Huffington Post

Passar bem, Doutor.

ou, Ignoranças.


Terça-feira
17h13min

O horário é propício para começar uma cena de pôr-do-sol, mas hoje, especificamente, o sol nem se deu ao trabalho de nascer enquanto o céu ficou de um todo cinza durante o dia. Agora está um cinza mais escuro, de manhã um cinza mais claro e nem há piada sobre tons de cinza, apenas pura observação meteorológica. Encostado na parede da parte de trás do hospital, ao lado da entrada de serviço, está Eduardo Pereira Filho, ainda usando o traje cirúrgico de cor verde, a mão direita enrolada com uma faixa branca já ensopada pelo gelo que vai derretendo aos poucos e também pelo suor que escorre, porque o sol não apareceu, mas nunca dissemos que não estava lá, em algum lugar. Na trêmula mão esquerda traz um cigarro que leva vez ou outra até a boca, com pouca frequência. É um garoto para quem olha de longe, se não usasse uma roupa tão séria como a de médico cirurgião. Uns pelos grossos no rosto que se amontoam em pequenas áreas, sem formar uma verdadeira barba. Os olhos estão vermelhos. De perto, além: estão vazios.

Sai pela porta de serviços Severino Bezerra empurrando o contentor de lixo hospitalar também de cor verde, mas um pouco mais escura que a roupa do médico. Severino Bezerra é um senhor de 63 anos, moreno queimado por séculos de sol e luta — a dele, de seu pai, de seu avô, do quilombo, da fazenda, do hospital -, a pele do rosto tem sulcos tão profundos que parecem carregar a própria história dos Bezerra. Nascido e criado no sertão, seu corpo era todo musculoso da labuta. A barba crescia durante o dia, mas Severino sempre fora muito bem afeiçoado e mantinha o rosto liso de pelos, com sua tradicional camada de poeira. Na cabeça estava o farto cabelo branco que na infância formava cachos negros, agora são fios penteados cuidadosamente para trás, assentados com brilhantina. A faxina do hospital não era seu primeiro emprego. De longe. Torcia para ser o último, aposentar com um salário razoável, plano de saúde para família. Por isso nunca se atrasava, nunca faltava, nunca era notado, e esse era o segredo da sua longevidade no emprego. Usava luvas, como um médico, mas suas razões eram outras.

Ao virar para esquerda com o contentor, viu o médico encostado na parede. Tinha seus motivos e resolvera quebrar sua regra de nunca ser notado.

- Boa tarde.

O médico ou não ouviu ou fez que não ouviu, mas Severino insistiu. Diminuiu o passo e repetiu:

- Boa tarde.

Levantando os olhos lentamente, Eduardo encarou o moreno queimado e velho com todo o vazio que carregava. As cinzas do cigarro caíram no chão e ele num tom estúpido respondeu.

- Doutor.

Severino ergueu as sobrancelhas também brancas e peludas como quem não entende.

- Bom tarde, doutor — deixou claro o cirurgião Eduardo Pereira Filho, colocando cada um no seu devido lugar, soltando a bituca no chão depois de uma última tragada.

Passaram-se poucos segundos entre a resposta do doutor — não cometeremos o engano de novo — e a reação do faxineiro. Poucos constrangedores segundos. Os olhos de Severino inundaram, mas não transbordaram. Recobrou-se. Entendeu.

- Peço desculpas, doutor. Sou gente humilde e gente humilde as vezes faz dessas ignoranças, mas não há de se repetir. Passar bem. Doutor.

Seguiu, então, seu caminho com o contentor. Eduardo pensa agora que a ignorança fora sua, de certo, mas não era para tanto, onde já se viu chorar por conta disso? Pisou na bituca que ainda queimava, sentiu a mão direita latejar e entrou derrotado no hospital.

Terça-feira
07h48min

Estava jogando o copo descartável com um fundo de café no lixo da copa dos funcionários da limpeza, as cinco para as oito, religiosamente, começa a trabalhar. Já tinha colocado a luva na mão esquerda quando o celular vibra no bolso da calça. Três pessoas poderiam ligar para ele: a mulher, Benedita Bezerra, a filha, Maria Tereza Bezerra, ou o bicheiro Donato com quem fazia uma fezinha toda semana na esperança de garantir um luxo para o fim da vida e Deus haveria de perdoar a contravenção depois de 63 anos em linha reta, tirando aquela confusão na adolescência envolvendo as galinhas do vizinho. Não era hora de sair resultado do bicho e o Donato não ligava para jogar conversa fora. Restava a mulher e a filha. As duas já estavam avisadas que não deveriam ligar em horário de trabalho, era proibido o uso de celular durante o serviço. Por isso Severino já ficou um pouco contrariado e chegou a resmungar “Diacho, parece que falo com as parede”, mas logo se acalmou porque as duas eram responsáveis e só ligariam se fosse importante. O nome na tela do celular era de Benedita Bzera, digitado errado por conta dos dedos grossos de Severino e jamais corrigido. Benedita Bezerra levou quase um ano para aprender a ligar direito para o marido. Conseguiu dessa vez. Como não era hora do trabalho ainda, atendeu.

- O que foi, preta?

A voz alterada da mulata serena do outro lado deixou Severino preocupado. Ouviu atento. Concordou algumas vezes com a cabeça, soltou uns “Minha madre Tereza”, de onde veio o nome da filha. Quando a mulher terminou, pensou e respondeu:

- Manda vir pra cá, preta. Fala pra virem pra cá. Traz pra cá. Tem aquele menino bom aqui, a gente dá um jeito, preta. Manda Maria Tereza vir. Não posso parar de trabalhar, preta, vem ela. Traz pra cá, manda pra cá.

Depois dos Deus abençoe e das bença, guarda o celular de volta no bolso, veste a luva da mão direita e, com um nó na garganta, começa a empurrar o contentor para recolher o lixo da madrugada.

Quarta-feira
03h25min

Acorda suando frio e se assusta com o próprio grito. A mão direita dói de forma dilacerante. Sabe que algum osso está quebrado. Quer chorar. Quer gritar. Engole três comprimidos com vinho quente do resto da taça para calar a própria boca. Cobre o rosto com o travesseiro, mas continua enxergando tudo.

Terça-feira
08h34min

- Qual a situação? — pergunta o doutor Eduardo para o socorrista e para a enfermeira que empurram a maca às pressas pelo corredor. Ele está ofegante por correr da sua sala até o centro cirúrgico.

- Uma menina, nove anos, sofreu um acidente doméstico, estava brincando e o móvel da sala tombou sobre a ela. A televisão caiu sobre o tórax. Suspeita de hemorragia interna e danos no pulmão. O rim parece inchado. Tossiu sangue e está desacordada. Arritmia cardíaca — resumiu da melhor forma que pode o socorrista enquanto segurava o tubo de oxigênio e corria com a outra mão empurrando a maca.

A enfermeira abriu a porta da sala de radiografia e ouviu os pedidos do médico, que se dirigiu para a sala de operação.

Terça-feira
08h31min

Na recepção, uma das funcionárias confirmava os dados.

- Tem plano de saúde?

Procurando nervosamente na bolsa, a mulher entregou o cartão com a mão trêmula. A funcionária mordeu os lábios.

“Plano de saúde para funcionários — dependente”.

Terça-feira
08h55min

Com a paciente na mesa de cirurgia, o doutor Eduardo abria o pequeno tórax da garota. Com cuidado, já que havia fraturas por toda parte. O pulmão estava perfurado, cheio de sangue. O rim, inutilizável.

A enfermeira deixou cair duas lâminas. Está obviamente ansiosa demais para a cirurgia. Que é a sua primeira sem um tutor.

- Você não sabe o que está fazendo, porra? — o doutor ficou irritado com a assistente.

- Tem quantos anos? 21? 22? Ou você trabalha direito ou vai atrás de alguém competente, de criança já basta a da mesa.

É um ótimo cirurgião, o doutor Eduardo Pereira Filho. É engraçado o comentário sobre a idade da enfermeira, já que ele próprio tem 28 anos e é o cirurgião mais novo do Hospital. Formou-se summa cum laude, é filho do doutor Eduardo Pereira, neurocirurgião que dá nome à pelo menos quatro diferentes fundações médicas. A capacidade como médico de Eduardo Pereira Filho é inegável, já seu temperamento é alvo constante de conversas e debates descompromissados. Parece ter se esquecido que é também muito novo e que já foi muito questionado pela sua idade. Talvez com um pouco de razão: na sala de cirurgia, parece que faz isso desde que nasceu.

Localiza a hemorragia no pulmão da menina e tenta parar o sangramento. A enfermeira já se porta com mais habilidade. O sangue não para de jorrar. Têm outras enfermeiras na sala e um médico assistente, abrindo espaço para que Eduardo possa lidar com o pulmão livremente. Consegue grampear e o sangue para por uns momentos. O rim é o maior problema.

- Marta, avisa a Central. Ela vai precisar de muito sangue e de um rim novo.

Terça-feira
12h13min

O ideal seria o transporte aéreo, mas uma das pás do rotor do helicóptero está rachada e os mecânicos vetaram o voo. Por sorte estão próximos do Hospital Santa Clara e não levará mais que 20 minutos até lá. Na ambulância aguarda o motorista no banco da frente e um enfermeiro na parte de trás quando sai pela porta o médico com a caixa especial para transporte de órgãos com refrigeração autônoma. Ali dentro está o rim de uma menina de 11 anos vítima de uma bala perdida, bom nível de compatibilidade com a garota que está sendo operada pelo doutor Eduardo, não um nível perfeito, mas um bom nível. O médico corre em direção a ambulância, sobe na traseira e acomoda a caixa. Apalpa os bolsos do jaleco, da calça, faz tudo de novo e pragueja um “Caralho!”, porque deixou para trás as autorizações da mãe da doadora e a sua ficha médica. Pede para aguardarem dois minutos e sai novamente correndo para dentro do hospital. O motorista continua de olhos fechados e cabeça apoiada no assento. O enfermeiro olha curioso para o caixote.

Fez curso técnico numa instituição não muito qualificada e os órgãos que vira já eram velhos, banhados em formol. Como seria aquele rim pronto para transplante? Que mal faria abrir a caixa e dar uma olhada? Sabe que sofrerá represálias se o pegarem fazendo isso, mas é rapidinho. Destrava os fechos e, com cuidado, abre a caixa. Vê o órgão mantido vivo artificialmente. Vão adorar ver isso, é o que ele pensa. Pega o celular no bolso e, com a câmera frontal, tira uma foto ao lado do seu novo amigo. Está sorrindo enquanto pensa na legenda que colocará na foto e nesse momento vê que o médico está voltando, ainda correndo. Nervoso, fecha a caixa de qualquer maneira e enfia o celular no bolso. O médico não parece notar nada ao entrar na ambulância. Tudo que diz é “Vai logo, motor!”.

Sexta-feira
07h43min

Não toma café nessa manhã. Mal dorme. A mulher pediu para ele que não fosse trabalhar. Mas nessa idade só precisavam de um motivo para manda-lo embora, e aí o motivo da tristeza seria dobrado. Além do que já haviam se passado dois dias. 63 anos é tempo suficiente para um homem descobrir que a vida não faz nada, além de seguir.

Terça-feira
12h41min

A sala já tem mais quatro médicos, além dos universitários de plantão que pretendem acompanhar a cirurgia. Outras seis enfermeiras chegam para auxiliar. A hemorragia do pulmão está contida por ora e o inchaço abdominal cedeu razoavelmente. Os sinais vitais poderiam ser mais fortes, mas são o suficiente. Entra pela porta uma outra enfermeira com a caixa na mão. Todos se preparam. Eduardo está estabilizando a garota. Está na hora.

- Meu Deus.

Os rostos cobertos pela máscara e pela touca se viram para a enfermeira, que está paralisada. O doutor Eduardo manda que acelere e a mulher não responde. Decide ir até lá para fazer sozinho, pedindo para seu assistente assumir os instrumentos. Chega na mesa em que está a caixa e trava.

- Que brincadeira é essa?

Ali dentro tem um rim. O problema é que o rim mais parece um pedaço de carne de segunda velho e estragado, enegrecido pela podridão, um resto de churrasco. O cirurgião toca o órgão com a mão e sente a alta temperatura. O sistema de refrigeração estava desligado. Ao fechar rapidamente a caixa, o enfermeiro não prendeu direito as travas e impediu que a circulação se mantivesse em baixa temperatura, o que, aliado ao calor da cidade, garantiu a inviabilização do rim. Eduardo mandou o assistente manter a garota estável e saiu pela porta sem dar explicações.

Na sala de espera estão o motorista e o enfermeiro, aguardando o médico que veio com eles e que estava no banheiro. Eduardo Pereira Filho se informa com a secretária sobre quem eram os dois e se aproxima do motorista, segurando sua garganta com a mão direita cheia de sangue da cirurgia.

- Quem foi que vedou a caixa de transplante? Quem foi, caralho?

O rapaz engasgava e só conseguiu falar quando Eduardo alivia a pressão, negando saber e dizendo que era apenas o motorista. O doutor se vira para o outro que estava petrificado, apoiado no balcão segurando seu celular. Larga o motorista e foi ter com ele:

- Foi você? Foi você que vedou?

O enfermeiro fazia que não com a cabeça e murmurava uma negação, olhando de soslaio para o celular.

- Que porra tem esse celular? Que porra tem de importante? — perguntou Eduardo, tomando o aparelho de sua mão e perdendo a voz ao olhar para tela.

A bem da verdade, a foto fora um sucesso. Mais de 20 pessoas já haviam comentado, enquanto pelo menos 80 curtiram. E era essas curtidas que o enfermeiro verificava quando Eduardo tomou seu celular. O retrato com o rim avermelhado era curioso para seus contatos. Para o doutor, um pouco menos.

Largou o celular no chão e gritou:

- Seu cretino filho de uma puta, eu vou matar você! — e nesse momento acerta o primeiro soco com a mão direita no rosto do enfermeiro, que tenta se apoiar no balcão mas cai na segunda pancada. Eduardo montou por cima dele e continuou esmurrando seu rosto que já misturava seu próprio sangue com o sangue da garota, sangue que o médico ainda carregava nas mãos. Ainda gritava “Seu filho da puta cretino de merda”. Foram nove socos, pelo que nos consta. O processo que Eduardo viria a responder mais tarde, por lesão corporal, afirma terem sido mais de 20 — provavelmente um exagero da parte do enfermeiro.

Terça-feira
16h50min

Hora oficial do óbito: 16h50min
Causa mortis: falência múltipla dos órgãos
Nome da paciente: Maria Luiza Bezerra

Quem preencheu foi o médico assistente. Eduardo saiu da sala quando a garota morreu. Não pôde fazer mais nada, ainda mais com sua mão inchada.

Terça-feira
17h14min

- Boa tarde.

O médico ou não ouviu ou fez que não ouviu, mas Severino insistiu. Diminuiu o passo e repetiu:

- Boa tarde.

Levantando os olhos lentamente, Eduardo encarou o moreno queimado e velho com todo o vazio que carregava. As cinzas do cigarro caíram no chão e ele num tom estúpido respondeu.

- Doutor.

Severino ergueu as sobrancelhas também brancas e peludas como quem não entende.

- Bom dia, doutor — deixou claro o cirurgião Eduardo Pereira Filho, colocando cada um no seu devido lugar, soltando a bituca no chão depois de uma última tragada.

Passaram-se poucos segundos entre a resposta do doutor — não cometeremos o engano de novo — e a reação do faxineiro. Poucos constrangedores segundos. Os olhos de Severino inundaram, mas não transbordaram. Recobrou-se. Entendeu.

- Peço desculpas, doutor. Sou gente humilde e gente humilde as vezes faz dessas ignoranças, mas não há de se repetir. Passar bem. Doutor.

Sexta-feira
08h30min

Depois das 48 horas de folga, Eduardo volta ao hospital. Não dormiu, apagou sem descansar. Nem sequer sabia o nome da menina, não preenchera a ficha de óbito. Lembra do seu rosto moreno e o que mais incomoda é a sensação de que aquele rosto era familiar. Passa pela recepção de cabeça baixa mas faz meia-volta antes de entrar pelo corredor, indo até a secretária.

- Você sabe me dizer se aquele faxineiro moreno, cabelo branco brilhante penteado para trás, está aqui hoje?

A secretária parece surpresa.

- O seu Severino?

Não sabe o nome do homem, então dá de ombros. “Acho que sim”.

- Doutor, ele está aqui. A gente ficou até surpreso por ele ter vindo trabalhar, né, com tudo o que aconteceu.

- Como assim tudo o que aconteceu? — parecia ser o último a saber de uma história popular.

- A garota era neta dele, doutor. A que o senhor operou — e, sem pensar, completou — e morreu na terça.

Arrependeu-se em seguida.

O rosto cansado de Eduardo parece envelhecer alguns bons anos. As bolsas embaixo dos olhos aumentam pelo menos uns oito quilos de peso cada uma, pelo tanto que afundam. As pupilas ficam minúsculas por alguns instantes. Os mesmos instantes em que os ouvidos ouvem um zumbido desgraçado.

- O senhor está bem, doutor?

Precisou de tempo para responder. E não respondeu à pergunta. Se respondesse, seria não. Fez outra no lugar.

- Onde eu o encontro? Responda! Onde eu o encontro?

- Doutor, eu acho que ele é responsável pela retirada do lixo hospitalar, o senhor deve encontra-lo na saída de serviço.

Sem um agradecimento, Eduardo vira-se e começa a correr. Ninguém notou, só nós: algumas lágrimas estão ali em seus olhos. Ignoranças.

Sexta-feira
10h03min

Já está esperando há mais de uma boa hora quando Severino sai pela porta empurrando o contentor — tem que recolher de toda ala superior, leva tempo. Ao notar a presença do médico, o faxineiro recua. Ficam em silêncio. Severino volta a andar, o segredo é não ser notado.

- Espera, eu preciso falar com você — falou Eduardo, segurando o faxineiro pelo braço e sentindo os músculos do braço do velho nos seus dedos. Geme de dor por conta da mão. Algum osso quebrado, com certeza.

Severino se esquiva. Sorri.

- Não precisa se preocupar, doutor. Não vai acontecer de novo.

O médico tenta falar, mas é interrompido.

- O senhor me dá licença, doutor, que já vou porque o dia mal começou e tem muito lixo pra recolher.

Eduardo Pereira Filho se cala. Maria Luiza parece muito com o avô. Enquanto se afasta, Severino Bezerra deixa para trás apenas o barulho das rodinhas de plástico do contentor de lixo batendo no concreto.


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