Poderia ser evitado, se não fosse…

A criança era pequena quando conheceu o mundo. Começou a estudar bem cedo. Vivia sorrindo em meia luz, mas por um descuido social, tornou a brincar com bonecas. Era um absurdo! Todos avistavam, e as testemunhas, elas, elas estavam aterrorizadas. As outras crianças ouviam: “afastem-se, é um monstro!”, sem nada entender. Ele persistia com aquela boneca loira, mas depois de tocar naquele carrinho, tornou-se o macho alfa, o orgulho da sociedade, mesmo com dois anos de idade. Alguns anos mais tarde, chorava muito, especialmente quando sofria nas mãos dos outros Homens. Dos gigantes, ouvia frases como “você é homem, engole o choro” e isso “é coisa de menina”. Ele, nem bobo, nem nada, persistia, e chorava, e chorava. Queria exalar sua dor. Horrorizava ainda mais. Os professores preocupavam-se. Seria este uma aberração da sociedade? Seria este quem iria destruir tudo e trazer a extinção da raça humana? Cena de outros capítulos.

A criança já não era mais criança. Era pré-adolescente e envolvia-se com meninas, mas não todas. Veja a Paula, a Gabriela, a Mariazinha. Todas dando mole para você! Não vai fazer nada? Não?! Frouxo! Tinha que ser igual a todos; o garanhão, o pegador. Este era o exemplo, mas, por um descuido social, viu que interessava-se absolutamente nada por futebol, aterrorizando seus Amigos, especialmente quando, nem basquete, o mesmo desejava saber. Queria mesmo era tomar nota de romances e filmes do Woody Allen. Filmes de ação? De guerra? Tudo bobagem… mas apenas entre aspas. Na realidade, esses que eram os filmes de Homem. Mulherzinha assiste Woody Allen. Mulherzinha chora todos os dias, com o lenço em mãos. Isso é coisa de mulher, inclusive, minha senhorita, mesmo que juvenil, traga-me um pouco daquele jantar de ontem!

O pré-adolescente já não era mais pré-adolescente. Era adolescente. Envolvia-se mais e mais com as meninas, e seu baseado, carregava em mãos, sendo chamado de vagabundo e criminoso por tudo e por todos. Gostava de ler e de jogar videogames, enquanto os Meninos engravidavam as meninas. Seus Amigos, pouco se lixavam. Quando a Mariazinha, a menina puta do condomínio, que tanto deu mole para ele sem ela saber que dava mole para ele, engravidou de Joãozinho, tornou-se mais puta ainda. A culpa era dela, se não por causa do interesse dela. Diziam que se ela tivesse prevenido-se, nada aconteceria. E pior: a culpa era dela. Não há argumentos. O rapaz, que tanto insistiu em não utilizar a bendita da camisinha, nada tem a ver com isso. São todas putas. Engravidam para ganhar dinheiro. Já o nosso adolescente, que jamais havia sequer ejaculado, foi taxado como um nada pela sociedade. Era um frouxo, diziam. Podia ter comido a Mariazinha, também. Poderia ser mais um naquele corpo amaldiçoado dela. Na verdade, para a idade dele, ele tinha era que comer todo mundo, desde que não fosse homem. Não. Homem, não. Não, outro homem, não. Isso Deus castiga. Deus não quer ver isso. Tá na Bíblia, mesmo que ela tenha sido escrita por… homens.

O adolescente já não era mais adolescente. Era quase-adulto. Fazia sua graduação e frequentava suas festas, embora que do seu jeito. Ainda nutria a fama de viadinho. Fazia parte das donzelas quase-masculinas do bairro. Jamais havia tocado em uma bola de futebol, por isso, era viado. Não gostava de lutas, por isso, era marica. Não comia todas as meninas, por isso, não honrava os seus próprios testículos. Não traia sua amada, por isso, era santinho demais. Só fazia Aquelas Coisas apenas com aquela ruiva-falsa-esquelética. Era uma desonra aos homens. Aliás, que esquelética?! Ela pesava 60kg, mas era gorda. Uma completa desvairada, uma anormal qualquer. Era uma gorda, uma baleia, e nada mais que isso — a não ser palavras chulas. Uma completa idiota. Nem seus dotes educacionais valiam. Aliás, lembram-se quando ela perdeu a virgindade com o Paulinho? Então. Ela, além disso tudo, é puta. Deus me livre. Esse cara não honra o pau que tem. Como, Paulinho, o pegador, o gostosão, pôde comer uma mulher assim? Que vergonha, Paulo! Que vergonha!

O quase-adulto já não era mais quase-adulto. Era homem, formado. Era qualificado, e com aquela gorda, completamente desvairada, completamente horrenda, baranga, puta, descabelada, havia se casado. Chamaram-no de gay em vão. Os seus conhecidos, que apresentavam-se como amigos, acabaram sozinhos: um, está embriagado em suas próprias mágoas; o outro, está preso, após ter agredido a sua ex-noiva — ela passa bem, eu acho. Alguns dos que tanto julgaram-no como viadinho, como aberração, estão nas maiores boates gay do Rio de Janeiro, entregando seus corpos àqueles pobres rapazes — mal eles sabem a podridão que é o corpo em que beijam neste exato momento. Um deles, encontra-se em situação pior: é casado, com uma mulher. Um exemplo de pessoa, paga de santo, mas dá para a metade do condomínio. E ah, ele gosta. Liga todas as madrugadas pedindo mais. E aqueles que tanto incomodaram-no, no estereótipo estúpido, ao verem-no bem sucedido, morrem enquanto mordem o próprio veneno, ato que poderia ser evitado, se não fosse… vocês sabem.