NY Portraits

Vendedor de sonhos

Não sei quanto tempo faz, talvez quatorze anos, um pouco menos, nada abaixo de dez, isso com certeza. Eu era miúdo, de moleque, mas comprido de gente quando o vi pela primeira vez. Tenho a impressão de que estava com meu pai. Usava um chapéu branco, óculos escuros, idoso e corcunda, de calça social e camisa, um sapato bem conservado, mesmo sem ser novo. Carregava na mão um bolo de raspadinhas da loteria. Talvez eu estivesse mesmo com meu pai, acredito ter perguntado o que ele fazia, mas não sei se tive resposta. Provável que não, porque por muito tempo achei que aquele velho fosse um beberrão, um boêmio — naquela época eu não sabia o que era um boêmio, então não devo ter pensado no termo, mas na descrição do adjetivo.

Enquanto moleque eu voltei a vê-lo várias vezes e foi minha mãe quem me disse: ele não é bêbado não, meu filho, ele vende jogos da loteria. Perguntei por que alguém vendia jogos da loteria se havia uma loteria na cidade, minha mãe respondeu que era mais fácil assim. Depois de descobrir que o velho não era um bêbado, todas as minhas lembranças com ele pela rua contam com uma garrafinha d’água, o chapéu, a calça social, a camisa e os sapatos bem conservados. Óculos escuros de vez em quando, por aqui nessa cidade a gente tem recebido visita do sol mais ultimamente, antes vinha pouco, sem vontade. Fui crescendo e ele continuou subindo e descendo com suas raspadinhas.

Um pouco mais tarde, eu já não era miúdo de moleque, era adolescente e ainda mais comprido. Eu e o velho passamos, em algum ponto sem definição, a nos cumprimentarmos. Usual aceno de cabeço, sorriso, oba, tudo bem, tudo bem, os dois perguntando sem responder. Comecei a fazer um caminho diferente para voltar da escola, porque a nova escola ficava em lugar diferente. Esse caminho passava na frente da casa do velho, que eu não sabia ser a sua casa e vim a descobrir passando lá em frente. Constantemente o encontrava ali com seu cãozinho, pequenino vira-lata de classe e orgulhoso, sempre ao pé do velho vestido por um sapato bem conservado, uma sandália de vô nos dias mais descontraídos. Depois da primeira vez, sempre o via com seu cãozinho, igual a garrafa d’água — isso é, se não estivesse com as raspadinhas, nesse caso o cãozinho ficava em casa descansando para o velho trabalhar. Às vezes os dois caminhavam no mesmo passo com o sol já indo embora, o cãozinho sem coleira e ambos em silêncio, provável fruto de uma amizade já solidificada, daquelas que dispensam palavras e só são possíveis com os melhores humanos, poucos, e todos os cães.

Na rodoviária ele conversava com alguns mendigos, duas moças e uma senhora. Não sei do que falavam. Fosse o que fosse, ele tomava água em alguns intervalos, secava a testa com as costas da mão e sorria. Essa cena aconteceu num tempo em que eu pouco ficava por aqui; depois dela, o velho parecia conhecido de todo mundo, sempre metido em uma conversa animada com os mendigos, com os policiais, com o cãozinho silencioso e orgulhoso.

Hoje eu o vi de novo. Estava particularmente ensolarado e ele usava óculos escuros. Numa mão, raspadinhas; n’outra, garrafinha. Não sei quanto tempo faz da primeira vez que a gente se cruzou, talvez catorze anos, certamente não menos que dez. Dez já é bastante e o velho parece o mesmo. Talvez depois que atinjam um certo ponto da velhice, os velhos deixem de envelhecer. Ficou mais curvado, eu acho. O resto parece idêntico. Não vai levar muito tempo até que ele deixe de caminhar pela cidade vendendo os jogos da loteria; chegará o momento, não tão distante, em que ele partirá. Eu só não sei se essa cidade está pronta para isso, porque esse velho é parte das ruas, do asfalto, do comércio. De mim. É parte do cenário, um elemento indispensável da pintura. Até a cidade esquecê-lo.

Eu torço para que o cãozinho esteja bem e morra antes do velho. Ele não parece pronto para perder um amigo.