Se Paris é uma festa, os parisienses estão de ressaca.
Os mitos e verdades sobre a cidade luz.
Em maio deste ano fiz minha primeira viagem a Europa. Visitei cerca de 7 cidades, começando pela cidade luz: Paris.
Se você é rico e sofisticado e vai pra Paris todo ano e já está acostumado a pedir aqueles pratos de nomes compostos; parabéns. Eu juntei grana feito um condenado e cheguei em Paris como a Judy Garland em Nasce uma estrela. Cheio de sonhos, fantasias e problemas de sono por causa do fuso-horário. E o que eu vi lá me emocionou e me irritou como em nenhum outro lugar.
As pessoas amam odiar Paris. Paris não é essas coisas. Os parisienses são grossos. Os garçons de Paris são grossos. Primeiramente, sim, Paris é sim essa coisa toda. Não deve existir lugar no mundo mais foda. Foda em todos os sentidos. Os museus mais fodas, as ruas mais lindas de fodas, o metrô mais foda, o vinho, a comida. Paris parece de mentira de tão linda e foda. Mesmo nas partes fora do centro turístico a cidade pulsa e brilha como naquele filme do Woody Allen. Sabe o conceito de ostentação, pois é, foi criado lá. O Arco do Triunfo, as pontes, o rio Sena, os telhados. Não há como não amar a cidade inteira. Só não gosta de Paris quem é burro.

No meu primeiro dia eu tive vontade de sair correndo pelas ruas cantando La Vie en Rose. Fiquei num apartamento aos pés da Sacre-Coeur (olha a ostentação), no bairro de Montmartre. Sabe a boemia, pois é ela nasceu aqui. Moulin Rouge, Piaf, Amelie Poulain. Tudo divino, maravilhoso. No dia seguinte o primeiro contato com o povo da terra. Não dá pra dizer que os parisienses são grossos. Grosseria não define o que um parisiense é. Se você for um, mil perdões. O parisiense simplesmente não tem saco para turistas. Eles dão a impressão de não quererem você ali. Posso ter tido pouca sorte, posso ter sido um turista abobalhado. Me desculpem, para mim eu estava num cenário de filme. Juliete Binoche poderia trombar em mim a qualquer momento.
Arrisquei-me a arranhar o pouco francês que falo e tomei um vácuo. Um sonoro non. Non o que? Non a minha presença ali. Eu entendo esse sentimento de dois imãs com cargas iguais que emana dos parisienses. Agora eu entendo, mas lá isso me desarmou. O povo de Paris simplesmente está cansado de tanta gente. E por tanta gente entenda muita, muita gente mesmo. A fila do Louvre era de aproximadamente 3 horas. No Museu D’Orsay a mesma coisa. Pra entrar na torre da Notre Dame gastei na fila uma hora e meia. Mais uma hora pra andar lá dentro. A Sacre-Coeur visitei como um boi na boiada, andando rapidamente pra não atrapalhar o fluxo. Na Torre Eiffel nem me dei o trabalho de subir. Não existe esse romantismo dos violinos e das garrafas de champanhe. Quando não estão lhe empurrando mini torres feitas de latão descascado, golpistas, na maioria imigrantes do Leste Europeu, tentam te aplicar o golpe do anel, que agora está muito manjado e foi substituído pelo golpe da lista (eles te param pra assinar uma lista e enquanto isso limpam seus bolsos como ninjas!).

O mais triste de ver foi o Louvre. Sim, o Louvre é como a Disneyland das artes. São quatro (ou três, não sei) pavilhões com tudo de mais lindo que o ser humano já criou. Só que parece que toda a humanidade também está lá dentro. Não tem como apreciar nada. Não tem como sentar e ver um quadro em silêncio. Centenas de turistas, especialmente japoneses (coreanos, chineses, tailandeses, o pessoal da Ásia tem um fetiche por Paris) pulam na sua frente como grilos clicando máquinas fotográficas mesmo onde isso não é permitido. E o frenesi chega ao limite da sanidade na sala da Mona Lisa. Tinha tanta gente, estava tão quente, o pessoal falava tão alto, que o mercadão de Madureira perto daquilo pareceria um templo budista. Claro, fiquei na fila, fiz minha foto e saí com um roxão no braço e a camisa encharcada de suor.

A melhor coisa foi passear de metrô. Principalmente no fim da tarde (depois das 18 horas, horário de rush), quando a cidade começa a se iluminar. Paris a noite é mais Paris. Dá pra bater perna pelas ruas, ver o zumzumzum dos bares, o pessoal fumando encostado no muro. Outros locais, fora do caldeirão de turistas, são como ilhas de sossego. O museu da Idade Média, o bairro do Marais, a livraria Shakespeare and Company, onde se vendem somente livros em inglês e sempre aparece um turista tonto perguntando por livros em francês. Tudo isso me aliviou e fez o passeio valer a pena.
A famosa grosseria parisiense pode ser considerada cansaço. Cansaço por ter que morar no lugar mais lindo do mundo e não poder aproveitar. É fácil compreender. Seu eu fosse um parisiense, de boina, camiseta listrada e uma baguete na mão, acharia uma tortura ser considerado um personagem do filme Amelie Poulin. Paris vende uma marca, os turistas vão atrás disso, mas se esquecem que a cidade é feita para os moradores dela. Claro, nem todo parisiense é grosso. Mas boa parte deles está visivelmente de saco cheio.

Outra coisa ultrajante são os preços. Paris é para ricos ou para pessoas ninjas capazes de sobreviver com um brioche e um copo de água. Lembro que paguei 13 euros, tenebrosos 40 reais, por um cachorro quente aos pés da Torre. 13 Euros. Foi um cachorro quente inesquecível, com os barcos zarpando Sena abaixo, músicos tocando o tema de Yann Tiersen, balões coloridos. Mas 13 euros são 13 euros.
Se eu pudesse dar 10 dicas vitais pra quem vai encarar o desafio da cidade de Piaf e Quasímodo seriam estes:
1 – Comece a frase sempre com “pardon”. Você tem que pedir desculpar por está ali. Aprenda pelo menos o merci, de rien, s’Il vous plaît. Só então comesse a falar inglês, muito devagar e cautelosamente. A lenda de que os parisienses não gostam de falar inglês se provou verdadeira quando tentei obter informação e a senhora simplesmente me ignorou assoviando.
2 – Compre ingressos com antecedência. Em todos os lugares há filas apocalípticas. Comprei meu ingresso pro Louvre e D’Orsay pela internet e me senti Carlos Magno ao passar pelos sofredores da fila com meu bilhete premiado.
3 – Tente ir ao Louvre mais de uma vez. É grande. É cheio de coisas que só conhecemos dos livros e do Discovery Channel. Passei um dia inteiro e acho que vi apenas 000000000000002% de tudo que deveria ver. Se não tiver tempo, seja objetivo. Marque seus pontos principais. Ala egípcia (múmias, muitas múmias!), renascimento (Mona Lisa, Da Vinci, Michelangelo), ala grega (Vênus de Milo). Desapegue-se. Aceite o fato de deixar outras coisas sem ver.
4 – Gaste um dia no D’Orsay. Este foi o meu museu preferido. Cheio? Sim. Como o Louvre? Nem de perto. Monet e seus colegas estão lá de pertinho. O prédio é uma linda estação de trem e ao redor tem um monte de coisa legal pra fazer.
5 – Compre sua comida. Se puder fique em casas por temporada, ou consulte o Airbnb (olha o jabá) e alugue por preços mais em conta e com a vantagem de fazer sua comida. Gastei cerca de (pasmem) 50 euros em compras pra comer por 5 dias. A regra era: café da manhã e pelo menos mais uma refeição em casa. Quando dava saia pra comer num lugar chic, mas só de vez em quando.
6 – Pegue um metrô sem destino. Sair nas estações de Paris é uma aventura. Claro, fique atento para não sair do perímetro central, ou você vai parar numa quebrada (passei por várias vindo do aeroporto de Orly). Passear sem rumo é sempre uma coisa boa, bonita e barata, sem contar que o metrô deixa você em qualquer lugar por preços módicos.
7 – Não tente ver a cidade toda. Não vai rolar. Escolha uma região e fique por ali. Ilê (Notre Dame e afins), Marais (bairro judeu, com bares gays – vai entender), Montparnasse (catacumbas), Quartier Latin (construções históricas e lojas), e claro, Montmartre, o melhor lugar da cidade na minha opinião.
8 – Não banque o turista abobalhado o tempo todo. Tente sair à paisana. Roupa comum, câmera portátil. Deixe pra tirar foto só daquilo que você não vai ver duas vezes. Se você for fotografar tudo o que Paris tem de bonito vai se tornar aquele carro do Google Street View. Desencane da onda de turista e sinta a cidade. Vá comprar pão. Pelo menos um dia sente-se num boteco comum (é difícil, pois o conceito de boteco deles é como um restaurante de luxo pra nós). Tire um dia pra brincar de ser parisiense.
9 – Se forem grossos, faça o mesmo. Sem querer incentivar o ódio, mas a única forma de lidar com a acidez-gélida-chic-foda-se do parisiense é ser como eles. Uma vez fui comprar frutas num supermercado e ao pagar com o cartão de viagens o atendente pediu que eu assinasse a guia, só que eu não tinha caneta, e ele não estava a fim de me emprestar a dele (!). O que eu fiz? Encarnei o senhor Hullot e emperrei a fila do caixa. Ça vá? Resultado? Uma senhora muito linda e chic me deu sua Mont Blanc pra assinar a guia (mentira, era uma caneta Bic falhando mas em Paris a gente tem que enfeitar as coisas). A maneira ríspida de lidar com o turista é uma forma de proteção do povo de Paris, portanto, seja sempre educado, mas quando não der, faça o famoso carão e saia cantarolando La Vie En Rose.
10 – Não tenha síndrome de Paris. Não sabe o que é a SDP? É como a síndrome de Jerusalém (um comportamento onde muitos turistas que vão a Jerusalém resolvem ficar por lá por conta de uma iluminação espiritual) só que ao contrário. Muita gente fica decepcionada em ver que Paris não é uma festa. Ou melhor, é, mas nem sempre a gente é o convidado de honra. Aceite os defeitos. Nenhum lugar do mundo pode ser o que Paris é sem alguns reveses.
No mais posso dizer que sim, amei a cidade luz, e que ela me amou a sua maneira. A festa que Paris é não é pra todo mundo. Já passaram pelo salão Maria Antonieta, Sartre, Hemingway, Toulouse- Lautrec, Camus e muitos outros. Nós, que estamos chegando agora, temos primeiro que se enturmar. E quem não quer participar dessa festa, mesmo que seja como penetra?
ps: Vai pra Paris pela primeira vez? Dá uma olhada neste blog que tem dicas que vão salvar sua vida.
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