Nunca também é um lugar

Lá em cima, desde sempre estava na cabeça dele que iria tomar o ônibus e só desceria em São Paulo. Nunca foi mole, nunca foi preguiçoso, nunca deixou-de; fez tudo, carregou tudo, carpiu, colheu, pintou, aparou. É que o problema era esse, mesmo. Para ele, a Bahia nunca foi.
Na beira da estrada ela trabalhava oito horas por dia de cabelo preso dentro da touca, uniforme azul claro e meio-sorriso no rosto. Passava gente de todo canto, prá-lá-e-prá-cá, ali na lanchonetezinha do fim-do-começo de Minas Gerais, quase que era Bahia. Era simples, nada demais, mas enchia bem, porque era mais barata que as outras. Nascida, criada e crescida ali perto, nas redondezas, cidadezinha, vidazinha, trabalhando na lanchonetezinha e parecia até que a vida tinha sido feita no diminutivo prá ela. Não é que não queria mais, é que não sabia que podia querer.
De sorte que um dia parou o ônibus dentre tantos ônibus que lá paravam e você nem mais reparava depois de um tempo por lá. Nesse ônibus vinha ele da Bahia, vinha ele e tantos outros, vinham todos com destino à São Paulo e lá desceriam de vez. Uns tantos prá voltar logo, uns outros prá ficar. A maior parte prá se perder. Na cidade, no caos, em si. É que São Paulo pode ser cruel se você não abrir bem os olhos, olhar para os lados, olhar para cima e buscar seu Deus. Parou o ônibus e ele desceu. Um estado já tinha ido, da Bahia saiu. Esticou as pernas, os braços, estralou os dedos todos e o pescoço. Ajeitou a mochila nas costas e entrou na lanconhetezinha.
No balcão ela brincava com a unha e um palito de dente, distraída. Ouviu uma moça pedir uma água prá colega e ouviu aquele bufo de contrariedade. Que é que acontecia com elas e com eles que tinham tanta raiva dos que lá paravam? Não entendia, não. Era só gente indo e vindo e querendo de comer e tomar e se aliviar no banheiro. Não era nenhum diabo vestido de homem, prá que tanta mal criação, ela pensava. Era gentil. É boazinha de tudo essa, é sim, dizia a dinda quando ela era pequena. A mãe que disse: cê há de ser mais prá fora, menina, que cê parece que foi feita prá dentro! Dentro era seguro. Não havia nem de dormir se achasse que tinha dito uma grosseria sem causa pr’álguém sem culpa. Bicho ruim que parava lá tinha também, mas ela nem com esses podia ser sete pedras na mão. Boazinha, boazinha, sempre no menos. Será?
Levantou a cabeça e viu ele entrando, nas calça jeans surrada e na botina gasta e na camisa velha manchada, a pele morena por baixo e os braços fortes e magros, o rosto queimado e o cabelo preto enrolado na cabeça. E o coração não bateu mais forte. Nem mais rápido. Ou devagar. Bateu igual. Viu ele e viu tantos outros iguais. Mas ele estava ali entrando, andando com uma mochila grande nas costas que não largava em lugar nenhum e era ele e a mochila e São Paulo e mais ninguém. Caminhava devagar, a boca mexia como quem mascava. Olhou prum lado, olhou pro outro, procurava o quê? Olhou pr’éla e foi, seguiu prá perto. Parou na frente, largou a mochila e parou de mascar. Meio que sorriu, assim como ela
- Noite. A senhora pode me vê um cafézim, pode? Peço por obséquio, um cafézim com um golinho de leite, coisa pôca, mesmo, tem?
Respondeu que sim, boa noite, tinha, sim. E era só isso que ele havia de querer, quis saber. Quis saber também da onde é que era que ele vinha. Mas por ora só o que queria.
- Que a senhora tem de comer?
No que ela puxou o cardápio de trás do balcão e entregou pr’ele. Pr’ele que sorriu encabulado, coçou o rosto e falou sincero: a senhora me desculpe, mas é que nisso de ler eu não sou bom, não, sei até as letras uma sozinha da outra, mas se junta tudo prá mim é só confusão. Sei só meu nome, ler e escrever, que é fácil. É Cícero, ou Cisso pros chegado. Quem corou foi ela, sentiu vergonha, mas de quê? Sentiu vergonha por entregar o cardápio. Sentiu-se estúpida. Sentiu-se pequenininha. Pediu desculpas, que não tinha problema, pegou o cardápio e leu pr’ele as opções.
- Pão de queijo me parece bom, a senhora indica? Aqui é Minas, né, não?
Fez ela rir, acostumada. Indicava, sim. Pegou pr’ele dois quentinhos, e entregou o prato na sua mão.
Ele agradeceu, esperou o café sair e tomou sem adoçar, mesmo. Comeu um pão de queijo. O outro já tava na cabeça dele que ia levar pro caminho, comeu o lanche de mainha na estrada, melhor ter outra coisa prá depois. Depois de pensar, pensar, pensar, ela falou:
- O senhor é da onde?
Engoliu o gole de café antes de responder que veio é da Bahia, mas da onde ele era que não sabia ainda, tava por descobrir. Daí ela quis saber prá onde que ele ia, então.
- Eu vou indo prá São Paulo, que ele respondeu.
Daí ela quis saber o porquê e ele não sabia como responder e foi isso mesmo que respondeu. Tinha que ir, queria ir, precisava ir, a troco de que não sabia, mas sabia que tinha. E aí, ele foi. Na cabeça dela aquilo não atinava, aquela coisa de ir. A cabeça pensando: que tinha além daquilo, da lanchonetezinha, da cidadezinha, da vidinha dela ali?
- Mas tem de ter um por quê?
Corou de novo. Achou que perguntava de mais e a colega olhava pr’éla. Ele fez sorrir.
- Desde menino eu queria é ir, sair de lá da Bahia. Não é por gostar ou desgostar, é por isso, mesmo. Esse meio-termo, a senhora sabe? De arrancar mato do chão eu sabia, mas tem de ter mais. Mainha dizia que eu nasci avoado. Painho chamava de abestado. Arre égua, parece que minha cabeça nasceu fora da Bahia mas o corpo, não. Daí assim que deu, eu fui atrás. É isso, deve de ser.
Uma voz avisou que os passageiros do ônibus dele deveriam voltar pro carro a fim de seguir com a viagem. Ele agradeceu, com dois dedos na testa se despediu e foi pagar a conta. Ela ainda queria entender e na cabeça falava: por quê? Tem como ser? Enquanto ia no por que, o ônibus dele saía e ela via pela janela. Da Bahia. Vindo da Bahia. Sendo sabe-se-lá-de-onde. E o peito dela deu um nó. E a vida num pulo saiu do inha prá dúvida.
Que ele foi.
Que ela ficou.
Que a vida, ela é feita disso, mesmo. Alguém que passa e tira da gente o que a gente não tem ou dá pra gente o que a gente sempre quis, sem saber.
De sorte que ela queria ir, também.