Uma carta de um carioca desiludido

Como um amor incondicional encontrou o seu temido fim (ou está perto disso)

Por que insistes em ficar tão cinza diante dos meus olhos e coração, Rio?! Quero tuas cores de volta! | Foto Bruno De Blasi

Subir a Rua Alice, às 19h, em plena quinta-feira, é meio complicado. Eu confesso que tenho um pouco de medo de andar por ruas como essa e bairros como o Alto da Boa Vista de noite, especialmente de ônibus. É que meus amigos já passaram bastante perrengue nesses lugares. Eu fico pensando se aconteceria comigo, o que não aconteceu até hoje, graças a Deus. Porém, eu amo a Rua Alice. Eu tenho amor incondicional por Laranjeiras. Aquele bairro é como se tivesse corpo, alma e coração compatíveis com os meus. Não consigo definir que lugar seria o coração — embora eu brinque que seja na São Salvador, por questões de vício — , mas a alma está entre as árvores, e o corpo, bem… acho que entenderam.

O problema é que eu não estou me sentindo mais assim com o Rio. Isto é, parece que perdi o brilho. Foi de 2013 para 2014 quando comecei a amá-lo, mas, também, a odiá-lo. Parece que o Rio só fica bonito com Tom Jobim no fundo, e só. Eu comecei a sentir as suas garras, as suas amarras, os seus feitiços e sua magia negra que envolve certos corações, assim como senti a sua alma, como senti o espírito da São Salvador, senti a brisa do Arpoador, o encanto do Parque Lage, as casinhas bonitinhas e antigas de Santa Tereza, o coração do Bairro de Fátima, como senti a emoção da Saens Pena, enquanto imaginava aqueles cinemas antigos e comecei a odiar, de fato, aquela Igreja Universal — não pela religião, deixando claro! — por estar em um lugar que, talvez, fosse o mais frequentado por mim hoje em dia.

Sim, foi em 2013 que comecei a conhecer a cidade fora dos livros de história. Meio vergonhoso, não acham? Mas foi porque eu finalmente senti confiança em mim e percebi que papai e mamãe nutriam do mesmo sentimento, permitindo me aventurar por essas terras. Isso tudo começou em 2011, quando eu era apenas um fedelho morador de Jacarepaguá que jamais havia desbravado (sozinho) terras que não fosse onde eu morava e a Barra da Tijuca. Comecei a estudar na Tijuca, bairro deveras conhecido por mim desde a infância. De lá pra cá, conheci o perigo: fui assaltado pela primeira vez. Entendi porque o sistema de ônibus é ruim e aprendi a amar, mais ainda, a Tijuca. Descobri que não apenas os ônibus da Grupo Redendor e Litoral existiam. Aprendi a temer o 410 e 422, mas a sobreviver apenas do 409, 433, 432 e 439 e como, realmente, a cidade parece outra do outro lado do túnel. No aperto, descobri que metrô é uma coisa para ser louvada, embora isso aqui (perdão!) se pareça com uma extensão dos Trens Que Não Andam Sobre Trilhos, digo, SuperVia. Enfim.

Com alguns amigos novos, aprendi a desbravar mais ainda. Pela primeira vez, fui ao Méier sem ser de passagem e vi que o subúrbio meierense é legal. Andando pelas ruas da Zona Sul, aprendi a me virar sem meus pais. A São Clemente e a Voluntários tornaram-se um amor e tanto, porém, desbravei Laranjeiras como um explorador e apaixonado. Eu andava pela Rua das Laranjeiras, como sempre andei, maravilhado com o verde que me rodeava. Porém, foi em 2013 que a mágica iniciou. Eu e meu melhor amigo descobrimos que o BikeRio existia. Nos domingos, pegávamos ônibus e corríamos para a Zona Sul com câmeras na mão, ideia que durou até o começo de 2014, e intensificou o meu amor pela cidade.

Resultado da brincadeira, embora eu tenha feito essa foto sozinho em outubro (ou novembro?) de 2014 depois de uma DR e corri para Ipanema para relaxar | Foto Bruno De Blasi

No final de 2013, arranjei meu primeiro emprego. Como exigência, só comecei a trabalhar na empresa em janeiro de 2014, pois eu precisava fazer um curso. De lá, aprendi a amar as ruas do Centro. A Carioca dominou o meu coração. Eu podia muito bem pegar meu ônibus para casa na Presidente Vargas, mas eu ia andando até o Castelo só para passar na Starbucks da Gonçalves Dias ou na Cavé, e, de lá, ir para casa, depois de ficar boquiaberto com aquilo tudo. Comecei a amar aqueles becos e encruzilhadas. Aquelas ruas minúsculas com paralelepípedos e pedras portuguesas, aqueles prédios portugueses. A influência da Belle Epoqué intensificava o brilho do meu coração. Eu achava a Rio Branco um máximo. Um dia, eu fui arrumadaço só para entrar no clima da rua. Depois percebi como eu fui um idiota e fui largado com uma câmera na mão. Tirei fotos, quase fui roubado. Tomei café na Starbucks, peguei o metrô na Cinelândia. Fechei os olhos, no meio da praça, e imaginei a imensidão de cinemas ali. Quando abri, um homem esquisito me encarava. Não sabia o que ele queria, então, corri para a estação. Parecia um sonho.

De lá pra cá, Botafogo entrou no meu coração e decidiu brigar com Laranjeiras para dominar tudo. Copacabana, tadinha, apanhou, porque eu nunca gostei de lá. Para se manter rígida contra Botafogo e Humaitá, Laranjeiras chamou a Urca, Flamengo, Cosme Velho e Jardim Botânico. A briga começou. Leblon e Ipanema estavam ocupados demais com o trânsito da Barra, ficando quietos enquanto ouviam Bossa Nova. A Gávea também. A Tijuca lamentava de longe a traição, que desde criança, cativara-me na casa da vovó, e por isso, apagou as luzes da estação Saens Pena e me deixou preso lá, dentro de um trem, por dez minutos. Jacarepaguá estava nem aí. Tinha trânsito demais na Geremário Dantas para cuidar. Para Jacarepaguá, seria até melhor. Diria: “Menos um!”.

Foi isso que aconteceu. Foi isso que ocorreu. Eu andava pelas ruas desses bairros e me sentia em um filme. Não. Que mané filme! Era real! Eu senti o coração pulsando nos meus pés. Era como se as calçadas me olhassem para mim, dizendo “don’t go away, we love you!”, e eu acreditava. Porém, a descoberta desse amor me levou a conhecer todos os problemas da cidade, e, conforme eu viajava, eu percebia isso com mais calma. Eu via o cinza escuro do asfalto mandando eu acordar, enquanto o Cristo, lá do alto, junto com a Igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde fui batizado, me amparavam. Eu estava ficando dividido. Era atropelado pelos sinais lotados da Rio Branco na altura do Edifício Central.

Quero de volta a tranquilidade que eu tinha por saber que eu morava no Rio, que nem esse cara (ou melhor, O Cara!) sempre teve

Tudo parecia perder sentido. Eu via os problemas dos ônibus. Eu sentia as dores do transporte público. O atendimento de qualquer coisa pecava, o preço, mais ainda. A cada ano que passava, era uma facada em meu coração com os aumentos incessantes na passagem e com uma obra com falta de planejamento que aparecia de repente. Certo dia, fiquei trinta minutos entre uma estação e outra, porque faltou luz. Um dia, precisei de ajuda, pois estava perdido. Um polícial me mandou ir à merda, quando lhe perguntei. Disse que eu tinha que me virar. Quando fui subir as escadas rolantes, não sabiam lidar com elas. Todos estavam parados à esquerda, e eu atrasado (por culpa do metrô). Eu ia para Ipanema para correr. Não porque estava feliz ou fosse um ser saudável, coisa que nunca fui. Alguém pivete me encarava e vinha atrás de mim. Eu corria e ele vinha atrás. Os taxistas me deram medo até a chegada do Uber por aqui, salvando a minha pele. Na 28 de Setembro, aguardando um ônibus para Jacarepaguá, às 00h30, somente via-se ônibus vindo da Zona Sul. Dei sorte e consegui um que me deixaria no meu bairro, mas bem longe da minha casa. Chegando lá, me deparei com mais problemas. Presenciei o BRT sendo construído e tudo indo por água abaixo. Viajei para São Lourenço, em Minas Gerais, lugar que tanto passei minha infância, sentindo o desespero de quem mora por aqui. A falta de educação nas ruas me tomou e se enrolou no meu pescoço. Fui para Gramado, em 2015. Tudo funcionava. As pessoas eram educadas. Os clientes eram atendidos com sorriso nos olhos. Aqui, nada disso acontecia, e parece que nunca vai. Quando você reclama, é sempre o “para de frescura e aceita!”. Fui para São Paulo. Nunca vi tanta evolução. No Tietê, em pleno sábado de manhã, vi o metrô chegar em menos de dois minutos. Quando abri o Twitter, meus amigos reclamavam de atraso de 10 minutos em São Cristóvão. Cheguei em Bela Vista em poucos minutos, um trajeto mais longo e muito mais complicado que da Saens Pena até a Zona Sul. Eu cheguei mais rápido, pois a composição parou apenas nas estações. Eu vi a Paulista lotada de dia e de noite. Eu vi as ruas do Rio ficarem desertas às 20h. Sim, às 20h. O medo tomou o meu coração. Não havia mais vida nas ruas; a intervenção urbana morreu. Tom Jobim já não era trilha sonora. Na real, havia músicas dele, mas as mais tristes. Tudo isso ocultou a beleza da cidade. Eu estava começando a me sentir só.

E agora, José? É a pergunta que vive no meu coração. Sou carioca, mas estou desiludido, me sentindo um derrotado. O Eduardo Paes matou aquilo que eu chamava de cidade. Na terça-feira, no ponto de ônibus, depois de ter ficado 30 minutos esperando um ônibus para o Leblon, comentava com uma mulher (de São Paulo), que conheci no ponto de ônibus, como era a vida por aqui. O ônibus não apareceu: fui obrigado a pegar um táxi, porque já era quase 00h. Eu lembro da Afonso Pena, da Saens Pena. A cidade tinha vida. É pegar as fotos das décadas de 1970 à 2000 e ver outra cidade. O Rio era mais vivo. Cadê o Tivoli Park? Por que a gente não tem mais vida nas ruas? Utilizar a praia como desculpa é furada, porque a cidade não é só praia. Quer ter uma noção? Não tem praia na Tijuca, não tem praia no Méier, não tem praia em Jacarepaguá, não tem praia em Laranjeiras. Por que eu deveria sair de perto da minha casa para me divertir? Eu quero sair de casa, ir à esquina e me divertir. Não tem como. E, se eu for para alguma praça com meus amigos, eu vou ficar com medo. É um deserto que só.

Por que fazes isso comigo, Rio? Por quê?! A beleza do chorinho da São Salvador não oculta os seus vestígios de maldade. Eu choro, todos os dias, desesperado, querendo fugir de ti. E você pisa em cima de mim, esmaga e força mais, rindo do meu sofrer. Você me faz querer fugir com os meus filhos, que são meus frutos e méritos que criei nesses vinte anos de carioquice. Por que não és mais a cidade que eras, quando eu era criança e quando eu não era nem plano na cabeça dos meus pais? A cidade perdeu a cor, perdeu suas forças. A natureza, de viva, tornou-se morta. Tudo perdeu suas cores, até mesmo os ônibus. São poucos os dias aqueles que me permitem suspirar aliviado por dizer “graças a Deus, eu moro no Rio!”. Muitos são aqueles que respiro e digo “me tira daqui, por favor”. O Cristo que vejo da janela do meu quarto, de colorido, vive de luto, se visto pelos meus olhos. Renderam-lhe e retiraram a sua coroa. O cartão postal não é mais esse. Hoje, somente quem vem de fora se maravilha com a sua beleza, ou aquele que, assim como eu em 2013 e meados de 2014, pegou uma câmera e decidiu explorar a cidade e descobriu sua beleza inexplicável.

Rio, me faça sorrir como eu sorri ao chegar em casa e ver essa foto no meu computador, por favor | Foto Bruno De Blasi

Hoje, dia 31 de março de 2016, em Laranjeiras, eu entrei de luto. Foi o meu amor que morreu, ou, sei lá. Talvez esteja adormecido, quem sabe? Assim espero. Eu ia do Centro ao Largo do Machado e via a cidade, seus prédios e suas formas. Eu me maravilhava com cada formato de edifício, enquanto ouvia Tom Jobim cantando Vinícius. Ao chegar no nosso querido larguinho, uma banda tocava reggae. Aquela confusão da Praça Saens Pena da Zona Sul era maravilhosa. Parecia que o som do fone de ouvido ecoava com as notas emanadas pelos objetos que estavam ali ao meu redor. Eu passava na Gago Coutinho, lembrava das tardes no Parque Guinle, lembrava do Parque Lage. Na minha memória, o chorinho e a santa cachaça da São Salvador eram imagens frequentes. Andava pela Rua das Laranjeiras e lembrei da primeira vez em que pisei naquele bairro e me apaixonei. Lembrei do Fluminense, meu amor que não é tão amor assim porque eu não gosto de futebol. Aquelas árvores abraçavam o meu coração. Fui para casa com outro ar, com outro suspiro. Minha pele parecia suar, mas eram lágrimas de felicidade que duraram até eu atravessar o túnel e recordar de tudo. Por que fazes isso comigo, meu amor? Por que não voltas para mim? Fico insólito, sentado na janela, observando o Cristo Redentor, aguardando que venhas até a minha pessoa, que me tragas o consolo necessário, o amor incondicional que nutri por 17 anos, e que, hoje, escapa das minhas mãos. O que devo fazer, ó, Redentor? Redentor, preciso de tua benção, pois minha alma está a queimar com as vestes negras desses agentes de terno e gravata que hoje estão na ALERJ, Palácio da Guanabara e Cidade Nova matando o meu amor e acabando com a minha paz. Por favor, Redentor, há de me salvar e resgatar o meu amor. Rio, eu te amo. Você é dono das minhas melhores crônicas. Você é o coração das manhãs que perdi sentado em uma padaria tomando média com pão na chapa e lendo O Globo, mas, por favor, não me faça te perder! O que devo fazer?!


Escrevi essa resposta acima há um tempo, citando alguns problemas que eu venho criticando há um tempo. Vale a pena dar uma conferida!