Futebol, política e religião


Teologia numa hora dessas?

Crítica literária, jornalismo, rock, cultura pop, política, futebol, religião. Por onde começar?

Teologia é o mais novo interesse. Quando pequeno gostava de desmontar os brinquedos e não raramemente usar peças para fazer cidades. Válvulas da televisão preto e branco Philco se tornavam espaçonaves e qualquer placa de circuito impresso era capaz de me fazer tão feliz quanto qualquer brinquedo mais caro de papai noel.

Cresci um pouco e percebi os heróis japoneses. Ultraman, Ultraseven, Spectroman, Robô Gigante, só para citar alguns. Ver Tóquio ser destruída pelo menos três vezes todas as tardes era o suficiente para me fazer abandonar qualquer brincadeira na rua ou em casa.

Dos heróis japoneses conheci o universo Marvel. Diferente dos meus filhos que ganharam autoridade sobre o que querem assistir no Netflix, a tevê aberta era implacável. Era preciso esperar pacientemente o enchimento de linguiça antes do que realmente se queria assistir. Ainda não existia vídeo cassete e perder atração implicava em aguardar por uma reprise aleatória que nem sempre acontecia. Burlando este esquema perverso, descobri as revistas em quadrinhos. A leitura não ditava horários específicos. Poderia sentar, ler e reler os gibis quando quisesse. O fascínio pelas publicações me tornou um colecionador e em alguns anos cheguei aos quatro dígitos em títulos.

Nesta época descobri as embalagens de cigarro. Pall Mall, Holywood, Vila Rica, Continental 20, Benson & Hedges, Free, marcas que já não vemos mais. Partia para as vizinhanças mais ricas da cidade olhando sempre para os papéis no chão (sim, éramos muito mal educados nos anos 1980). Não foi uma coleção fácil. Minha mãe, preocupada com meu repentino entusiasmo por cigarro, dizia que aquilo não era coisa de menino direito.

No meio disso tudo apareceu o Atari. Nunca cheguei a desmontar algum console, mas pensei em desconstruir aquela máquina através da sua linguagem. Fiz alguns cursos, cheguei a programar alguma coisa em Basic, Cobol e Fortran e pedi um TK85 de natal. Logo em seguida, percebi que brincar na rua era muito mais interessante do que ficar na frente da tela.

Na rua, conheci o fliperama. Jogava com habilidade 1942, Altered Beast, Dungeons & Dragons, Elevator Action, Galaga, Missile Command, Pac Man e Rally X. O que mais gostava era ter a audiência dos ‘viciados’ da loja. Alguns torcendo contra, outros querendo me ver ‘virando’ a máquina.

Nesta época senti o gosto de ter audiência e passei a me interessar por pessoas. Não necessariamente por suas vidas, seus problemas, mas pela atração em colecionar. Me tornei 'popular' me dediquei a cultivar relacionamentos em vários círculos numa época que nem telefone celular existia, quando mais Facebook. Ajuntei pessoas por décadas até que eventualmente, como tudo, perdi o interesse.

A coisa do cigarro passou e me voltei para latas de cerveja. Não deu certo. Mais uma vez, oposição doméstica, cheguei um dia em casa e minha mãe tinha jogado tudo fora. E nem bebia das latas. Na maior parte das vezes jogava o conteúdo ralo abaixo, comprava ou trocava com amigos latas já vazias.

Tal como aconteceu com a tevê, um amigo me introduziu ao RPG, argumentando que, diferente do fliperama, poderia controlar, através dos manuais e com ajuda da imaginação e de um mestre, o desenrolar de uma aventura. Jogávamos aos sábados, até que comecei a me interessar mais fortemente em sair em grupos e pelo sexo oposto.

The Wall, o filme

Paralelamente, conheci o rock. Black Sabbath, Deep Purple, ELP, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rick Wakeman, Rush, Who. Me iniciei no progressivo e caí de cabeça. Passava tardes na extinta Sub Som na Praça Saenz Peña, Hi-Fi no Rio Sul e Mesbla. De tanto ouvir, passei a tocar. Escolhi o contrabaixo por afinidade pela discrição. Me inspirava em John Entwistle e Roger Waters. Assisti ‘The Wall’ numa extinta sala no Casa Shopping e no meio da projeção, cinema lotado, um sujeito grita:

— “Isso é poesia pura!”

Se abriu uma pequena fresta de curiosidade pelo chamado ‘cinema cabeça’. Só dei maior atenção anos mais tarde com ‘Sonhos’ de Akira Kurosowa. Passei a frequentar o circuito alternativo de salas como Laura Alvim, Estação, Cândido Mendes e videoteca do CCBB.

Anos se passaram e do rock fui ao Punk, New Wave, Pop, Alternativo, Rock Brasil, Reggae, Dance, Eletrônica, Techno, Chill-out, Bossa Nova, MPB, Indie. Pesquisei sobre Forró, Coco do Norte e Música Nordestina. Curti Miami Bass e, como não falava inglês, cantava ‘Isotoméri’ ao invés de ‘It’s automactic’. O Miami me levou ao Baile Funk e nunca cheguei a me interessar por Lambada, Axé ou Carnaval na Bahia (não suportaria a trilha sonora).

Com tantas alternativas disponíveis, não foi fácil escolher uma carreira. Apliquei para economia, engenharia, comunicação social (publicidade) e arquitetura. Faltei ao teste de habilidade específica, então requerido para admissão em Arquitetura, e me restou a segunda opção, Ciências Contábeis, escolhida aleatoriamente. Cursei duas universidades ao mesmo tempo até decidir por qual gostava mais. Apesar das matérias do básico de Engenharia serem mais atraentes, a Miss Calouro do curso de Contábeis era ‘hors concours’.

Política sempre me cativou. Guardo na gaveta no trabalho um diploma de honra ao mérito, impresso pelo grêmio da escola em mimeógrafo já bem apagado, ‘pela luta contra a ditadura e posição anarquista. Oitava série. Éramos uns três ou quatro garotos interessados na abertura democrática, fãs no Leonel Brizola e do dito Socialismo Moreno. Na universidade, o movimento estudantil fez acender mais uma vez o deslumbramento pela política. No plano nacional, Lula versus Collor. Já nesta época dava pra perceber que a militância profissional de esquerda nem sempre está para algo além de uma boquinha.

ancredo, Simon e Brizola em Nova York: ex-governador prepara seu retorno

Se a experiencia socialista foi decepcionante, o mercado abriu seus braços e me abrigou numa consultoria internacional. Passei a lidar com pessoas, números, e em alguns anos estaria trabalhando nas privatizações. O destino me levou à Meca do capitalismo internacional trabalhar com Wall Street.

Começo uma coleção de cartões postais daqueles que ficavam expostos em totens de restaurantes, bares, cinemas e livrarias anunciando algum produto ou atração.

Final dos anos 1990, inverno no hemisfério norte, ainda só se falava em Nova Economia e nas Pontocom. Começo a me interessar por publicações e conteúdo online. Percebo que a plataforma papel não é exclusiva e coloco no ar uma revista online (Falaê!.com.br) que ganha alguma repercussão atraindo alguns novos talentos, escritores, jornalistas e gente interessada em se expressar e publicar seus textos online.

Osama Bin Laden faz uma cagada, volto ao Brasil para trabalhar com fusões e aquisições, o projeto na web se transforma numa publicação especializada em novos autores e vira referência no universo de revistas literárias. Paralelos.org vira livro, reunindo 17 contos de alguns desses promissores nomes. A coisa ganha corpo, em 2004 somos convidados para a Flip e, depois de uma oficina com Milton Hatoum, chamados para o processo de seleção da oficina de roteristas da Rede Globo. É o começo do fim, já deu. Olho através daquela porta que se abre, penso na família, na carreira, viro a página e sigo meu caminho.

Já disseram antes que uma imagem fala mais do que mil palavras. Enquanto a fotografia digital ganha terreno, para o desespero da Kodak, compro uma máquina analógica russa que naturalmente produz fotos com cores que inspiraram os filtros hoje usados no Instagram e outros. “Don’t think just shoot”. Participo da fundação da Sociedade Lomográfica do Brasil e tenho fotos na exposição “What a Hell is Lomo”, no Ateliê da Imagem na Urca. Lomo vira hype mas inevitavelmente a fotografia digital fica divertida e vence.

Começo a pesquisar sobre métodos científicos para se predizer o futuro, antecipar tendências e rupturas. Quero aprofundar. Ler sobre o assunto me empurra para um mestrado em Future Studies da University of Houston. Tento por dois ano e por ser extremamente acadêmico, perco o tesão. Preciso de algo prático.

Jerusalem

O encanto pelo Oriente Médio me leva à Palestina, Israel e vizinhanças. Passar por lugares que fazem parte da narrativa bíblica faz pensar mais densamente no sentido de Deus. Concluo um mestrado internacional e finalizo com uma tese que investiga fatores que contribuem para o colapso de negociações em fusões e aquisicões.

Substituí um bom número dos livros que ganhei na época de Paralelos e os assuntos na estante são variados, incluindo economia, finanças corporativas, estratégia, gestão, crítica literária, jornalismo, aforismos, arquitetura, desenho, arte, política, história, filosofia e religião. Faz anos não tiro uma foto analógica.

Dois anos depois de Jerusalém, me inscrevo num curso de extensão em um seminário de formação protestante tradicional. Professor de confissão batista e formação jesuíta torna o assunto ainda mais provocante.

Outros assuntos na fila para serem explorados incluem: astronomia, azulejos, compreender os rios do mundo, homeopatia, história da arte, latin, vinhos. O que não perco de vista: olhar o céu, ficar em silêncio, sabores, cheiros, conversas inteligentes.

Faz dois meses, um candidato a trainee bem acima da média me diz numa entrevista:

— “Quanto mais interesses tem o indivíduo, mais interessante ele fica.”

Acho que foi um elogio.

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