Não fazem músicas bonitas sobre segunda-feira

Encaro os paradoxos da própria personalidade no vidro fumê da entrada do supermercado. O reflexo é disforme. Uma distorção de mim. Sou, naquele formato único, algo que me transformo mentalmente todas as segundas-feiras pela manhã. É um estado natural em que ignoro a consciência crítica, o conhecimento do mundo e, principalmente, de mim mesmo. Ignoro os avanços técnicos. Ignoro qualquer coisa além do vidro fumê que me ajuda a terceirizar a culpa. Que alívio!

Uma hora ou outra preciso dobrar no corredor dos produtos de limpeza. O ambiente perfumadamente químico manobra contra o vento, passa por baixo das lentes do óculos, e me atinge nos olhos. Imediatamente a mão esquerda puxa os óculos para longe do rosto enquanto os dedos dobrados da mão direita fazem o trabalho sujo. Coçar. Coçar como se não houvesse amanhã. E depois coçar um pouco mais.

Há uma técnica milenar para coçar os olhos até lacrimejar. É preciso que fiquem vermelhos também. Bem vermelhos. Um de cada vez. Aí fica tudo bem. Só depois disso você percebe o quanto sua mão estava suja. Uma espécie de agonia surge. Esse ato é uma amostra básica da vida. Uma metáfora muito bem pensada. Praticamente uma pinçada do conjunto de possibilidades e ações diárias para explicar o universo.

Primeiro a vontade, depois o ato, o alívio, a leitura de que o resultado foi ruim. Arrependimento. Questionamento. “Por quê? Por quê?” Por fim, penso que estava tão gostoso coçar. Então, deixa. Tá tudo bem. Depois tudo fica bem. Lavo as mãos, passo uma água nos olhos. Se tivesse colírio, facilitaria.

Uma hora ou outra, preciso voltar ao corredor dos produtos de limpeza. Pegar aquilo que esqueci. Desinfetante. Na saída, com seis sacolas brancas em uma só mão, encaro o vidro fumê outra vez. As sacolas aparecem nítidas no reflexo. Não estão pesadas. O que contradiz o valor pago. Encaro o vidro enquanto penso que a comparação do peso com o valor pago deve ser o real paradoxo de mim mesmo.

Erro. Quase avesso. Pelo menos tudo tranquilo: terceirizado. Tudo bem. Tá na sacola, tá no cartão de crédito. Não em mim. A cegueira é culpa da química que habita o corredor sete. A inconformidade é do vidro fumê.


Sergio Trentini

Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve aqui no Medium

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