Trago


Sorria. Gargalhava depois de um trago no amor. Tinha aprendido com ele a experimentar o amor dessa forma. Sempre fora curiosa, mas não tinha coragem. Não antes de conhecê-lo em uma esquina do mercado municipal e perceber todo o amor que dele emanava.

Juntos, descobriram o sabor daquele amor em cada fim de semana juntos. Amaram. Tragavam na mesma intensidade e compartilhavam em uma mesma sintonia tudo o que sentiam com aquilo.

Mas foi naquele fim de tarde que as coisas se modificaram no quarto. Enquanto tragavam o amor, não perceberam que essa mesma droga já havia corroído muitas coisas entre eles. O respeito, a lealdade e até a afinidade. Já não viviam um pelo outro, apenas buscavam a satisfação daquele mesmo trago.

A felicidade instantânea não era espontânea. As gargalhadas, sem nem saber o motivo, eram resultado daquele amor que os dois compartilhavam por alguns bons minutos, ouvindo música boa e apreciando o luar.

De repente, como por arrependimento ou decepção, Fabiane virou-se para o lado e chorou. Amargamente. Doloridamente. A sensação era completamente diferente de um milésimo de segundo atrás. Não sabia, mas era a consequência daquele trago mais profundo. Não havia considerado os efeitos colaterais daquele amor, principalmente por ter experimentado e viciado em tão pouco tempo.

Olhou para o lado e também notou que ele chorava. Era estranho, porque Davi nunca chorava.

E em um a vontade de abraçar era maior que no outro. Mas não se tocaram.

Desistiram, os dois, de tragar aquele amor e buscaram outra forma de senti-lo: distantes.