Reencontrando Rocky

Às vezes nos aparece a oportunidade para uma experiência cinematográfica rara e especial. E em algumas dessas oportunidades, mais raras ainda, a experiência é dentro da nossa própria casa. Na companhia de pessoas e filmes que já conhecemos, e que tem um significado especial para nós. Tanto os filmes, quanto as pessoas. É o que conto aqui.

Um dia, ao conversar com minha esposa sobre diversos assuntos que nos interessam (que nesse dia em especial giravam entre cultura pop, os anos 80 e sua trilha sonora, músicas grandiloquentes, e animais de estimação) eu lembrei daquela velha história sobre o primeiro filme da série Rocky. Diz a lenda que Sylvester Stallone estava tão quebrado na época anterior ao filme que precisou vender seu cachorro por uma merreca pra um cara em uma loja de bebidas por não ter grana sequer pra alimentar o bicho. E que o vendeu, e saiu chorando pra rua depois disso. Minha esposa ama os animais, é louca por cachorros e esse detalhe fez com que ela se lembrasse que não conhecia tão bem a saga do Garanhão Italiano, Rocky Balboa. E que jamais tinha assistido o primeiro filme.

Ela conheceu Stallone um pouco mais tarde, já astro de primeira grandeza de Hollywood. Assim como eu, assistiu muitos dos filmes dele nos cinemas e nas Telas Quentes da vida pelo fim dos anos 80 e início dos 90. Mas sendo uma menina na época, dentre as temáticas dos filmes do Sly, o boxe era o último que lhe interessava. Sendo assim, acabou passando a vida inteira sem conhecer “o longa-metragem que deu origem à série”. Comentei com ela o contexto da ambientação do primeiro Rocky, o quanto o filme era um retrato de uma época e momento, e mais alguns detalhes que lembrava sobre a produção e sobre como ter sido aquele filme com um ator azarão desconhecido e de cara torta o vencedor do prêmio de melhor filme no Oscar de 1977. Isso somado à miséria imaginativa que anda o cinema de hoje em comparação com o de tempos passados, e a dificuldade em encontrar filmes para assistir que realmente atinjam nossos sentimentos foram razões suficientes para que ela se interessasse em conhecer (e eu re-encontrar) a história do Sr. Balboa.

E foi quase como se eu tivesse assistido ao filme pela primeira vez. Tela da TV pronta, busca no Popcorn Time, e começa a seção. Percebi com certa curiosidade que a última vez que assisti Rocky deve ter sido há pelo menos uns 20 anos atrás. Percebi também que mais da metade da experiência que tinha com esse filme era através de sua trilha sonora. Ponto para o Bill Conti. Então assim que a sessão começa somos apresentados a uma Filadélfia setentista suja e decadente, um suburbaço. Referências à vadiagem, ao crime, à lowlife americana (Warriors de Walter Hill, Taxi Driver de Coppola) muito retratada no cinema da época. Puxando uma referência de hoje em dia, lembra um pouco alguns cantos da zona portuária e centro do Rio de Janeiro, só que obviamente fria. Começa aí a observação adulta dos detalhes de uma obra que não é tão simples e unilateral quanto parece.

Minha esposa reparou (logo de cara) no quanto o cenário, os planos abertos e as cenas onde o ambiente é um personagem tão presente quanto qualquer um dos humanos na tela. A fotografia não envelheceu. Embora a linguagem, o ritmo e alguns outros detalhes de estilo deixem evidente que o filme é de uma outra época, a fotografia continua bela na tela grande e muito mais interessante de se ver nos detalhes da Filadélfia detonadaça do que numa telinha de TV dos anos 80/90. É muito agradável assistir a um filme querido de nossa infância ou adolescência e perceber que ele passou na “regra dos 15 anos” com louvor. Ponto pra Rocky Balboa. Por incrível que pareça, assistir o filme numa tela maior permitiu absorver detalhes que arriscavam passar batidos pra quem o assistia nos Supercines da vida. Desde as fotos de infância do Rocky/Stallone, até o pôster de Rocky Marciano na parede de seu apartamento zoneado, o mesmo pôster que ganhou uma decoração em volta no período de festas, como se fosse a árvore de natal da casa. Desde a decoração maluca e opressiva na casa de Adrian e Paulie, com um quadro na parede que chega a se quase perturbador, digno de um set de filmes de terror, até uma bancada onde se pode ver uma foto de um agora beberrão Paulie mais jovem em um uniforme militar. Um detalhe pequeno, mas que adiciona muito mais dimensão e mesmo que através de meras suposições, permite desenhar um pouco melhor as motivações (e desmotivações) de vida da persona de um dos maiores zés manés que Hollywood já produziu.

Parece o Santo Cristo, mas é a Filadélfia.

Pude prestar mais atenção no desenvolvimento da história de Rocky e Adrian, já que o filme passava totalmente picotado na Globo. Diversas cenas mostrando a futura Sra. Rocky gradativamente deixando de lado sua famosa timidez. As cenas do relacionamento entre os irmãos Adrian e Paulie, que muito mais por meio de subtexto do que do texto propriamente dito mostram o quanto Adrian era uma mulher adulta anulada pela pena e pelo amor/ódio que sentia pelo irmão fracassado e beberrão. E o quanto o relacionamento com o brutamontes miolo mole mas de bom coração fez com que suas vidas entrassem em um círculo virtuoso de suporte mútuo. Uma bela analogia do que um bom casamento deveria ser: não uma união de dois seres perfeitamente ajustados, mas uma equipe onde um é capaz de auxiliar onde o outro é mais deficiente. Com Paulie, Adrian não fazia uma boa equipe…mas com Rocky sim.

Também tivemos a oportunidade de ver e analisar pela primeira vez a personagem de Apollo Creed (“o Doutrinador” na memorável tradução brazuca) em toda sua complexidade e abrangência. Apollo trazia a referência clara ao período pós luta pelos direitos civis, pós Panteras Negras, ao início da percepção da sociedade americana como um todo para a ascensão de uma classe média negra e urbana, que chegava mostrando que vinha para ficar. Apollo mostrava aquele novo negro americano, que se conscientizava de sua importância para o processo de nação, que exigia sua cidadania como algo natural e não um favor ou uma dívida histórica. Era o eco da blaxploitation, era o eco do surgimento dos Bill Cosbys, dos Richard Pryors, dos Jacksons. Tudo isso muito bem sintetizados na memorável cena da entrada triunfal de um Apollo negão vestido de George Washington num barco, que depois se livrava da fantasia de George e assumia a persona de um Tio Sam. É impressionante ver o quanto de simbolismo os caras conseguiam enfiar numa cena. Hoje em dia há filmes inteiros onde não se consegue metade da sutileza e de riqueza de assuntos contidos somente nessa cena desse filme de 1976, quase quarenta anos atrás.

Uncle Sam wants YOU

Terminamos de assistir o filme bastante satisfeitos. Minha esposa, que tem muito pouca paciência para o ritmo dos filmes mais antigos ficou positivamente impressionada. Confessou ter gostado muito mais do que jamais esperava gostar de um filme “de boxe”, “do Stallone”, e “dos anos 70”. Acabou percebendo que muito mais que essas 3 características apontadas, Rocky se trata de um singelo elogio à superação, ao agarrar as oportunidades com todas as forças que se tem, e ao poder transformador de uma relação saudável, mesmo entre pessoas vindas de ambientes nada propícios a isso.

Quanto a mim, foi um maravilhoso reencontro. A famosíssima cena nas escadarias do Museu de Arte da Pensilvânia ainda está impressa na minha mente. E a música, que já fazia parte da trilha sonora da minha vida há pelo menos 30 anos, hoje só está tocando mais alto.

Até a próxima, Rocky!
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