O castelo mal-assombrado de Fortaleza


Há uma construção horrível na praia mais bonita de Fortaleza.

É como um castelo bizarro. Um castelo de cartas feito pelas mãos de uma criança. Eu observo aquilo. Me viro para a praia belíssima, com pessoas caminhando tranquilamente e me volto para aquilo. Não me parece normal que as pessoas passem por isso sem notar. É uma coisa muito grotesca para passar batido.

Suponho que todo mundo já tenha se acostumado com essa coisa atravancando a praia.

Essa coisa que é a mais velha, tosca e perfeita que existe em toda a praia.

Estamos na Praia de Iracema, a praia mais bonita da cidade. Talvez o gosto local seja diferente, mas por causa de sua história é a minha favorita. As ruas são largas e os hotéis são altos. Famílias caminham tranquilas pelo calçadão. Adolescentes brincam, andam de bicicleta e skates de duas rodas. Deve ser uma nova moda esse skate que parece impossível de se equilibrar. Quanto mais perigoso melhor, suponho.

Todo esse paraíso e atrás de mim o castelo mal-assombrado. Tento assimilar isso. Em frente ao castelo há uma casa que parece ser importante e turística, fechada agora. Talvez uma loja de artesanato, pois é sabido que artesanato é o melhor objeto para se fazer lucro com turismo. Você constrói alguma coisa com produtos de péssima qualidade, diz que é um “produto da terra” e cobra um valor agregado altíssimo e impossível de mensurar. Como mensurar o valor da verdadeira cultura, mesmo que essa cultura seja produzida talvez em escala industrial.

Dos lados do castelo mal-assombrado há um pequeno-super-mercado da rede varejista Pão-de-açúcar e condomínios chiques. E hotéis. Eu não lembro exatamente da geografia do lugar, mas na minha mente as coisas estão organizadas assim. Os hotéis são obviamente caríssimos, o tipo de lugar que você gastaria um salário de um cidadão médio para passar um mês. Gastaria o preço de uma cesta básica para jantar nos seus restaurantes sofisticados com meia-luz e garçons educados.

Na praia existem caminhos que entram direto no mar. Trapiches. Caminho por toda a extensão de um deles e me encontro em uma região do mar tão funda que eu provavelmente me afogaria por puro pânico. Eu sei nadar de forma bem básica e flutuo como qualquer bóia sem cérebro, mas tenho a certeza que se minha companhia, uma garota rancorosa e estranha, decidisse me empurrar para o oceano como uma oferenda, eu iria afundar igualchumbo.

Caminhando mais à frente há uma estátua belíssima da índia que deu o nome à praia. A índia que só existe na história de José de Alencar. Iracema, um exemplo de boa selvagem, pura e forte, dobrando seu poderoso arco sob o céu estrelado. Muitos adolescentes a rodeiam e eu suponho que pelo fato da estátua ser um marco de fácil localização muitos jovens consideram ali um point da galera. Provavelmente fumam maconha/bebem vinho enquanto escutam algum punk-rock-emo e tentam gritar mais alto que seus colegas o quanto são legais e descolados.

Mais à frente há uma mulher, nas típicas vestes de baiana, vendendo um acarajé muito gostoso. Eu salivo só de lembrar aquela massa frita recheada, apimentada e quente.

Finalmente, no ponto mais distante que eu ousei ir, há um cemitério na areia. Me questiono sobre a possibilidade de enterrar corpos em areia fofa, mas talvez seja só uma coisa simbólica. Ainda assim é triste, esse cemitério dos pescadores. E talvez de gente que tenha morrido afogada? Um recanto lúgubre para passar algum tempo. Gostaria de permanecer mais, mas minha companhia raivosa está muito ansiosa e não me deixa ficar mais do que dez minutos.

Voltamos ao começo e lá está o maldito castelo mal-assombrado de novo. Eu não repudio mais tanto aquela coisa bizarra. Depois de todas as lojas, restaurantes e hotéis; depois de todos os adolescentes irritantes e seus skates de duas rodas; depois de centenas de nativos tentando me vender coisas caras e inúteis, eu passo a amar aquele prédio.

Mais tarde vou descobrir que ele é o antigo Iracema Plaza Hotel. Uma das edificações mais ambiciosas da década de 60, que seria um condomínio de luxo e se tornou um hotel pela necessidade da cidade. Com o tempo e a falta de demanda foi logo transformado em apart hotel e de volta em condomínio. Os apartamentos foram alterados, outros acrescentados, se construindo em cima da laje que sobrava de uma forma sem planejamento e perigosa. Como uma microfavela, um cortiço enorme.

O Google me fala que aquilo foi tombado pela prefeitura como patrimônio lá pelos idos de 2006 e os moradores foram retirados porque o prédio foi considerado inseguro. Hoje existe uma reforma acontecendo ali. Ou planos para uma reforma, esquecidos na gaveta de um burocrata. Mas lá está o impávido colosso. A condição humana em forma de prédio. Costurado, remendado, sobrevivendo. Sujando de humanidade a praia esterilizada, capitalizada, transformada em um playground da classe média que deseja ser o mais globalizada possível.

A praia de iracema talvez nunca tenha sido da ralé. O iracema plaza hotel foi mais uma das inúmeras tentativas nesse sentido, há mais de 50 anos. Mas aquilo está lá para lembrar que a humanidade é muito mais do que normas de conduta ditadas pelo dinheiro. Ele está lá para relembrar como a vida é suja, caótica e duradoura. Como a vida real tem sua própria cultura indestrutível, mesmo que se tente catalogar e vender ela numa prateleira como artesanato de futilidade. O Iracema Plaza Hotel se tornou uma ideia de como a cidade vê a si mesma, um arquétipo. E isso não pode ser demolido.

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