Resolvendo problemas com a máfia

Um disco de vinil gira na radiola de madeira. O som ruidoso faz a ópera Pagliaci reverberar pelo pequeno restaurante. Em um dia comum, a essa hora, mesas e cadeiras de madeira estariam cuidadosamente dispostas pelo centro do estabelecimento e os empregados já estariam preocupados com os clientes que chegariam logo. Entretanto, hoje não é um dia comum. E apenas uma mesa redonda está posta, com talheres para três pessoas.

Na cozinha, o cheiro das almôndegas sendo seladas se misturam ao aroma do cheiro verde, que ferve em fogo baixo, junto ao molho de tomates. Na pia, três porções exatamente iguais de massa al dente ainda liberam vapor. O Cozinheiro serve-se de uma taça de vinho tinto caseiro, retirado da adega centenária de sua família, e bebe, degustando e identificando lentamente os ingredientes utilizados na produção da bebida.

Ele cozinha com ritmo tal qual a música é reproduzida por sua vitrola. Faltam quinze minutos para o jantar e ele sabe que tudo estará perfeito quando o sedã preto estacionar na única vaga disponível em frente ao “Take the Cannoli”.

Sim, o nome do restaurante é, obviamente, é uma referência a “O Poderoso Chefão”. A produção inspirou a decoração e tornou-se um guia para a gestão de sucesso de pequenos empreendimentos — ao menos é nisso que o Cozinheiro acredita piamente. Ele não esperava, contudo, ser obrigado a colocar em prática qualquer coisa além das frases geniais escritas por Puzo e Coppola.

O Cozinheiro mistura cada porção de massa com parte do molho e das almôndegas. Nesse mesmo instante, um sedã preto estaciona na única vaga disponível em frente ao “Take the Cannoli”. Nesse mesmo instante, um pequeno vidro com pó branco está colocado em uma bancada, ao lado do fogão.

Dois homens entram no restaurante. Um sino, preso à porta, avisa o Cozinheiro de sua chegada. Ele leva duas taças e a garrafa de vinho tinto caseiro, retirado da adega centenária de sua família. Sem dizer uma palavra, cumprimenta os homens com um olhar e enche suas taças até a metade. Um dos homens tenta iniciar um diálogo e é, imediatamente, repreendido.

– Falaremos de negócios depois do jantar. — disse o Cozinheiro, caminhando de volta à cozinha.

O Cozinheiro segura, habilmente, três pratos de massa com molho e almôndegas, cuidadosamente adornados com uma folha de manjericão. Nesse mesmo instante, os homens, já sentados na mesa redonda, se entreolham e provam o vinho. Nesse mesmo instante, um pequeno vidro, vazio, está na lixeira ao lado do fogão.

Sentados à mesa, os três se deliciam lentamente.

O vinil está quase no fim. Os pratos, quase limpos. A garrafa, vazia. As bocas, manchadas de molho. Os revólveres, escondidos sob os paletós. O pó branco, chegando aos estômagos dos dois homens. A rota de fuga, na mente do Cozinheiro.

O vinil trava em um arranhado do disco.

As cabeças dos homens caem sobre os pratos.

O Cozinheiro se levanta e sai, pela porta dos fundos, rumo ao Panamá.

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