Solidão (no) coletivo

Glaiciane, mas pode ser Glaycyane, Glayciane ou Glaicyane, é estudante universitária, tem 29 anos e trabalha em uma área diferente daquela que está em formação. Apesar de não estar em ofício no ramo de sua futura profissão, ela gosta bastante do emprego e não cogita largá-lo tão cedo. E olha que sei de tudo isso sem, nem mesmo, ter dado um bom dia a ela.

- Ah, não amiga. Tenho sete anos já lá no trabalho. Lá ninguém me fala nada, se não quiser ir eu não vou, não preciso de atestado, não abre feriado, não abre domingo. Ontem mesmo eu mangueei por causa da faculdade e ninguém reclamou. Não vou sair não — diz ela naturalmente em tom de voz bastante elevado para quem está com um fone no ouvido, carrega o celular na bolsa e se mostra em dificuldade para passar o corpo largo pela roleta do ônibus e, em seguida, caminhar pelo corredor cheio. Isso às 8h.

Ela segue falando sobre a vida boa no trabalho com a amiga até que para na escada de acesso a cadeirantes, bem em minha frente. Pouco depois que ela estaciona o corpo no primeiro degrau da escada, a amiga diz que precisa desligar. Glaiciane, vamos dizer que a grafia do nome dela é essa, faz cara feia, mas aceita. Passa alguns segundos digitando no celular, possivelmente mandando mensagem. De repente, recoloca o fone no ouvido, dá um sorriso malicioso e diminui o tom de voz.

- É Graziela?

Do outro lado da linha, a pessoa possivelmente diz que sim.

- Você mora onde? — pergunta como quem tem vergonha de expor o conteúdo da conversa.

Depois de ouvir a resposta, Glaiciane diz que mora na Garibaldi. Possivelmente a interlocutora questionou o local exato da moradia dela porque ela passou a explicar como chegar em sua residência.

- Sabe onde é o Hospital Santo Amaro? Então, você vai direto, vai direto, vai direto. É perto da Vasco da Gama, perto do Dique, perto da Lapa.

No mesmo embalo, mais uma pergunta:

- Você tem quantos anos?

- É novinha! Eu tenho 29, mas as meninas dizem que entrei no formol — rebate Glaiciane de uma só vez logo depois de ouvir a idade de Graziela.

A conversa entre as duas continua por alguns minutos. Glaiciane diz que trabalha no centro, “pertinho de casa”, e dá a entender que Graziela vende roupas em loja.

- Deus me livre trabalhar assim. Eu não ia aguentar não. Ainda mais fim de ano com um monte de gente entrando e pedindo pra experimentar. Se você pegasse uma cliente como eu, você iria ver — diz rindo e já sem se importar se os outros passageiros do ônibus escutam sua conversa.

Meu ponto havia chegado. Por alguns momentos pensei em descer um pouco na frente só para acompanhar mais alguns minutos. Mas o bom senso prevaleceu e deixei Glaiciane e Graziela conversarem e se conhecer melhor na solidão de um ônibus cheio.

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