Westworld: um robô pé no chão vale mais que dois fanboys que embarcam no hype

Não comprei o hype. Não embarquei no trem de Westworld de maneira eufórica. Pelo menos não como a maioria dos que vejo louvando a série com 100% de sentimentalismo e 0% de raciocínio. A partir do momento em que fiz isso, consegui aproveitar com gosto tudo o que a série tem de melhor. Como “véi” que sou, que chega ao ponto de ter assistido em algum lugar perdido nos anos 80 o filme original dos anos 70 (no qual a série se baseia), desconfiar de hypes é meio que uma segunda natureza. Infelizmente quem embarca no hype geralmente não consegue perceber algumas minúcias que tornam a vida tão mais saborosa e variada. A velocidade do trem do hype deixa a paisagem borrada.

Westworld (1973): Meninos, eu vi.

Dito isso, é bom deixar claro: no que diz respeito à série, os acertos superam em muito as eventuais falhas. Talvez o único problema real de Westworld (talvez seu único defeito de importância considerável) seja uma questão estrutural. É bom lembrar que o criador do filme original, Michael Crichton (ele mesmo) só ficou realmente famoso junto a um grande público depois de Jurassic Park. Antes, mesmo tendo muitos de seus projetos transportados para o cinema, com sucesso até maior que um Stephen King, por exemplo, ele ainda não era mainstream suficiente. Só após o fenômeno dos dinossauros que seu nome teve um aumento considerável de reconhecimento. Desta forma, a série basear-se em um filme de ficção dos anos 70 (cult, porém bastante despretensioso) para ser uma obra que pretende discutir assuntos com um nível de profundidade filosófica e implicações morais de um Ghost In The Shell ou de um Blade Runner, é como tentar adaptar um motor de Porsche num Celta. Até pode ser que dê pra se fazer, mas a estrutura original irá sentir a potência maior do novo conteúdo e poderão aparecer rachaduras no chassi.

Ghost in the west? Shellworld? Westshell?

À medida que as discussões e implicações filosóficas do aumento da perfeição e da consciência dos anfitriões com relação às dos humanos evoluem na trama, vai ficando meio cambeta a idéia de que se criou uma verdadeira nova forma de vida, verdadeiros replicantes, com zilhões de possibilidades e implicações na própria dinâmica da vida humana na terra, e eles ainda serem usados primordialmente como brinquedos em um parque de diversões pra ricos. Se essa ideia não for desconstruída no futuro da série, meio que contrariando o próprio material em que a série se originou, pode acabar criando mais e mais inconsistências de roteiro. Esse é um ponto de interrogação válido, algo a se aguardar e conferir.

“Essa história não me é estranha…”

De resto, a série é um primor. Atuações, Evan Rachel Wood, casting, Evan Rachel Wood, produção impecável, Evan Rachel Wood, um roteiro e (desenvolvimento do mesmo) intrincado, inteligente e sofisticado na medida certa. Junte-se a isso toda uma abertura de conceitos que possibilitam um nível de discussão conceitual semelhante a outras obras que tratam de maneira séria da inteligência artificial e dos limites da humanidade, fica claro que Westworld teve um bom começo e tem um futuro promissor.

Evan
Rachel
Wood.

O sucesso da série se justifica. Mas o hype, coisa de humanos falíveis, é sempre digno de dúvidas.

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