O SOL JÁ VAI SE PONDO

19–10–17, sp


Quando olhou em volta, Timóteo não reconheceu nada. Olhou para todos os lados, para cima, para baixo, e ainda assim não reconheceu nada, e se não fossem seus pés e suas mãos estarem presas ao seu corpo, não os reconheceria também.

Estou perdido, ele pensou, pensou dizendo em voz alta, mas em tamanha solidão dizer em voz alta e pensar dentro da própria cabeça diferença alguma tem, porque o vazio é a extensão de si mesmo. Ele havia percorrido um longo caminho para chegar até aqui e agora que se dava conta que havia chegado ao lugar errado quase que lhe fazia o coração doer.

Saiu bem cedo para percorrer todo o caminho, ainda era um bebê moreno e curioso e muito sério que todos diziam vai dar um homem bonito, e ele só olhava em contemplativo silêncio, enfiando vez ou outra algo na boca e fazendo a mãe correr para tirar, mas sempre sentindo o tempo passar depressa e a certeza de que estava atrasado.

Aí menino começou a entender o que era sonhar e, entendendo, sonhou. Primeiro com a bola e com o gol e a faixa nos cabelos cacheados, igual Sócrates, mas as pernas se cansavam e o pai ria desinteressado do jogo do filho. E depois viu aviões e pensou em quem estava lá dentro e pensou quero estar lá dentro também, mas era muito alto e ele não tinha sequer uma escada. Depois aprendeu a ler e percebeu que tendo aprendido a ler, havia aprendido tudo, e não queria só ler, queria escrever para aprender o que o todo não havia ensinado, mas o pai ria das suas palavras como quem ri com pena de um retardado, então ele não escreveu mais.

E continuou caminhando, moço, sabendo o que era sonhar mas esquecendo como fazer, porque o tempo era tão curto e a faculdade de direito consumia tudo que sonhar só aos finais de semana ou feriados.

Conheceu Amélia e sentiu algo diferente que era como sonhar, mas não na cabeça, no coração, e trocou seu sonho de lugar e agora a bola ficava só na tv e os aviões no céu e os poemas eram todos para Amélia e Timóteo estava no chão. Mas ficou no chão entre quatro paredes e de uma delas pendia seu título de doutor.

E Amélia caminhou com Timóteo, mas um dia cansou de andar e disse Timóteo, eu te amo, mas esse caminho não é meu e eu não sei nem se é seu, e lá estava Timóteo sozinho outra vez, tentando entender os mapas e as direções, andando cada vez mais devagar por causa do peso do que coletou no caminho: esse trabalho de terno e gravata e esse título sem causa e esse salário gordo que parecia uma bola de ferro em seus pés.

Perguntou-se quanto é que faltava e respondeu a si mesmo: quanto é que falta para o quê? Já não se lembrava para onde estava indo e já não sonhava com nada e já não falava mais nada, só as mesmas palavras que todas as outras bocas diziam, muitas palavras sem significado algum.

Agora com as mangas dobradas, o cabelo cacheado já branco e sem faixa, a pele queimada, ele olhava ao seu redor. E não reconhecia nada.

Cheguei, mas não era aqui.

Olhou para trás, e agora havia caminhado muito para voltar. Não dava tempo. Foi quando ouviu o barulho da bola e o grito de gol de um menino que jogava com uns moleques descalços logo ali e olhou para o céu ao ouvir o zunido bem a tempo de ver a negra silhueta de um avião.

Eu sei o caminho, disse. Agora eu sei o caminho. Esse não era o meu caminho, mas agora eu sei qual é. Saio amanhã de manhã.

E o sol já vai se pondo e amanhã ele não voltará.