerações gerais sobre o livro são, certamente, positivas. É um livro rápido de ler, agradabilíssimo. Contudo, esse agradável é, claramente, pelas características gerais do Antonio Prata o qual apresenta um texto leve com sacadinhas.

Ele faz isso normalmente, há anos, na coluna da Folha de São Paulo, no livro, ele só direcionou as crônicas para um tema e deu coerência cronológica a elas; assim, construiu um livro feito com crônicas que quando juntas se horizontalizam com começo-meio-e-fim. Aliás, os capítulos/as crônicas super funcionam separadamente.

Curiosidade: a crônica ‘Valdir Peres, Juanito e Poloskei’ também está na publicação da Granta, Melhores Jovens Escritores Brasileiros, que foi lançada em 2012 e fez bastante barulho na cena literária daquele ano. Com o Nu, de Botas é possível vê-la em seu contexto cronológico.

Por hoje é só voltar pra casa: menos um livro na pilha de leitura-por-fazer. E, mais uma vez, uma língua queimada com café ruim.

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