Bonappetit

Uma história de Natal

Em toda casa, em toda família, em todo lugar a história se repete.

Por algum motivo resolveram passar o natal numa casa de praia. Era uma casa grande, bem grande, e a família também grande foi se achegando e se acomodando como deu. Dois entre todos eram cristãos. O resto estava dividido entre os que não se importavam com isso, entre os que acreditavam em Deus mas não muito e um desgarrado que se declarava judeu. Nada disso tinha muita importância, todos estavam lá pelo natal, inclusive o judeu. Que importava mesmo era a reunião familiar, a comida, a bebida e, com importância destacada, sair da realidade por uns momentos de alívio. Porém, como é de praxe, e sendo de praxe, aconteceu: veio também aquele integrante da família indiscutivelmente desagradável e discutivelmente querido. Às vezes nem parente é. Às vezes é marido de uma prima da qual se gosta muito e por cortesia acaba sendo convidado. Às vezes é parente, sim. Um primo mentecapto que nunca é convidado mas, por milagre ou azar, parece sempre ser o primeiro a saber de todos os planos — fazendo questão de se incluir de uma maneira estritamente irrevogável.

Lá estava a família na casa grande de praia, portanto. Com o agregado obrigacional ao pé da mesa, fazendo sua presença ser notada com frequência. É natal, todos pensam e sorriem resignados, época de amor. É difícil amar esse primo, conhecido, tio, colega. Mesmo no natal. Mesmo na ceia da noite anterior ao natal, momento que se passa agora. Está um rebento mais novo — não tão novo assim, mais de vinte anos e uns pelos no rosto — servindo-se com alegria: lombo recheado, tender e agora corta o peru com maestria e precisão, um pedaço perfeito, nem magro demais, nem gordo demais, saboroso, suculento. Surge o primo e enfia o garfo no pedaço cortado, colocando no seu prato. Nota o desagrado do rebento.

- Era seu, rapaz — diz com falsa surpresa. — Há, há! Achado não é roubado.

Dá uns cutucões com o cotovelo nas costelas do rebento e sai se divertindo. É natal. Na mesa, todos conversam animados enquanto comem e bebem e comem e bebem. Um familiar advogado comenta dos problemas no trabalho, uns causos curiosos. O parente bate na mesa.

- Advogado, sei — coloca ironia na voz. — Melhor trabalho do mundo, há, há!, o estagiário faz tudo e você recebe os frutos.

Alguns forçam sorrisos. Invariavelmente esse parente tem uma ocupação profissional duvidosa e uma condição financeira constantemente frágil. Mesmo assim, parece saber de tudo quando um outro familiar, esse dono de uma construtora, reclama do preço dos materiais com a inflação.

- Preço, ora essa — ergue as sobrancelhas. — Você coloca areia no concreto, fica baratinho que eu sei, não é, não é?, questiona.

O familiar, esse dono de uma construtora, controla-se e executa a respiração que aprendeu com a filha, eminente profissional do yoga, mantendo a calma e mudando de assunto. Os outros ficam constrangidos e irritados. Ninguém diz nada, e essa é outra situação de praxe. Esse tio, primo, parente, agregado nunca é enxotado. Vai entender.

O tempo vai passando e a conversa continua. O parente parece ter se aquietado e ninguém se importa quando ele demonstra um desconforto. Já é quase natal, diz alguém após olhar para o relógio. Todo mundo permaneceria no clima natalino sem nem perceber o acontecimento se não fosse pela quantidade de arroz e peru — aquele mesmo roubado do rebento, ainda deixou quase tudo — voando através da mesa quando a cabeça do parente caiu sobre o prato. Estava apagado, tombado sobre as comidas. Ficaram todos surpresos e atônitos. Alguém cochichou.

- Ih, rapaz, acho que não está respirando.

Os outros concordaram.

- Nesses casos dizem que é melhor não mexer, tem que chamar quem entende.

Concordaram outra vez.

Ligaram para os bombeiros. A conversa foi meio estranha, olá, acho que ele morreu, pois é, do nada, ah sim, entendo que demore, é natal, mas aguardamos, não tenha pressa, feliz natal para você também, bom serviço, Deus abençoe. Quem falava ao telefone era um dos que não se importavam muito com isso de Deus. Avisou aos outros que os bombeiros estavam vindo, talvez demorassem um pouco, natal é mais movimentado. Acenos com a cabeça. Um silêncio por um tempo, sinal de respeito ao cadáver, ao menos pelo que parece, entre nós. Uma conversa aqui, uma resposta ali e logo a conversação voltou, afinal era quase natal. E o espirito natalino não pode morrer.

Faltavam exatos treze minutos para a meia-noite natalina quando a campainha soou. Eram os bombeiros. Dois, para ser mais exato. Um cabo e um soldado. Foi atender o familiar comerciante. Demorou para voltar, quatro minutos — a porta não ficava longe. Quando voltou, veio rindo com os braços sobre os ombros do cabo do Corpo de Bombeiros.

- Essa vocês não vão adivinhar — divertiu-se, e quando ninguém adivinhou, continuou. — Esse é o Sereno, que estudou comigo no Colégio Militar! A gente não se vê há o que, vinte anos, Sereno? Que coincidência! Coisa de natal, mesmo.

A família comemorou o reencontro. Insistiram para que os dois aguardassem um pouquinho, coisa rápida, só pela chegada do Natal, para não passarem sozinhos. O cabo concordou e até aceitou um golinho de cerveja, que ninguém é de ferro. O soldado até tentou:

- Cabo, e o corpo?

Ouviu um já, já, até pensou em tentar de novo, mas acabou começando uma conversa com a eminente professora de yoga e assim o defunto foi deixado de lado de uma vez.

Essas comemorações são difíceis de acabar, a gente bem sabe. Um golinho aqui, um golpezinho na pinga ali e quando se vê a noite virou dia e o galo está cantando a glória do menino Jesus. Quem acorda é, ironicamente, o judeu. Desce para a copa onde estava sendo a ceia, ainda toda bagunçada da noite anterior, e se pergunta o que é que aconteceu, não se lembrava direito. E aquele chato de galocha, onde é que estava ele não sabia dizer. Pensou que era um assunto muito sério, um morto na ceia de natal, e portanto alguém necessariamente teria tomado conta de resolver a situação. Assim deixou o assunto de lado, certo de que estava resolvido. Não pensou mais nisso. E a mesma coisa fez cada um que acordou depois dele, até o último familiar, sem que ninguém tivesse realmente feito alguma coisa em relação aquilo. A ambulância dos bombeiros não estava mais lá, então tudo deveria ter corrido bem. Ninguém lembrava do fim da noite — como em toda boa noite -, e ninguém se deu ao trabalho de entrar no assunto.

Agora é hora do almoço, restos da ceia, comida deliciosa. Alguns seguem na cerveja, a maioria prefere coca-cola. O clima é ameno, agradável. Risadas, piadas, coisas do tipo. Combinando de irem para o mar mais tarde, o tempo está se abrindo, afinal. Tudo conspirando. Ah, o natal. Está tudo muito perfeito quando ouvem a porta da frente se abrindo e uma corrente de ar frio entrando junto com os passos. Pouco tempo depois, a voz diz animada.

- Bom dia, família!

Sabe-se lá como, ele voltou. Ou ela. Ou ele e ela. O parente incômodo que não tem forma definida, mas que sempre está lá. Não houve resposta. Só uma certeza silenciosa em cada um dos presentes.

O milagre de Natal fora adiado.