limpeza.

eu pensei muito em como elaborar esse texto, em qual metáfora me apoiar pra fazer as minhas tradicionais brincadeiras. marquei meu tratamento com a marca de dividir as experiências com quem se interessar de maneira irônica, um pouco de humor mórbido.
esse é o texto que desde que tudo começou eu mais quis escrever: o da limpeza. eu estou limpo. não há uma célula sequer de doença no meu organismo. eu levei uma semana ou mais para conseguir assimilar esta informação e processar tudo que vem com ela.
agora eu posso com calma e serenidade trabalhar melhor a minha vida. eu posso reorganizar as coisas que voltam a ser prioridades. na filosofia — que eu tanto combati durante meu tratamento — da batalha: ao fim dela, eu sairia deste tratamento ou vivo ou morto. muito provavelmente vivo, eu na verdade, nem passei perto da morte. eu estive vivo durante. eu estou vivo agora. e estou normalmente vivo. com obesidade grau 1, com problemas de apnéia do sono, com sérios indícios de ansiedade e depressão, com um claro problema de estafa profissional. eu estou vivo. e vou ficar vivo. agora, a minha batalha é o que fazer com essa vida reabilitada.
eu estou retomando os exercícios. eu marquei nutricionista. eu tenho que assumir que tenho um problema enorme com essas duas coisas. eu como mal. e eu, desde o final de tudo, engordei muito quilos. quase 20 quilos entre a pesagem do último ciclo de quimio para hoje, são 20 quilos acima do peso. eu sou responsável pelas minhas escolhas e não posso ficar dando desculpas para todos os lados. eu escolho enfiar as merdas que enfio na boca sem o menor motivo ou sem sequer sentir fome. é tudo culpa minha. é culpa minha ter o descontrole sobre a minha vida e não conseguir pensar em nada que não seja relacionado com emprego ou doença nos últimos anos.
na minha carreira, que já passou de uma década, eu, ainda millenial, achava um absurdo a devoção das pessoas da minha indústria. a glamourização total do "virar noites", trabalhar aos finais de semana. o orgulho de falar que foi dormir de madrugada. eu odiava isso. eu desdenhava disso. eu sempre tentei delimitar minha vida pessoal e minha vida profissional. eu tenho a consciência da minha ansiedade e de quando ela pode ser corrosiva.
durante a doença eu tentei mergulhar cada vez mais no emprego para que a minha cabeça se condicionasse a interpretar como eu queria a situação: que eu estava totalmente ok e que por isso eu podia trabalhar normalmente. isso foi indo até o sexto ciclo, por aí. depois meu corpo deu claros sinais de que precisava de um descanso. mas minha cabeça não descansava não. hoje sou refém de tudo isso. é sábado e parei o que estava fazendo da agência para escrever esse texto.
eu preciso viver pra mim. me exercitar por mim, comer melhor por mim. eu tenho essa consciência há tanto tempo! e a impotência de conseguir colocar tudo em prática e as constantes sabotagens que pratico pioram a minha saúde mental, misture com isso pitadas de workaholic. eu estou pior hoje. bem, esse texto tomou um rumo inesperado. eu não vou editar. eu vou publicar. pra eu mesmo ler daqui um tempo.
o texto que fala que eu não tenho mais o câncer em mim serviu para eu admitir minha ansiedade. esta ansiedade que está começando a me deixar com medo do futuro breve. eu estou inseguro com minha vida. a ansiedade somada à insegurança leva ao que? eu digo dê, vocês dizem pressão. depressão. e quem vive, sabe que não é frescura. o meu caso é desilusão comigo mesmo. e eu já fui em psiquiatras e tal. mas eu não quero entrar na onda dos remédios. eu já tentei vários (vários mesmo) e não ajuda. então quero melhorar por mim, pra mim, sem químicos.
agora o adendo tenebroso (e hoje sem piadinhas): eu, certo dia, cheguei a pensar que talvez eu não quisesse tanto assim ter me curado. pois, com a cura, perdia uma excelente muleta pra todos meus outros problemas. percebem o perigo? é claro que eu sei que isso é absurdo e que eu devo mesmo estar feliz por ter saído. o problema, senhores, é pensar isso inconsciente. é seu corpo, sua psiquê, projetar esse pensamento em você. nasceu de você. de dentro. com os estímulos que a vida dá. esse é o medo. ter a consciência de que está tudo errado no pensamento, mas que, de algum lugar seu, brotou isso.
eu, por aqui, agradeço todo o apoio que tive na travessia das pessoas. quem tem fé e rezou, quem não tem e mandou abraços, quem abraçou de fato, quem esteve por perto mesmo que longe. eu agradeço e amo todo o apoio que tive. eu vou sair de mais essa.

