Me mata, por favor.

“Me mata, por favor. Eu não aguento mais. Será que ainda não deu pra perceber que eu não tô com um pingo de vontade de continuar assim”?

Mais um sábado parado. Eu não tinha uma vida social muito agitada.

Apesar de namorar, a gente gostava mesmo era de ficar em casa assistindo séries no Netflix ou tirando um cochilo.

Eu trabalhava tanto que ficava mais feliz com a chegada do final de semana do que com o salário caindo na conta.

Naquele sábado eu não queria ficar em casa. Decidimos pegar um cinema, comer alguma coisa e depois voltar pra casa.

Já tinha um tempo que queríamos conhecer aquela nova burgueria. Todo mundo estava falando bem.

Ela ficava um pouco fora do caminho do shopping, mas isso nunca foi problema pra gente quando o assunto era comida.

Valeu cada centavo e cada quilômetro a mais.

A noite tinha sido muito agradável. Filme legal, comida boa e a companhia excelente da minha namorada. Poderíamos voltar pra casa satisfeitos.

Você já parou pra pensar que às vezes um minuto ou dois podem fazer uma diferença na sua vida?

Eu não pensava muito nesse tipo de coisa, mas daquele dia em diante esse pensamento passou a ser uma constante em minha vida.

Peguei o caminho de sempre para levar minha namorada em casa.

No carro, a nossa playlist do spotify com músicas que marcaram o namoro. Gosto de dirigir enquanto seguro a sua mão. Sempre foi assim.

É uma das coisas que mais sinto saudade.

Deixei minha namorada em casa e nos despedimos ali mesmo. No dia seguinte teríamos que acordar cedo para trabalhar e seria bom se conseguíssemos algumas horas a mais de sono.

Quando estava sozinho no carro gostava de ouvir podcasts. Coloquei o meu favorito.

De longe eu vi que o sinal estava vermelho pra mim. Reduzi a velocidade calculando que ele poderia abrir quando estivesse mais próximo.

Quando estava chegando perto, a luz verde piscou e acelerei um pouco mais.

A última coisa que me lembro desse dia foi de sentir uma pancada muito forte na lateral do meu carro e a sensação de todo o meu corpo se desconectar.

Parecia que cada ligamento, articulação, órgão e osso estava se rompendo.

Eu não senti dor. Não senti pavor. A única coisa que senti foi um gosto extremamente amargo na boca.

Fiquei sabendo algumas semanas depois que era um pouco de massa encefálica que havia escorrido do buraco aberto em meu crânio.

A minha próxima lembrança é de acordar nessa cama de hospital sem conseguir me mover, sem conseguir formular uma frase sequer.

Na verdade, eu não consigo nem explicar como estou pensando nisso agora. Segundo os médicos eu me encontro em um estado vegetativo.

Que estranho, né? Meu cérebro não deveria estar funcionando, já que uma parte dele escorreu pelo meu rosto no dia do acidente, mas aqui estou.

Quem me vê, enxerga apenas uma pessoa extremamente magra (o lado bom é que perdi 37kg em 1 mês já que não consigo ingerir qualquer tipo de comida), com o lado direito do crânio afundado, um olho completamente torto (e eu que adorava falar do PC Siqueira) e vários tubos entrando e saindo do meu corpo.

Os médicos não sabem explicar como eu sobrevivi. Eu não sei explicar como estou vivo. Apesar de todos os meus esforços, que no caso se resumem a um pensamento disforme, eu não consigo morrer.

É engraçado o estado em que me encontro. Me lembro de algumas coisas e pessoas e outras eu não faço ideia do que sejam.

Acho que a parte do meu cérebro que não escorreu pelo meu nariz é a que guarda as boas memórias.

Eu consigo me lembrar das coisas boas. Das coisas que jamais serão as mesmas. Na verdade eu não sei mais dizer o que é lembrança e o que é sonho.

Estou imóvel com uma mulher ao meu lado. Acho que é a minha mãe. Ela está sempre aqui.

Gostaria que ela me matasse.

Tenho feito um esforço absurdo para desistir. Mas é difícil quando não conseguimos mover nenhuma parte sequer do nosso corpo, apenas as pálpebras.

Vou fechar os olhos agora. Quem sabe eles permaneçam fechados para sempre?

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