não é um bom dia para escrever

A última refeição dele havia sido com ela. Era quinta-feira e o homus estava delicioso. Ele desperta na quarta-feira e sente a perna inchada, não sabe ao certo o que é, não encontra o antialérgico e decide esperar. Uma mensagem dela no celular, ele não chora mais. Se levanta e toma um banho, não se lembra do último. Faz a barba com muito cuidado, como se fosse aprimeira vez. Percebe o rosto envelhecido no espelho, já não é mais o mesmo.

Não acha as coisas que procura em sua casa, e não sabe ao certo se aquela é a sua casa. Dormiu pouco, umas duas ou três horas. Uma sessão de análise marcada as pressas, tem que sair. Perde alguns minutos procurando sua chave que não está na porta como de costume. Percebe então que a chave está em sua mão. Decide sentar-se e fumar mais um cigarro. Decide também fazer café. Já não tem pressa, talvez nunca teve, já não sabe mais.

Depois da análise sente fome pela primeira vez em dias, decide comer um pastel de feira. Fuma mais um cigarro, já não os conta mais. Pensa que deve comprar o antialérgico, sua perna pode inchar novamente, mas o pensamento se perde ao se misturar com algo do passado. Pensa em ir andando até sua casa, mas pega um táxi. O taxista joga um jogo em seu celular e faz um caminho mais longo, a mudança de paisagem vale os 5 reais a mais da corrida.

Já em casa, ele se senta em frente ao papel em branco. Como se fosse a primeira vez, o papel está em branco. Como se fosse a primeira vez, ele não tem mais sobre o que escrever. Ele sente a perna inchada, não tem o antialérgico. Mesmo com dificuldade, decide se levantar e escovar os dentes. Escovar os dentes o lembra de bons momentos. A folha continua em branco, e isso não importa mais. Ele decide que aquele não é um bom dia para escrever.

O mundo as vezes é um lugar nojento e mesmo querendo acertar, na maioria das vezes você erra. E quando você se dá conta disso escovando os dentes, não é um bom dia para escrever.

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