Uma pedra dessas pode acabar com a sua vida. (Fonte: Pexels.com)

Você pode morrer amanhã. Já pensou sobre isso?

Outro dia estava indo à padaria que fica próxima ao meu trabalho quando um carro prestes a entrar em um dos vários estacionamentos privativos da região acelerou o motor.

Os pneus traseiros derraparam e, como estavam sob uma superfície de pedras soltas com mais ou menos o tamanho de pequenas batatas, fizeram com que uma delas saísse voando e passasse bem próxima da minha canela.

Claro que não foi nenhuma experiência de quase morte. Mas depois de assistir A Sete Palmos (Six Feet Under), fiquei um pouco mais pessimista que de costume.

A série fala sobre uma família que possui uma funerária. Essa é uma descrição simplista e não direi muito mais do que isso. Faça um favor a si mesmo e assista o quanto antes. É uma das melhores obras produzidas para a televisão.

Quem já assistiu sabe que todos os episódios começam com a “morte da semana”.

Nos primeiros minutos, somos apresentados a alguma pessoa (que normalmente não faz parte do casting fixo da série) vivendo normalmente, em situações comuns do dia a dia, até que morre. Simples assim.

Seja dormindo ou em situações inusitadas, como ser atropelado enquanto se distrai com várias bonecas infláveis voando e imaginando que são anjos.

A questão é que nenhuma dessas mortes é absurda. Elas realmente podem acontecer com qualquer um.

Pensei em como podemos morrer a qualquer momento, nas situações mais estranhas e ridículas possíveis.

Não seria impossível que aquele mesmo carro, ao acelerar e derrapar com os pneus, tivesse arremessado a pedra alguns centímetros acima e acertasse minha cabeça.

Dependendo da força eu poderia cair morto ali mesmo, enquanto me decidia se comeria pão de queijo ou biscoito calipso.

Outro dia li uma notícia sobre uma senhora que estava andando pelo centro da cidade quando foi atingida por um pedaço da roda de um caminhão.

Como esse pedaço de roda atingiu essa senhora?

O pneu do caminhão explodiu e a força que essa explosão gerou foi tão grande que quebrou um pedaço de ferro e o arremessou em linha reta.

Para o azar de outra pessoa.

Aquela senhora saiu de casa, foi fazer as suas compras e da forma mais inesperada possível, teve a vida encerrada por um pedaço de ferro arremessado a mais de 150km/h em sua cabeça. Ela provavelmente deve ter morrido antes de cair no chão.

Não tem como ser mais aleatório que isso.

Eu sempre tive dificuldade em lidar com a questão da morte, seja a de quem eu amo ou a minha própria.

Quinze anos se passaram e eu ainda me sinto profundamente afetado pela morte da minha avó.

Eu tenho um pavor enorme de morrer de forma consciente, por assim dizer.

Aquele tipo de morte em que você sofre antes de morrer. Afogamentos, incêndios, acidentes de carro em que você se machuca tanto que vai falecendo aos poucos.

Ou qualquer uma dessas doenças que nos destroem pouco a pouco até não termos mais nenhuma força para lutar.

Se eu pudesse escolher minha morte, seria dormindo. Sem sentir absolutamente nada. Sem ao menos me dar conta de estar morrendo.

Simplesmente dormir e não acordar mais.

Infelizmente não podemos escolher esse tipo de coisa.

Também não podemos ter medo de viver pensando que a qualquer momento podemos ser atingidos por um galho de árvore que caiu pois estava podre e não aguentou o peso de um pássaro mais gordinho.


Dizem que a vida é um sopro e acho uma frase muito sensata.

Em 2012 eu estava com alguns amigos esperando para atravessar a rua quando uma garota foi atropelada por um ônibus bem na minha frente.

A pancada foi tão forte que ela foi jogada a uns cincou ou seis metros de distância.

Eu já fiz curso de primeiros socorros com bombeiros (bem diferente daquele que nos obrigam a fazer para tirar carteira de motorista), e na hora eu não pensei muito bem. Quando dei por mim, já estava sobre o corpo da garota.

Ela estava com o rosto virado para baixo, o sangue correndo em direção ao meio fio e ao lado dos seus cabelos havia pequenos pedaços que, em um primeiro momento, pensei que fossem fragmentos de ossos.

Ela estava completamente imóvel. E alguns segundos depois o corpo começou a convulsionar.

Todo o corpo dela começou a tremer e a pular, e a única coisa que eu podia fazer naquele momento era simplesmente não deixar ninguém tentar mover o corpo.

Nessa hora eu comecei a chorar, pois tive certeza que estava presenciando uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida morrendo literalmente nos meus braços.

Foi a maior sensação de impotência que tive em toda a minha vida.

Uma pessoa tão nova que ainda estava usando uniforme de escola morrendo ali na minha frente.

A noção de tempo fica confusa em uma situação como essa e parece que tudo isso durou vários minutos. Mas tenho quase certeza que não passou de trinta ou quarenta segundos.

De repente o corpo parou de tremer e ai sim eu tive certeza que estava morta.

Uns dois ou três segundos depois ela se virou e acordou gritando e chorando.

Eu não acreditei que ela estava viva.

A pancada foi muito forte, tinha muito sangue e, até então, pensava que ela tinha sofrido um traumatismo craniano daqueles que realmente racham a cabeça da pessoa em vários pedaços.

Quando ela se virou, o que eu achei que fossem fragmentos de ossos do crânio eram na verdade os dentes dela.

Tentei acalmá-la e perguntei se ela sabia o que tinha acontecido. Ela não fazia ideia de onde estava e que tinha sido atropelada.

Fiquei conversando com ela pedindo para continuar deitada, sem se mover, e explicando que ela tinha sido atropelada e precisava ficar ali até o socorro chegar.

Alguns minutos depois, o resgate do Corpo de Bombeiros chegou para terminar de socorrê-la.

O meu dia acabou a partir daquele momento.

Eu estava com as mãos sujas do sangue de alguém que eu nunca tinha visto na vida, que minutos atrás eu jurava estar morrendo em meus braços.

Mesmo acordando, pensei que ela deveria estar toda machucada por dentro.

Eu não estou exagerando quando digo que a pancada foi forte.

Assim que a ambulância dos bombeiros saiu, liguei para minha mãe.

Eu não sabia o nome da garota, mas vi a escola pelo uniforme e tentamos identificá-la para que alguém avisasse aos parentes o que tinha acontecido.

Eu não tinha a menor condição psicológica de fazer isso.

Algum tempo depois minha mãe me ligou de volta. Tinha conseguido falar com a escola, identificaram a garota e comunicaram aos pais.

Mais tarde, naquele mesmo dia, minha mãe me ligou de novo falando em qual hospital ela estava internada. Como imaginei, era no pronto socorro de Belo Horizonte, que ficava relativamente perto de onde eu trabalhava.

Assim que meu expediente terminou, fui para lá saber como ela estava.

Eu esperava uma notícia parecida com “ela está internada com várias fraturas” ou algo do tipo. Mas quando cheguei lá, a enfermeira da portaria me recebeu com: “Ah, ela já teve alta e foi pra casa com a família”.

Por essa eu não esperava. Não depois de vê-la naquela situação.

Fiquei muito feliz em saber que não tinha acontecido nada mais grave.

No dia seguinte a irmã dela me ligou para agradecer. Nos tornamos amigos e até hoje temos contato.

Hoje ela tem um filho de dois anos.

O que eu quero dizer com essa história é que eu tenho certeza que naquele dia, ao acordar, trocar de roupa, sair de casa, conversar com seus amigos e sair da escola, em nenhum momento ela pensou que seria atropelada por um ônibus.

Simplesmente aconteceu. E felizmente ela sobreviveu para contar a história.

A gente nunca está preparado para a morte. E depois de assistir Six Feet Under eu estou ainda menos preparado.

Eu entendo e aceito que a morte é a única certeza que temos em nossa vida.

Não existe nenhuma outra situação que podemos dizer que todo ser vivo enfrentará em algum momento.

Você pode estar fazendo planos para o futuro agora e daqui a pouco tropeçar em uma tampa de boeiro, cair de cabeça no chão e morrer na hora.

Adeus planos. Adeus vida. Adeus amigos e parentes.

Talvez eu precise procurar algum tipo de terapia para trabalhar essa questão. O fato é que nenhuma outra obra me afetou tanto quanto essa série. A ponto, inclusive, de mudar os meus hábitos de vida.

No começo do ano eu já estava um pouco chateado por estar bem acima do peso. E quando fiz um exame de sangue, os resultados foram os piores possíveis. Colesterol alto, pré-diabético. Com chances de ter um AVC ou um enfarto a qualquer momento.

Eu já estava assistindo a série e já vinha remoendo esses pensamentos em relação à morte.

No dia seguinte procurei uma equipe especializada em emagrecimento saudável, que envolve reeducação alimentar e atividades físicas.

Em cinco meses emagreci quase vinte quilos e, refazendo meus exames nas últimas semanas, todos os meus níveis voltaram para a normalidade.

Eu não tenho como evitar um acidente que possa me matar, mas se eu posso evitar uma morte relacionada à problemas de saúde, é melhor não arriscar.

Talvez esse pessimismo todo seja bom para me colocar pra frente. Talvez não.

Mas depois da série comecei a colocar em prática os planos que sempre adiei ou dei desculpas para nunca começar.

Como não sei o que pode acontecer amanhã, quero pelo menos ter a certeza de que não deixei de fazer alguma coisa que sempre quis pensando que tinha toda umavida pela frente para realizar.

Vai que eu não acordo amanhã?