Quem vive na casa do vale?

Morei minha vida toda no norte rural de Nevada, Estados Unidos, onde as colinas são douradas ao por do sol e os adolescentes sonham em ir para Las Vegas. Era domingo e eu estava me divertindo com três amigos, bebendo em casa, quando decidimos chamar mais pessoas e organizar uma festinha. Ligamos para algumas pessoas e fomos para o deserto.

Dirigimos em direção a lugar nenhum por uma estrada poeirenta, procurando um local onde pudéssemos atirar em latas e escutar música no volume máximo sem sermos incomodados. A cinquenta quilômetros de distância da rodovia, estávamos no meio do deserto selvagem e a estradinha simplesmente terminava ali.

Alguns amigos e amigas conseguiram seguir nosso rastro e nos encontraram. Nós armamos as mesas e cadeiras, ligamos o som do carro e começamos a beber. Os rapazes já estavam manejando os rifles, enquanto as garotas reclamavam e os chamavam de idiotas arrogantes. Alguém trouxe um baseado e todo mundo se reúne para dar uma tragada. Sugiro que escalemos a colina mais próxima, como um lugar mais interessante para curtir a brisa da maconha.

Quando chegamos lá em cima, vemos que depois da colina há um vale e lá está uma construção aparentemente antiga. Parece uma fazenda ou algo assim. “É hora de explorar, amigos!”, eu digo. Reúno todos e os convenço que isso vai ser incrível. Ainda são umas quatro horas da tarde, então temos luz de sobra para ir e voltar.

À medida que nosso pequeno grupo de desbravadores se aproximava da fazenda, percebemos o quanto aquele lugar parecia mais e mais assustador. Quando chegamos na frente da casa, as mulheres estavam assustadas demais para entrar. Um portão de ferro muito maior que o portal da casa barra a entrada, apenas encostado. Nós o puxamos e deixamos que ele caia com um estrondo ensurdecedor.

Aparentemente, se trata de uma casa dos anos 40 muito chique. O chão está cheio de merda de rato e tudo está coberto com uma grossa camada de poeira intocada a décadas. É estranho como todas as coisas ainda estão lá: camas com travesseiros e cobertores, candelabros, livros, móveis, pinturas e fotografias antigas. Em um quarto enorme há um projetor com um filme apodrecido nele e poltronas. As pessoas que moravam lá eram obviamente ricas. Nos perguntamos por que nada daquilo foi levado, vendido, destruído ou roubado.

Encontramos um guarda-roupa com roupas de todos os tipos, inclusive algumas fardas antigas que parecem militares. Talvez do período da segunda guerra. Há inclusive uma garagem com um carro conversível que, apesar dos pneus murchos, ainda parecia capaz de funcionar. Aquele local parecia todo deslocado. Uma sensação estranha começou a tomar conta de mim. Os objetos daquela casa pareciam fora de lugar, imitações antigas de coisas que existiam no mundo.

Apesar de todo o medo que sentíamos, nada de ruim aconteceu para nós naquela espécie de chácara. Era só um sentimento de angústia generalizada. O sol já estava se pondo, então voltamos para nossos carros sem olhar para trás.

Ao chegarmos, ligamos um grill na bateria e começamos a fazer churrasco. O meu amigo Dan, um cara gordinho e às vezes meio inadequado socialmente, comia como se nunca tivesse experimentado um hambúrguer na vida. Nós somos vizinhos desde sempre, então tiramos sarro um do outro o tempo todo.

Ele se aproxima, com a boca lambuzada de molho e diz que gostaria de ir embora. Faço uma piada, perguntando se ele já conseguiu comer toda a carne, mas ele permanece sério. Tento fazer com que me explique o que está acontecendo, mas ele não consegue dar uma resposta direta. Nesse momento eu estava conversando e bebendo com uma ruivinha muito linda, então o ignoro. Era um dia excelente, apesar daquele lugar tenebroso atrás da colina.

Brent, outro amigo que veio junto, decide sair à procura de um pouco de lenha ou algo que servisse para alimentar uma fogueira. Quando voltamos está todo mundo silencioso, observando um cara que acabou de chegar, saindo do escuro. Acendemos a fogueira e perguntamos o que ele está fazendo ali, no meio do nada. No começo, todo mundo estava meio assustado, pensando que ele era um psicopata ou algo assim. Mas a aparência do estranho era bem normal: um cara com um moletom de capuz, mais ou menos da nossa idade, com cabelos pretos compridos e uma cicatriz na boca. Até meio bonito de uma forma misteriosa.

Ele disse que estava apenas caminhando por aí. Alguém pergunta: “Você sabe como isso é assustador? Alguém caminhando sozinho no meio do breu absoluto, no deserto…”. Ele assente olhando para as chamas. Uma garota continua: “É, ele é tipo um hipster totalmente creepy com essa história de caminhada no deserto, sabe? Um creepster.” Todo mundo gargalha com esse comentário, inclusive o rapaz de capuz, e todo mundo meio que relaxa.

Convidamos o rapaz a sentar e beber com a gente. Não sabíamos muito bem como lidar com ele, mas apesar do seu jeito rígido de sentar e observar fixamente enquanto conversávamos, não havia nada de muito bizarro nele. Era como qualquer pessoa super tímida no meio de um grupo desconhecido.

Ficamos ali por algum tempo, bebendo e jogando conversa fora. A menina que eu estava dando em cima foi para casa com os amigos. O pressentimento ruim de que algo faltava retornou e comecei a entrar em pânico sem razão. Passava da meia-noite e algumas pessoas já tinham ido embora, então decidi começar a empacotar minhas coisas. Falo para Brent chamar Dan, pois já íamos. Ele respondeu que não via Dan há mais de uma hora.

Perguntamos para todo mundo se eles tinham visto nosso amigo, mas ninguém sabia de nada. Pegamos uma lanterna e demos uma volta pelo deserto, gritando o nome dele, sem sucesso. Ligamos para o celular dele e mandamos mil mensagens, sem resposta. Terminamos de colocar as cadeiras na mala e saímos com o carro, buzinando e rodando pelo deserto, mas o desgraçado estava completamente desaparecido. Voltamos para o local, numa última tentativa de achá-lo. Nos convencemos que ele deve ter ido com outro grupo sem avisar e decidimos partir.

No entanto, antes de partir, vemos o cara do capuz sentado sozinho perto da fogueira. Aparentemente, todo mundo assume que ele é nosso amigo e que é nossa responsabilidade. Ele parece realmente solitário e Brent sugere que a gente ofereça uma carona. Eu me sentiria um babaca deixando uma pessoa sozinha para trás ali. O rapaz aceita com um aceno e saímos daquele fim de mundo.

Quando estamos chegando na cidade, pergunto onde ele quer ficar. O homem do capuz responde: “Av. Calle de la Plata”. Eu e Brent nos entreolhamos, pois aquela é a rua onde eu e Dan moramos desde sempre. Meu estômago afunda como uma bola de chumbo e eu suo frio o resto da viagem de volta. Ninguém fala mais nada no carro.

Deixamos o rapaz na esquina da rua e vamos até a casa de Dan ver se ele realmente já chegou. Quando perguntamos à mãe dele se ele está, ela nega. Não queremos assustá-la sem motivo, então Brent e eu vamos embora. Não alertamos as autoridades porque tínhamos receio que aquilo era pura paranóia nossa. Dormi muito mal aquela noite, imaginando o que teria acontecido.

No dia seguinte, Brent diz que conseguiu falar com Dan e combinamos de ir até a casa dele esclarecer a história. Algumas das pessoas do dia anterior estão lá, assistindo um filme na sala, inclusive a ruivinha. Nós perguntamos onde diabos aquele gordo estava. Dan fala irritado que ele estava lá com a gente o tempo todo. Nós reclamamos, dizendo que ele está mentindo, que nós o procuramos por umas duas horas. Mas as pessoas que estavam lá, sentadas no sofá, concordam com Dan. Eles nos dizem que a gente ficou ignorando ele quase a festa toda para ficar com o cara de capuz.

Eu e Brent perdemos completamente as estribeiras com aquilo. Gritamos que nós nunca iríamos trocar nosso amigo por um maluco que aparece do nada, caminhando na escuridão. Todo mundo fica em silêncio. Dan replica: “Mas ele veio com vocês…”. As pessoas estão nos olhando como se fôssemos dois malucos. Eu saio dali puto, enquanto Brent fica e continua questionando as pessoas.

Fiquei semanas sem falar com Dan depois daquilo. Uma noite ele me ligou e conversamos até altas horas da noite sobre o incidente. Na versão dele da história, nós chegamos com aquele cara à noite, na festa, e começamos a chamá-lo de creepster, tirando sarro dele o tempo todo. As pessoas começaram a ir embora porque ficaram desconfortáveis com a gente agindo feito malucos com um cara desconhecido. Ele disse também que tentou ir embora com a gente, até bateu no vidro pedindo para o cara do capuz avisar a gente que ele ia conosco, sendo ignorado completamente. Quando perguntei sobre a chácara do vale, ele não fazia idéia do que eu estava falando.

Alguns meses depois dessa última conversa, me mudei para Carson City e perdi o contato com Dan e Brent. Nunca fui atrás de procurar aquela fazenda abandonada, mas pretendo fazer isso algum dia para saber qual das histórias é a certa. A verdade é que tenho um pouco de receio de descobrir.

Acabei de olhar o celular e percebo que, enquanto escrevia essa história, houveram três chamadas perdidas de Brent e uma da casa de Dan. Ligo primeiro para Brent e quem atende é a mãe dele chorando, incapaz de articular as palavras corretamente. Alguém bate na minha porta.

Baseado livremente em uma lenda urbana extraída do http://boards.4chan.org/x/

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