
Sentidos Perdidos
Naquele domingo de sol quente, manhã agradável, com a promessa de coisas boas, eu acordei ignorando tudo isso, estava ansioso e preocupado. Aguardava pelo momento e pelas palavras que não seriam bem vindas, mas que seriam aceitas.
Você chegou, logo me deu aquele abraço longo e gostoso, apertado, que desde o primeiro dia derruba meus sentidos e raciocínio, que mexe comigo, e não tenho como esboçar resistência, e acho que você sabe disso, te abracei de volta e me perdi no meio dos seus cabelos e o cheiro maravilhoso dele, como eu faço todas as vezes que te vejo. É irresistível.

Você me olhou, e na profundeza dos seus olhos eu vi que estava sem rumo. Você disse algo também, não consegui entender nada, perguntei e você repetiu, “estava com saudades.” e me beijou.
Quando você perde os sentidos por algo dessa forma, você compreende que os sentidos nunca foram seus para controlar. E você só consegue observar atônito, o privilégio que é sentir tudo e não entender nada.
Tudo isso durou apenas um minuto, talvez dois. Na verdade não tenho a menor ideia. Mas foi um daqueles momentos que você tatua em um espaço interno na sua mente, algum lugar do cérebro, ou do coração, onde ficam guardadas as suas memórias inesquecíveis.
Tipo o dia que o Senna morreu, sabe?

As vezes, na vida, precisamos de algo assim, de um desses momentos que faz você sair do seu corpo e enxergar tudo por outra perspectiva. As vezes, precisamos lembrar que algumas coisas são impossíveis de não lembrar. As vezes, precisamos ver de verdade para entender que não ver vai ser muito pior.
A arrogância de estar certo é que não existe certo, existem caminhos. E a humildade é enxergar que qualquer caminho serve. Tudo depende do que você quer.
Eu morri nesse dia, tenho plena consciência disso, meu coração parou e meu cérebro desligou, mas de alguma forma continuei de pé. E principalmente, minha morte não foi em vão, pois dela surgiu a oportunidade de enxergar.
E algumas oportunidades não se apresentam duas vezes. Se você não enxergar, elas vão escorrer por entre os dedos rapidamente.

Quando ler esse texto novamente daqui alguns meses, ou daqui alguns anos, espero ter total compreensão do que eu mesmo escrevi. Hoje, eu compartilho minha mente, na esperança de que faça o mesmo sentido que fez para mim. Quem sabe mais.
Amanhã, espero escrever sobre aquilo que falta.
“É só dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade.” — Friedrich Nietzsche